Março lilás: a ciência já avançou, e nós?
Segundo dados do observatório global do câncer, órgão da Organização Mundial de Saúde (OMS), o câncer de colo de útero é o terceiro tipo de câncer que mais afeta mulheres em todo o planeta, atrás apenas do câncer de mama e do câncer colorretal. No Brasil, segundo dados do observatório, o câncer do colo uterino é o que mais mata mulheres antes dos 40 anos, no auge da sua vida. Todos os anos crianças perdem mães que também são esposas, irmãs, filhas, tias, amigas, ou seja, quando se perde uma mulher para o câncer, parte de um tecido social é desmanchado. E o pior, é um câncer quase totalmente prevenível, pois é possível o diagnóstico e o tratamento precoces, o que resulta em cura na maioria das vezes. Assim, a morte prematura por uma doença prevenível escancara uma realidade de abandono, pois são falhas que precisam ser corrigidas não só com planos e metas, mas com ações efetivas.
O conhecimento avança, e as ações precisam acompanhar esse avanço. Hoje, já se sabe que a maioria dos cânceres de colo uterino são causados pelo vírus HPV, cuja família inclui mais de 70 subtipos, e já são conhecidos quais os subtipos envolvidos em mais de 90% dos casos de câncer, são 9. Além disso, já há vacina com eficácia comprovada contra todos esses tipos de câncer, são muitos estudos publicados demonstrando a queda da incidência e mortalidade por câncer de colo uterino nos países onde a cobertura vacinal é alta.
Além da prevenção, outro campo no qual as pesquisas têm avançado é o do diagnóstico, testes cada vez mais precisos têm sido utilizados para identificar a presença dos vírus de diferentes subtipos no trato genital, e detectar a presença do vírus precocemente significa prosseguir na realização de exames mais específicos e aumentar a vigilância sobre essas mulheres. Uma vez que a presença do vírus é confirmada, é possível fazer exames mais direcionados, como colposcopia e biópsia, permitindo o tratamento das lesões iniciais, impedindo que a doença avance, possibilitando a cura.
Quanto ao tratamento do câncer, também houve avanços importantes. Até pouco tempo, as opções para casos mais avançados eram principalmente quimioterapia, radioterapia e braquiterapia (um tipo de radioterapia interna que aplica a radiação diretamente no local do tumor). Hoje, esses tratamentos podem ser associados à imunoterapia, que estimula o próprio sistema imunológico a reconhecer e combater as células cancerígenas. Essa combinação tem ampliado as possibilidades de tratamento e melhorado as perspectivas de controle da doença em alguns tipos de câncer.
Diante do que a ciência oferece em termos de prevenção, diagnóstico e tratamento do câncer de colo uterino, a OMS entendeu ser possível a sua erradicação e propôs, para 2030, a meta 90-70-90: garantir que 90% das meninas estejam vacinadas contra o HPV até os 15 anos, que 70% das mulheres realizem exame preventivo de alta performance aos 35 e aos 45 anos, e que 90% das mulheres com lesões pré-cancerosas ou câncer recebam tratamento adequado, incluindo cuidados paliativos quando necessários.
No Brasil, considerando que 2030 está logo ali, infelizmente estamos distantes dessa meta, nossa cobertura vacinal ainda é considerada baixa, a maioria dos cânceres de colo uterino ainda é diagnosticada quando a doença já está avançada e ainda precisamos melhorar muito nosso rastreamento. E o que fazer a respeito? Do ponto de vista governamental, aperfeiçoar as políticas que já existem, mas de nada adianta o SUS e a saúde suplementar oportunizarem prevenção e rastreamento efetivos, se não houver conscientização. No âmbito individual, cada mulher deve estar convencida da importância desse cuidado, e uma vez plenamente consciente deve multiplicar, falando sobre o assunto, convencendo outras mulheres a procurarem o serviço de saúde e cobrarem vacinas e exames. Somente com muita atitude, e não só planos e metas poderemos mudar essa realidade triste de uma doença que mesmo diante de todas as possibilidades de cura, ainda tira tantas vidas de mulheres deixando feridas tão profundas em tantos lares.
(*) Lívia Custódio Pereira é médica ginecologista na Unidade de Saúde da Mulher no Hospital Universitário de Brasília. Pesquisadora no laboratório de Microbiologia e Imunologia Clínica-Pós graduação da Faculdade de Medicina da UnB.
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