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Pesquisa investiga poder de rezadores indígenas contra crise climática

Estudo em MS vai ouvir rezadores Guarani e Kaiowá e prevê construção de casas de rezas em aldeias

Por Inara Silva | 16/03/2026 09:07
Pesquisa investiga poder de rezadores indígenas contra crise climática
Casa de Reza da Aldeia Taquaperi, em Coronel Sapucaia. (Foto: MidiaTaquapery)

Como os saberes espirituais dos povos indígenas podem contribuir para enfrentar a crise climática? Essa é a pergunta que orienta um projeto de pesquisa que será desenvolvido em Mato Grosso do Sul e que pretende investigar o papel das rezas e dos rezadores Guarani e Kaiowá na relação com a natureza e na proteção do território.

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Um projeto de pesquisa em Mato Grosso do Sul vai investigar como os saberes espirituais dos povos Guarani e Kaiowá podem ajudar no enfrentamento da crise climática. Coordenado pela UCDB, o estudo receberá R$ 70 mil em financiamento e pretende analisar o papel dos rezadores e suas práticas na proteção ambiental. A pesquisa, que incluirá diálogos com comunidades indígenas e a construção de três casas de reza, busca integrar conhecimentos tradicionais ao debate científico sobre mudanças climáticas. O coordenador Heitor Medeiros destaca que os povos indígenas são fundamentais na preservação ambiental, mas não são os responsáveis pela crise climática, que afeta desigualmente diferentes grupos sociais.

Intitulado “Contribuição dos Rezadores e Rezas Kaiowá e Guarani para o enfrentamento da Crise Climática”, o estudo é coordenado pelo pesquisador Heitor Queiroz de Medeiros,  da UCDB (Universidade Católica Dom Bosco) e deve receber R$ 70 mil em financiamento público da Fundect (Fundação de Apoio ao Desenvolvimento do Ensino, Ciência e Tecnologia de Mato Grosso do Sul), conforme publicação no Diário Oficial do Estado.

Segundo Medeiros, a proposta parte da ideia de que o enfrentamento da crise climática exige diferentes formas de conhecimento, incluindo saberes tradicionais. “Com todos os avanços que temos na produção científica, ainda não conseguimos dar conta sozinhos desse desafio. O conhecimento científico é fundamental, mas precisamos ampliar as possibilidades e dialogar com outros saberes”, afirma o pesquisador.

Escuta de rezadores - De acordo com o coordenador, a pesquisa parte da constatação de que os povos indígenas são reconhecidos como importantes aliados na proteção ambiental.

“Os povos indígenas são os que menos destroem a natureza. As áreas indígenas estão entre as regiões mais preservadas do país, o que contribui diretamente para o sequestro de carbono e para o enfrentamento da crise climática”, afirma.

A pesquisa pretende compreender como rezadores e rezadoras interpretam a relação entre espiritualidade, natureza e cuidado com o território. Esses líderes espirituais são responsáveis por transmitir conhecimentos tradicionais por meio da oralidade e têm papel central na cultura das comunidades.

De acordo com Medeiros, já existem estudos acadêmicos sobre a relação dos povos indígenas com a natureza, mas a proposta do projeto é investigar especificamente como esses saberes podem dialogar com o debate contemporâneo sobre crise climática e justiça climática.

Para o pesquisador, a crise climática não afeta todos da mesma forma e está ligada ao modelo de desenvolvimento econômico baseado na exploração intensiva de recursos naturais. Ele explica que o debate sobre mudanças ambientais precisa considerar o conceito de justiça climática, que busca discutir responsabilidades e impactos desiguais da crise ambiental.

“Não podemos tratar todos como responsáveis da mesma forma. Os povos indígenas e as populações mais pobres não são os principais responsáveis por esse processo”, diz.

Segundo Medeiros, o cuidado com a natureza faz parte da cosmologia indígena há muito tempo. “O que estamos tentando investigar é como esses conhecimentos podem contribuir para pensar o enfrentamento da situação que vivemos hoje”, explica.

Pesquisa investiga poder de rezadores indígenas contra crise climática
Casa de reza vista por dentro na Aldeia Taquaperi. (Foto: MidiaTaquapery)

Metodologia - A investigação será conduzida principalmente por meio de metodologia qualitativa, baseada no diálogo e na escuta das comunidades. A ideia é realizar encontros e conversas com rezadores para compreender como seus conhecimentos e práticas podem dialogar com o debate contemporâneo sobre clima e meio ambiente.

“Trabalhando com povos indígenas, a metodologia precisa respeitar a forma como o conhecimento é compartilhado. Muitas vezes isso acontece em rodas de conversa, em encontros informais, no tempo deles”, afirma o professor.

A principal área de estudo será a aldeia Taquaperi, localizada no município de Coronel Sapucaia, na região de fronteira com o Paraguai.

O trabalho de campo contará com a participação do pesquisador indígena Claudemiro Pereira Lescano, que realiza estágio pós-doutoral no programa de pós-graduação em Educação da UCDB. Morador da aldeia e diretor da escola local, ele atuará como articulador entre o projeto e as lideranças comunitárias.

Segundo Medeiros, a presença de um pesquisador indígena na equipe é fundamental. “Ele vive na aldeia, conhece as lideranças e tem a confiança das pessoas. Isso é essencial para que possamos desenvolver a pesquisa”, explica.

Pesquisa investiga poder de rezadores indígenas contra crise climática
A Casa de Reza e seus símbolos sagrados. (Foto: MídiaTaquapery)

Casa de reza - Além da investigação acadêmica, o projeto também inclui uma ação de extensão universitária nas comunidades indígenas. A proposta é construir três casas de rezas, espaços tradicionais de espiritualidade, em aldeias de Mato Grosso do Sul.

As estruturas deverão ser erguidas em sistema de mutirão com participação das comunidades nas aldeias Limão Verde, no município de Amambai; Guassuty, em Aral Moreira; e Taquaperi, em Coronel Sapucaia.

Segundo o coordenador da pesquisa, a iniciativa busca fortalecer espaços espirituais que têm grande importância cultural para os povos indígenas. “Essas casas são o lugar onde acontecem as rezas e onde se transmite o conhecimento tradicional. Fortalecer esses espaços também é valorizar essa sabedoria”, afirma.

Pesquisa investiga poder de rezadores indígenas contra crise climática
Placa identifica localização da Aldeia Taquaperi (Foto MidiaTaquapery)

Resultados - A expectativa é que o trabalho dure dois anos, a partir da liberação dos recursos, e que as conclusões possam contribuir para ampliar o diálogo entre ciência, saberes indígenas e políticas públicas voltadas ao enfrentamento da crise climática.

“Nosso objetivo é somar ao debate que já existe, trazendo contribuições da pesquisa científica e também das lideranças indígenas”, afirma Medeiros.

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