Quando sabemos o que fazer, mas não mudamos
Se aceitarmos que as sociedades se comportam como sistemas compostos por múltiplos vetores em interação contínua, então a mudança climática constitui um dos casos mais intrigantes do nosso tempo. Diferentemente de muitos episódios históricos, aqui não estamos diante da ausência de informação. O conhecimento científico é robusto, acumulado ao longo de décadas. Modelos climáticos convergem. Evidências empíricas se multiplicam. Eventos extremos tornam-se mais frequentes. A base cognitiva do problema se torna cada vez mais sólida.
Ainda assim, a trajetória global de emissões permanece elevada. Ajustes são feitos. Compromissos são anunciados. Tecnologias renováveis avançam. No entanto, a direção predominante do sistema econômico global não foi profundamente alterada.
Como explicar essa aparente contradição entre saber e não mudar?
A resposta não está numa suposta ignorância coletiva, nem exclusivamente na má-fé de determinados atores. Ela reside, mais provavelmente, na configuração dos vetores que compõem o sistema.
O conhecimento científico constitui um vetor importante. Ele produz informação, alerta e modela riscos. Mas conhecimento não é, por si só, uma direção sistêmica. Para que haja mudança estrutural, é necessário que múltiplos subsistemas — econômico, político, financeiro, cultural e tecnológico — passem a operar sob o mesmo sentido predominante.
No caso climático, o vetor científico aponta claramente para a redução acelerada das emissões de gases de efeito estufa. Parte do setor tecnológico também começa a convergir nessa direção, com a expansão das energias renováveis, a eletrificação dos transportes e a inovação em eficiência energética. Movimentos sociais pressionam por uma transição mais rápida. Empresas reconfiguram portfólios.
No entanto, outros vetores continuam orientados por lógicas de curto prazo. Os mercados financeiros respondem a retornos trimestrais. Os sistemas políticos operam sob ciclos eleitorais relativamente curtos. Os países competem pelo crescimento econômico. Setores intensivos em combustíveis fósseis defendem seus ativos e infraestruturas já instaladas. Consumidores mantêm padrões de consumo consolidados.
O resultado é uma configuração híbrida. Há movimento em direção à transição, mas também há forças que mantêm a trajetória anterior. A resultante ainda não foi suficientemente deslocada.
Esse fenômeno não é exclusivo da agenda climática. Ele ilustra um princípio mais geral: sociedades não mudam apenas porque uma variável se altera. Mudam quando o conjunto de vetores atinge um grau de convergência suficiente para alterar a direção predominante.
Na década de 1980, como discutido anteriormente, a redemocratização brasileira tornou-se possível quando múltiplos subsistemas passaram a compartilhar uma narrativa comum. No caso climático, embora haja um consenso científico crescente, a narrativa não atravessa de forma homogênea todos os subsistemas. Ela encontra adesão parcial, resistência localizada e, muitas vezes, tradução incompleta em políticas públicas.
Há também a dimensão temporal. Sistemas sociais complexos possuem inércia não apenas cultural, mas também infraestrutural. Cidades foram construídas para automóveis. Redes energéticas foram estruturadas para o uso de combustíveis fósseis. Cadeias globais de produção foram desenhadas segundo uma lógica energética determinada. Alterar essas estruturas implica custos, rearranjos e redistribuição de poder. Inércia não significa imobilidade. Significa resistência proporcional à magnitude da mudança pretendida.
O debate climático evidencia outra característica dos sistemas complexos: a assimetria entre benefícios difusos e custos concentrados. Os benefícios da estabilização climática distribuem-se globalmente e ao longo do tempo. Os custos de transição, por sua vez, tendem a concentrar-se em setores e regiões específicas no curto prazo. Essa assimetria dificulta a convergência.
Mesmo quando há acordo formal em conferências internacionais, como as Conferências das Partes (COPs), a implementação depende do alinhamento interno entre os países. E em cada país há múltiplos vetores em disputa.
Isso não significa que nada esteja mudando. Ao contrário, há sinais claros de uma transição em curso. Energias renováveis tornam-se mais competitivas. Veículos elétricos expandem-se. Investimentos em eficiência crescem. Contudo, a pergunta relevante é se esses vetores já atingiram uma massa crítica suficiente para alterar a trajetória global.
Em sistemas naturais, transições de fase ocorrem quando parâmetros atingem determinado limiar. Até esse ponto, o sistema pode absorver perturbações sem alterar seu estado predominante. Após o limiar, a reorganização pode ser relativamente rápida. No caso climático, é possível que estejamos em fase de acúmulo progressivo de deslocamentos, ainda insuficientes para provocar mudança de regime.
Há ainda um elemento adicional: percepção de risco. Diferentemente de crises econômicas agudas ou colapsos políticos visíveis, a mudança climática opera em escalas temporais que frequentemente ultrapassam os ciclos eleitorais e os horizontes empresariais. A dificuldade de internalizar riscos de longo prazo enfraquece o vetor de urgência.
A ciência comunica probabilidades, cenários e margens de erro. O sistema político muitas vezes responde a eventos imediatos. Essa defasagem temporal entre o diagnóstico científico e a resposta institucional contribui para a manutenção da trajetória.
Se a hipótese do alinhamento vetorial estiver correta, a transição climática exigirá mais do que inovação tecnológica e relatórios científicos.
Exigirá convergência entre finanças, políticas públicas, cultura de consumo, infraestrutura urbana e acordos internacionais. Exigirá que diferentes subsistemas passem a operar sob uma narrativa compartilhada suficientemente forte para reorientar investimentos, legislação e comportamentos. Em outras palavras, exigirá alteração da direção predominante.
É possível que essa convergência esteja em formação. Crises energéticas, eventos extremos e pressões geopolíticas podem acelerar os realinhamentos. Novas gerações tendem a incorporar preocupações ambientais à sua identidade política. Os mercados financeiros começam a precificar os riscos climáticos. Cada um desses movimentos altera ligeiramente a configuração dos vetores. A questão é saber se e quando essa configuração atingirá o ponto de inflexão.
O caso climático mostra que a informação é uma condição necessária, mas não suficiente. O conhecimento pode orientar, mas não substitui a convergência. Sistemas complexos respondem a configurações coletivas, não apenas a argumentos racionais isolados.
Essa constatação pode parecer desanimadora, mas não é necessariamente assim. Ela sugere que esforços dispersos, embora relevantes, precisam ser articulados. Que inovação tecnológica deve dialogar com a política pública. Que mobilização social deve se conectar às redes financeiras. Que planejamento urbano deve integrar energia, transporte e uso do solo.
Mudanças estruturais são menos eventos súbitos e mais reconfigurações graduais que atingem limiares críticos e promovem transições de fase. O desafio climático pode vir a ser o maior teste contemporâneo de nossa capacidade de produzir alinhamento sistêmico.
Se a sociedade global conseguir convergir vetores econômicos, políticos e culturais em torno de uma transição consistente, assistiremos a um deslocamento histórico de grande magnitude. Se a convergência permanecer parcial, continuaremos a oscilar entre avanços e retrocessos.
Saber o que fazer é um passo importante. Mudar a direção exige algo mais profundo: reorganizar as forças que compõem o sistema.
A mudança climática não é apenas um problema ambiental. É um problema de orientação coletiva. E direção, como vimos, é sempre resultado de alinhamento.
(*) Marcos Buckeridge, professor do Instituto de Biociências da USP
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