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Interior

“Ela era nosso porto seguro”, dizem filhas de vítima de feminicídio

Fátima Aparecida da Silva, de 57 anos, foi assassinada pelo sobrinho com golpes de panela e máquina de serra

Por Clara Farias | 29/03/2026 16:35
“Ela era nosso porto seguro”, dizem filhas de vítima de feminicídio
Da esquerda para direita, Julcimeire, Natalia e Fátima (Foto: Arquivo Pessoal)

A dor ainda é recente para a família de Fátima Aparecida da Silva, de 57 anos, morta há seis dias dentro da própria casa, em Selvíria, a cerca de 400 quilômetros da Capital. Em entrevista ao Campo Grande News, as filhas descrevem uma mulher marcada pela generosidade, pela força e por uma vida inteira de trabalho para sustentar os filhos. Fátima foi assassinada pelo próprio sobrinho, Maurício da Silva, de 21 anos, em 23 de março e é o 8° feminicídio registrado em Mato Grosso do Sul em 2026.

RESUMO

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A família de Fátima Aparecida da Silva, de 57 anos, clama por justiça após o seu assassinato em Selvíria, Mato Grosso do Sul. A vítima foi morta a golpes na própria residência pelo sobrinho, Maurício da Silva, de 21 anos, que foi preso em flagrante. O crime é o oitavo feminicídio registrado no estado em 2026. Filhas da vítima contestam a tese de legítima defesa e descrevem o ato como cruel, destacando a trajetória de Fátima como uma mulher trabalhadora e generosa que apoiava o autor.

“Minha mãe era uma mulher muito generosa, de coração enorme. Sempre ajudava todo mundo e colocava os outros na frente dela”, relata a filha, Natália Aparecida da Silva. Segundo ela, Fátima era o “porto seguro” da família e responsável por manter a união dentro de casa.

A trajetória da vítima foi marcada por dificuldades desde a infância. Nascida no interior de São Paulo, Fátima perdeu a mãe ainda jovem e assumiu responsabilidades dentro de casa, cuidando dos irmãos e do pai. Sem acesso à educação formal, trabalhou a vida inteira em serviços pesados, principalmente na roça.

Já adulta, mudou-se para Selvíria em busca de uma vida mais tranquila, onde construiu a própria casa e criou os quatro filhos. “Ela foi uma mulher guerreira, sofrida, mas com um coração extremamente generoso. Mesmo sem alfabetização, sempre deu o seu melhor”, afirma a filha.

Outra filha, Julcimeire, reforça a personalidade forte da mãe. “Ela perdeu a mãe com cerca de cinco anos e foi a única mulher da família, cuidando dos irmãos e trabalhando na roça. Sofreu muito para criar os filhos, mas sempre manteve todos unidos”, disse.

“Ela era nosso porto seguro”, dizem filhas de vítima de feminicídio
Filhos de Fátima da esquerda para direita: Natália, Iara, Julcimeire e Aroan (Foto: Arquivo Pessoal)
“Ela era nosso porto seguro”, dizem filhas de vítima de feminicídio
Fátima e a filha, Julcimeire (Foto: Arquivo Pessoal)

Fátima também enfrentou violência no primeiro casamento e criou as três filhas sozinha após se separar. Já em Selvíria, construiu nova família ao lado do companheiro, que morreu há quatro meses. Desde então, dividia o tempo entre o sítio onde vivia e os cuidados com o pai idoso.

O autor do crime e sobrinho de Fátima, Maurício, morava próximo à casa dela. Segundo a filha, os dois conviviam e frequentemente a vítima ajudava o homem. “A gente sabia que ele tinha um comportamento difícil, mas minha mãe nunca virou as costas. Ela ajudava com comida, dinheiro e apoio”, contou Natália. Apesar dos alertas dos filhos, Fátima insistia em ajudar o sobrinho.

Para Julcimeire, a proximidade torna o crime ainda mais difícil de compreender. “Ele era de dentro da casa dela. Morava ao lado e tinha se mudado recentemente, mas sempre esteve por perto”, afirmou. Fátima foi morta dentro da própria residência. A família contesta a versão apresentada por Maurício, de legítima defesa, e descreve a cena como extremamente violenta.

“Ela era nosso porto seguro”, dizem filhas de vítima de feminicídio
Polícia Militar em frente do local do crime, em Selvíria (Foto: Direto das Ruas)

Segundo ela, o cenário encontrado dentro da casa reforça a indignação da família. “Era muito sangue, a casa destruída. É algo que não tem explicação”, disse.

“Minha mãe morreu com várias pancadas na cabeça. Era uma mulher com problemas de saúde, não tinha condições de reagir. O que vimos foi muita crueldade”, relatou Julcimeire.

As filhas também destacam que Fátima tinha planos que não conseguiu realizar. Entre eles, o sonho de se aposentar após uma vida inteira de trabalho. “Ela só queria viver tranquila. Ajudava todo mundo, não fazia mal a ninguém. Só queremos justiça e que a memória da nossa mãe seja respeitada”, concluiu.

Crime – Maurício Mateus da Silva, de 21 anos, matou a própria tia no dia 23 de março de 2026, na casa da vítima, localizada na Rua Antônio Luís de Brito, em Selvíria. Conforme apurado pela reportagem, após cometer o feminicídio, Maurício avisou um dos filhos da vítima e seguiu até um posto de gasolina para tentar limpar o sangue. Os frentistas não permitiram e acionaram a Polícia Militar. Poucos minutos depois, o autor foi preso em flagrante.

Durante audiência de custódia, Maurício alegou que agiu em legítima defesa e afirmou, ainda, que antes do crime havia preparado macarrão para comer com a tia. Segundo a defesa, enquanto cozinhava, a vítima saiu do quarto, não o reconheceu e teria avançado contra ele com uma faca. Maurício teve a prisão preventiva decretada.

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