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Diversão

Sandálias de Frei Mariano festeja a “praga” do padre vingativo

Homenagem abriu Carnaval em Corumbá na noite de quarta-feira (11)

Silvio de Andrade, de Corumbá | 12/02/2026 08:27
Sandálias de Frei Mariano festeja a “praga” do padre vingativo
Folia começou oficialmente em Corumbá nesta quarta-feira (11)

O carnaval reacendeu de forma humorada e alegre o estigma do azar rotulado nos ciclos de desenvolvimento e decadência de Corumbá, apregoados pela lenda do final do século XIX envolvendo o polêmico pároco Frei Mariano de Bagnaia. O religioso teria lançado uma maldição sobre a cidade que o chamou de caloteiro por não pagar pelo relógio instalado na torre da Igreja Nossa Senhora da Candelária, construída por ele no final dos anos de 1880.

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O carnaval de Corumbá revive de forma bem-humorada a lenda do Frei Mariano de Bagnaia, que teria amaldiçoado a cidade no século XIX após ser chamado de caloteiro. Segundo a história, o religioso enterrou suas sandálias em local desconhecido, jurando que a cidade só prosperaria quando elas fossem encontradas. Há 20 anos, o bloco carnavalesco "Sandálias de Frei Mariano" transformou a suposta maldição em festa. Criado pela ativista cultural Heloísa Urt em 2006, o grupo desfila pelo centro histórico com uma marchinha que satiriza a lenda, contribuindo para resgatar a autoestima da população e se tornando uma das manifestações mais tradicionais do carnaval corumbaense.

A crença supersticiosa se estabeleceu ao longo de séculos atribuindo os descaminhos econômicos da região a um fato que se propagou e virou meia verdade: o frei antes de deixar a cidade, bateu as sandálias para tirar a poeira e as enterrou em local incerto, rogando que Corumbá só voltaria a se prosperar quando as mesmas fossem encontradas. “Desse lugar cidade não levo nem o pó”, teria dito ele, sobrevivente da Guerra do Paraguai (1864-1870).

As sandálias nunca foram encontradas, mas a cidade homenageou Frei Mariano, dando seu nome a uma rua charmosa de paralelepípedos em direção ao Rio Paraguai, e há 20 anos a incorporação da suposta praga aos festejos do carnaval desmistificou aquilo que já se sabia: os revezes econômicos e políticos de Corumbá foram motivados pelo seu isolamento, fim dos ciclos portuário e ferroviário e falta de investimentos.

Na noite de ontem, a saída do bloco Sandálias de Frei Mariano pelo centro histórico selou, mais uma vez, o fim de uma superstição que, de certa forma, incomodada o corumbaense. A irreverência, a alegria e a letra de uma marchinha muito bem elaborada e criativa satirizando e chispando o azar envolveram a multidão seguindo um carnavalesco travestido de padre. O bloco foi criado em 2006 pela ativista cultual Heloísa Urt, a Elô, num momento de retomada da cidade.

Fora com o chulé do padre!

Fora com o azar!

Hoje eu quero é folia

Hoje eu quero rosetá

Sandálias de Frei Mariano festeja a “praga” do padre vingativo
“Incorporar o Frei Mariano é uma alegria, mas o bloco veio também para jogar essa história de praga na cara do povo”, diz Kleber Kosta. (Foto: Silvio de Andrade)

Na cara do povo - O surgimento do Sandálias contribuiu para resgatar a autoestima da população e a emblemática marchinha criada por Helô, inspirada na lenda, consolidou-se como como uma das manifestações mais tradicionais da folia corumbaense. Um símbolo de irreverência e valorização da cultural. A lenda virou marchinha, que ao longo dos anos se tornou um dos hinos mais cantados do carnaval local. E o frei já é cultuado como um herói mal interpretado...

“Incorporar o Frei Mariano é uma alegria, mas o bloco veio também para jogar essa história de praga na cara do povo”, diz Kleber Kosta, 49, profissional de dança, que vestiu a batina e arrastou os foliões pelas ruas da cidade, dentre os quais o prefeito Gabriel Alves de Oliveira. “Corumbá está dando uma guinada, com ou sem as sandálias”, brincou ele. “O Sandálias traz energia boa, muita alegria e diversão, em um ambiente bem familiar e respeitoso ao frei.”

À frente do bloco, a aposentada Aparecida Albuquerque, 66, é a guia escolhida por Helô para carregar o estandarte do bloco, o que faz com prazer e felicidade nesses 20 anos. “Não sei onde consigo forças, mas se eu não sair no bloco acho que fico até doente”, comenta, girando a bandeira que identifica o bloco em torno do frei personificado. A sua força vai além da fé. Pelo amor ao carnaval, vai sair no bloco de sujos Cibalena, amanhã, e em duas escolas de samba.


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