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Há cansaços que só passam com decisões

Por Cristiane Lang (*) | 17/03/2026 06:40

Há cansaços que não se resolvem com descanso. Não se dissolvem em uma boa noite de sono, nem se acalmam com um fim de semana livre. São cansaços mais profundos, silenciosos, quase invisíveis para quem olha de fora. Eles não vêm do excesso de tarefas, mas da permanência onde já não há sentido. É o cansaço de insistir, de continuar onde o coração já pediu para ir embora inúmeras vezes, mas a coragem ainda não acompanhou. É o desgaste de permanecer em ambientes que drenam, em relações que diminuem, em rotinas que aprisionam. É o cansaço de se trair aos poucos, todos os dias, em pequenas concessões que, somadas, vão nos afastando de quem somos.

A verdade, ainda que incômoda, é libertadora: há lugares que não melhoram com paciência, situações que não se transformam com esforço unilateral e pessoas que não mudam porque você decidiu amar mais, tentar mais ou esperar mais. E então o corpo começa a falar. Primeiro em forma de desânimo, depois em irritação constante, até que chega a apatia — aquela sensação de viver no automático, de apenas cumprir dias, sem realmente habitá-los. Não é preguiça, não é falta de força, é o peso de permanecer onde já não se cabe mais.

Existe um erro comum que aprendemos a chamar de virtude: acreditar que resistir sempre é sinal de força. Mas nem sempre é. Às vezes, resistir é apenas prolongar um sofrimento que já poderia ter terminado. Insistir, em muitos casos, não é coragem, é medo. Medo do novo, do incerto, do espaço vazio que existe entre sair de um lugar ruim e ainda não ter chegado a um lugar melhor. Mas esse vazio, por mais assustador que pareça, não é o inimigo — é passagem.

Tomar decisões cansa, exige energia, exige enfrentamento, exige romper com expectativas, inclusive as nossas. Mas há um cansaço muito mais perigoso do que o esforço de mudar: o cansaço de permanecer. Esse desgaste é silencioso e contínuo, vai corroendo aos poucos a autoestima, a esperança, a alegria de viver. Em algum momento, a vida cobra. Cobra na forma de uma tristeza sem nome, de uma falta de entusiasmo que não se explica, de uma pergunta que ecoa no silêncio: o que eu ainda estou fazendo aqui?

Responder essa pergunta exige honestidade, mas agir sobre a resposta exige decisão. Decidir ir embora, decidir mudar, decidir interromper ciclos que já se esgotaram. Decisões não são apenas movimentos práticos, são atos profundos de respeito próprio. São a forma mais clara de dizer a si mesmo que você não aceita mais permanecer onde não é bem tratado, seja por pessoas, por situações ou por você mesmo.

E não, não é fácil. Mudar dói. Encerrar ciclos dói. O que é familiar, mesmo quando nos machuca, ainda oferece uma sensação ilusória de segurança. O novo assusta porque exige fé, porque não vem com garantias. Mas há algo que precisa ser encarado com coragem: a dor da mudança é temporária, a dor da permanência é contínua. Ficar onde não se é feliz cobra um preço alto — consome energia, desgasta a mente, enfraquece a autoestima e, acima de tudo, rouba tempo, esse recurso que não volta.

Por isso, há momentos em que descansar não resolve, conversar não resolve, esperar não resolve. O que resolve é decidir. Decidir que já chega, que você merece mais, que sua paz não é negociável. Decidir que não vai mais permanecer por medo, por hábito ou por apego ao que já deixou de fazer sentido.

Porque existem portas que só se abrem quando outras são fechadas com firmeza. E é curioso perceber que, muitas vezes, o cansaço começa a desaparecer não quando tudo se resolve, mas quando a decisão é tomada. Quando você para de lutar contra si mesmo, quando deixa de se abandonar, quando escolhe, finalmente, sair do lugar que te diminui.

No fim, alguns cansaços passam com descanso. Mas aqueles que pesam na alma, aqueles que se acumulam no silêncio dos dias mal vividos, esses só passam quando você encontra coragem para ir embora.

(*) Cristiane Lang, psicóloga especialista em oncologia. 

 

Os artigos publicados com assinatura não traduzem necessariamente a opinião do portal. A publicação tem como propósito estimular o debate e provocar a reflexão sobre os problemas brasileiros.