“Ela era nosso porto seguro”, dizem filhas de vítima de feminicídio
Fátima Aparecida da Silva, de 57 anos, foi assassinada pelo sobrinho com golpes de panela e máquina de serra
A dor ainda é recente para a família de Fátima Aparecida da Silva, de 57 anos, morta há seis dias dentro da própria casa, em Selvíria, a cerca de 400 quilômetros da Capital. Em entrevista ao Campo Grande News, as filhas descrevem uma mulher marcada pela generosidade, pela força e por uma vida inteira de trabalho para sustentar os filhos. Fátima foi assassinada pelo próprio sobrinho, Maurício da Silva, de 21 anos, em 23 de março e é o 8° feminicídio registrado em Mato Grosso do Sul em 2026.
RESUMO
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A família de Fátima Aparecida da Silva, de 57 anos, clama por justiça após o seu assassinato em Selvíria, Mato Grosso do Sul. A vítima foi morta a golpes na própria residência pelo sobrinho, Maurício da Silva, de 21 anos, que foi preso em flagrante. O crime é o oitavo feminicídio registrado no estado em 2026. Filhas da vítima contestam a tese de legítima defesa e descrevem o ato como cruel, destacando a trajetória de Fátima como uma mulher trabalhadora e generosa que apoiava o autor.
“Minha mãe era uma mulher muito generosa, de coração enorme. Sempre ajudava todo mundo e colocava os outros na frente dela”, relata a filha, Natália Aparecida da Silva. Segundo ela, Fátima era o “porto seguro” da família e responsável por manter a união dentro de casa.
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A trajetória da vítima foi marcada por dificuldades desde a infância. Nascida no interior de São Paulo, Fátima perdeu a mãe ainda jovem e assumiu responsabilidades dentro de casa, cuidando dos irmãos e do pai. Sem acesso à educação formal, trabalhou a vida inteira em serviços pesados, principalmente na roça.
Já adulta, mudou-se para Selvíria em busca de uma vida mais tranquila, onde construiu a própria casa e criou os quatro filhos. “Ela foi uma mulher guerreira, sofrida, mas com um coração extremamente generoso. Mesmo sem alfabetização, sempre deu o seu melhor”, afirma a filha.
Outra filha, Julcimeire, reforça a personalidade forte da mãe. “Ela perdeu a mãe com cerca de cinco anos e foi a única mulher da família, cuidando dos irmãos e trabalhando na roça. Sofreu muito para criar os filhos, mas sempre manteve todos unidos”, disse.

Fátima também enfrentou violência no primeiro casamento e criou as três filhas sozinha após se separar. Já em Selvíria, construiu nova família ao lado do companheiro, que morreu há quatro meses. Desde então, dividia o tempo entre o sítio onde vivia e os cuidados com o pai idoso.
O autor do crime e sobrinho de Fátima, Maurício, morava próximo à casa dela. Segundo a filha, os dois conviviam e frequentemente a vítima ajudava o homem. “A gente sabia que ele tinha um comportamento difícil, mas minha mãe nunca virou as costas. Ela ajudava com comida, dinheiro e apoio”, contou Natália. Apesar dos alertas dos filhos, Fátima insistia em ajudar o sobrinho.
Para Julcimeire, a proximidade torna o crime ainda mais difícil de compreender. “Ele era de dentro da casa dela. Morava ao lado e tinha se mudado recentemente, mas sempre esteve por perto”, afirmou. Fátima foi morta dentro da própria residência. A família contesta a versão apresentada por Maurício, de legítima defesa, e descreve a cena como extremamente violenta.
Segundo ela, o cenário encontrado dentro da casa reforça a indignação da família. “Era muito sangue, a casa destruída. É algo que não tem explicação”, disse.
“Minha mãe morreu com várias pancadas na cabeça. Era uma mulher com problemas de saúde, não tinha condições de reagir. O que vimos foi muita crueldade”, relatou Julcimeire.
As filhas também destacam que Fátima tinha planos que não conseguiu realizar. Entre eles, o sonho de se aposentar após uma vida inteira de trabalho. “Ela só queria viver tranquila. Ajudava todo mundo, não fazia mal a ninguém. Só queremos justiça e que a memória da nossa mãe seja respeitada”, concluiu.
Crime – Maurício Mateus da Silva, de 21 anos, matou a própria tia no dia 23 de março de 2026, na casa da vítima, localizada na Rua Antônio Luís de Brito, em Selvíria. Conforme apurado pela reportagem, após cometer o feminicídio, Maurício avisou um dos filhos da vítima e seguiu até um posto de gasolina para tentar limpar o sangue. Os frentistas não permitiram e acionaram a Polícia Militar. Poucos minutos depois, o autor foi preso em flagrante.
Durante audiência de custódia, Maurício alegou que agiu em legítima defesa e afirmou, ainda, que antes do crime havia preparado macarrão para comer com a tia. Segundo a defesa, enquanto cozinhava, a vítima saiu do quarto, não o reconheceu e teria avançado contra ele com uma faca. Maurício teve a prisão preventiva decretada.
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