Nos bastidores, COP15 acontece com as mãos de campo-grandenses anônimos
Vivianes e Marcelas fazem do evento mundial um espaço de aprendizado e crescimento pessoal
Até o próximo domingo, Viviane Fernandes de Aquino percorrerá diariamente os 16,2 km entre sua casa, no bairro Vilas Boas, e o Bosque Expo, no Parque Novos Estados. O trajeto é para vender seus pastéis na COP15 (15ª Conferência das Partes da Convenção sobre a Conservação das Espécies Migratórias de Animais Silvestres). Ela é apenas uma das centenas de pessoas que atuam nos bastidores e garantem que o evento internacional aconteça.
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A COP15, em Campo Grande, conta com centenas de profissionais locais nos bastidores, desde vendedores de alimentos até equipes de limpeza e apoio. Comerciantes como Viviane Fernandes e Creuza do Amaral adaptaram seus cardápios para atender o público internacional, oferecendo opções tradicionais e veganas. A conferência também mobilizou jovens profissionais como Marcela Meireles e Jorge Silva na manutenção, Tatiana Cação na recepção bilíngue, e estudantes universitários como João Balbuena e Letícia Ferreira no voluntariado. O evento proporciona uma experiência única de intercâmbio cultural e oportunidades profissionais para os campo-grandenses.
Acostumada a participar das feiras culturais da Capital, Viviane agora se vê habituada a responder “thank you” a cada venda. “Eu fiz meu cardápio em inglês e espanhol, né? Algumas coisas eu consigo entender, mas se não dá, a pessoa mostra a vaquinha, mostra a galinha, mostra o queijo. E tá tudo certo”, conta, aos risos.
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Creuza do Amaral também marca presença na praça de alimentação da conferência com salgados veganos, como saltenha de carne de jaca e pão chinês. “A saltenha, que é um salgado tradicional boliviano e muito comum no Estado, a gente fez na versão vegana, com recheio de jaca verde desfiada”, disse ela, explicando ainda que a escolha pelo pão chinês remete à origem oriental dos fundadores do negócio.
Segundo Creuza, a organização do evento entrou em contato com a empresa onde trabalha em busca de quem atuasse com gastronomia regional ou pudesse se adequar ao perfil da COP. “Informaram que muitos dos participantes apreciavam essa culinária (vegana), então a gente tentou trazer a referência sul-mato-grossense, mas atendendo o que eles consomem”, comentou.
Na limpeza e na reposição de copos, água e café, Marcela Meireles e Jorge Silva, ambos com pouco mais de 20 anos e moradores do bairro Nova Lima, foram contratados por meio de uma empresa parceira. Marcela recolhia papéis no chão quando conversou com a reportagem.
“É a primeira vez que eu trabalho num evento desse tamanho. É bem diferente, uma oportunidade diferente, com muitas pessoas diferentes, etnias diferentes, culturas. É a diversidade”, relata a jovem, animada.
Para Jorge, que tem a missão de monitorar a demanda de copos e o estoque de água e café, a experiência na COP15 é sinônimo de aprendizado e crescimento. Ele comenta que, provavelmente, nunca teria acesso a tantas pessoas e idiomas se não fosse a conferência. “Tenho ainda campos novos para descobrir; vejo aqui como uma porta de oportunidades”.
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A recepção de autoridades e delegações estrangeiras exige suporte especializado, papel desempenhado por profissionais como Tatiana Cação. Embora trabalhe no Tribunal de Justiça, sua trajetória como professora de inglês a credenciou para a vaga de recepcionista bilíngue. Com experiência em eventos como a Liga Mundial de Vôlei e os Jogos Pan-Americanos, ela nota um tom distinto na conferência ambiental.
Segundo Tatiana, o ambiente da COP15 é mais sério e formal devido à presença de autoridades mundiais, mas a gentileza prevalece. Além de orientar sobre a programação, ela atua como uma ponte com a cidade, dando dicas de restaurantes e centros comerciais. “Eles estão apaixonados pela cidade”, afirma, ao comentar o que ouviu dos participantes.

Já fora dos portões do centro de convenções, a logística de transporte garante que o fluxo de participantes não pare. Rogério Alves Gonçalves é um dos motoristas responsáveis pelo trajeto entre os hotéis e o local do evento. Cumprindo um roteiro rigoroso de horários, ele inicia o turno às 7h para garantir a chegada pontual dos congressistas. “São pelo menos seis viagens de ida e volta aos hotéis, até encerrar”, relatou.
Voluntários – A dinâmica acadêmica e a busca por currículo também trouxeram estudantes para a linha de frente. João Balbuena e Letícia Ferreira, acadêmicos de Engenharia Ambiental e Engenharia de Software da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), ingressaram como voluntários após edital de seleção na universidade.
Para ambos, a barreira do idioma é o principal desafio e, ao mesmo tempo, a maior oportunidade. Letícia conta que o domínio do inglês foi o critério decisivo para a chamada. No dia a dia, eles atuam como guias improvisados, resolvendo desde dúvidas sobre a localização de bebedouros até questões culturais, como as diferenças de fuso horário ou a potabilidade da água local.
O aprendizado é prático. João recorda o atendimento a uma congressista de sotaque árabe que questionava sobre a temperatura da água. “Ela me perguntou sobre a diferença da água natural para gelada. Daí, perguntou se a água era potável ou não. Fiquei meio em dúvida, né? Por que a gente não daria água potável? Não entendi, mas respondi”, disse.
Letícia lembra da necessidade de adaptação constante, já que as informações e fluxos do evento mudam a todo momento. “Mas a equipe nos preparou bem, avisando todos os horários e como tratar as pessoas”, completou a estudante.
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