Conservação, restauração e mudanças climáticas
O que a humanidade tem a ver com isto?
O efeito estufa é chave para a existência de vida no planeta Terra. Dentre todos os planetas do Sistema Solar, apenas o nosso tem uma atmosfera capaz de manter e dissipar a energia do Sol de maneira a manter temperaturas em que a vida se desenvolveu ao longo de milhões de anos.
Nós, humanos, recém-chegados a esta história evolutiva, aprendemos com a natureza, a imitamos, convivemos com ela. Aprendemos a usar o fogo para cozinhar, nos aquecer, caçar, nos proteger, plantar e manejar nossos ambientes. A partir disto, aprendemos cada vez mais a cooperar e dividir tarefas. Aumentamos nossa capacidade de viver, produzir, nos reproduzir e nos proteger em grupos. Assim desenvolvemos diversas tecnologias, que nos levam até para fora de nosso planeta-casa.
Estas tecnologias também nos permitem transformar completamente o ambiente do qual dependemos. E a divisão de tarefas e a consequente necessidade de acúmulo de riquezas (dinheiro) para trocá-las por itens mais básicos de sobrevivência (moradia, proteção e alimento) nos empurram para uma profunda desconexão com a natureza e seus recursos, dos quais, continuamos dependendo.
Desde a revolução industrial, há pouco mais de 200 anos, os humanos passaram a afetar a composição da atmosfera do nosso planeta. Sim, esta mesma que é a única capaz de manter condições compatíveis com a vida. Desde a Revolução Verde há meros 70 anos, aceleramos nossa capacidade de ocupação dos ambientes para produção agrícola em larga escala. O que permite alimentar uma população crescente em velocidade exponencial (há um aumento de cerca de 1 bilhão de pessoas por década no planeta), mas também o acúmulo de riquezas para determinados grupos sociais
A conversão de áreas de vegetação nativa ou desmatamento, é responsável por muitas das crises ambientais que vivemos, racionamento de água, aumento de temperatura do planeta e diversas catástrofes ambientais. A desconexão atual entre a maioria dos humanos e a natureza da qual dependem é tão grande, que há grupos sociais e políticos que chegam a questionar o papel das ações humanas nas mudanças climáticas. Mesmo com tanto avanço tecnológico, uma enorme parte da humanidade sabe menos sobre a natureza do que nossos ancestrais caçadores-coletores.
A manutenção dos ambientes naturais que ainda restam, e a recuperação dos que já foram degradados, é urgente e essencial para a manutenção da humanidade no planeta, único capaz de nos abrigar. Reduzir nossas agressões à natureza que nos provê recursos é tão essencial quanto nos organizar em grupos para nos proteger, produzir alimentos e viver. Além de realizar outros desejos humanos, como ter lazer, cultura e arte.
Na divisão de tarefas entre humanos, historicamente as mulheres são socializadas para cuidar. Cuidar das moradias, das crianças, dos enfermos e idosos, do alimento. Desde a Revolução Industrial, e especialmente nas últimas décadas, quando o acúmulo de riquezas se tornou mais concentrado, as mulheres aumentaram suas funções sociais para fora do cuidado de seu lar e das famílias. A famosa “dupla jornada”. Os homens continuaram a ser socializados para produzir, muitas vezes destruindo a natureza, sem necessariamente serem ensinados a cuidar do funcionamento de sua própria casa, seja o lar familiar ou o planetário.
A socialização da humanidade desconectada da natureza e especialmente a dos homens desconectada do exercício do cuidado, tem nos levado a uma documentada e comprovada crise ambiental sem precedentes, e que não é percebida pela maior parte a humanidade.
Neste contexto, não é inesperado que muitas mulheres profissionais se destaquem nas carreiras da conservação da natureza e da restauração ecológica. A restauração reúne um conjunto de tecnologias que busca trazer a estrutura e o funcionamento da natureza. É usar o melhor que conhecemos sobre transformar um ambiente para torná-lo mais parecido com o original. É uma das sínteses do desafio humano de compreender que depende da natureza e tentar trazer parte dela de volta para continuarmos a existir.
Em 2026, na Década da Restauração Ecológica da ONU, a UnB sediará o maior evento técnico-científico sobre restauração ecológica no Brasil. A organização da VI Conferência Brasileira de Restauração Ecológica está liderada por três mulheres, com a intenção de unir mulheres e homens, pesquisadores e conhecedores tradicionais da Natureza, gestores e estudantes, consultores, representantes de empresas e da gestão pública para trocar experiências e avançar nossas técnicas e tecnologias nos permitam conservar a Natureza e restaurá-la para que possamos continuar vivendo a partir de seus recursos.
No mês das mulheres, é preciso lembrar que somos 51% da população humana e mães dos outros 49%. Somos responsáveis pelo cuidado da maior parte da humanidade e do que ela depende. É também tempo de celebrar as mulheres e meninas na ciência, na tecnologia e na busca por soluções para problemas ambientais gerados pela desconexão atual da humanidade com sua fonte de vida: a natureza.
(*) Isabel Belloni Schmidt é bióloga e mestre em Ecologia pela UnB, fez doutorado nos EUA. É professora do Departamento e da Pós-Graduação em Ecologia na UnB.
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