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Um editor no tempo das memórias tangíveis

Por Marisa Midori Deaecto (*) | 24/01/2026 08:30

Sabe, eu cresci numa era sem internet e sem celulares… Eu sei que eu pareço um velhote, mas eu pensei muito nisso, que o meu mundo em grande parte desapareceu, porque a gente ia às lojas, às lojas de discos, pegava o “tram” até o Grünerløkka, folheava os quadrinhos usados na Pretty Price. Eu fecho os olhos e vejo os corredores da Vídeo Nova em Majorstua. Eu cresci em uma época em que a cultura era passada através dos objetos físicos. Eles eram interessantes, porque convivíamos com eles, nos cercávamos deles, podíamos pegá-los, segurá-los com as mãos, sentir o peso, compará-los…

[…] Como os livros. É o que eu tenho… eu passei a minha vida colecionando todas essas experiências, seja quadrinhos… e eu continuei, mesmo que há tempos eu não tenha tido uma experiência poderosa, como há 20 anos. Mas eu só continuei… E é tudo o que eu tenho… só um monte de conhecimento e memórias sobre coisas completamente inúteis com que ninguém se importa. Aksel

Quase um monólogo. Aksel é interpretado por Anders Danielsen Lie em A Pior Pessoa do Mundo, esse belíssimo filme dirigido por Joachim Trier (2021), que compõe o último título da trilogia de Oslo.

Nesse ponto de inflexão de sua trajetória, Aksel olha para o passado e percebe o quanto suas experiências estavam ligadas à cidade e às coisas. Não se trata de uma relação de consumo puramente, mas de perceber que as experiências mais poderosas de sua juventude se misturavam com essa memória tangível atravessada pelos objetivos.

Objetos e afetos acumulados nas relações cotidianas, no simples ato de flanar pela cidade e de reconhecer, no itinerário do tramway, na rua, na loja de discos, ou no sebo, as texturas, os perfumes e o peso das coisas… O peso das coisas findas que se tornam intangíveis à palma da mão – como nos faz lembrar Drummond.

É assim que vejo Marc Kopylov em seu último ato. O colecionador da rue de Cendriers, que se converteu no editor des Cendres, era um homem alto, gentil e contemplativo. A exemplo de Aksel, o personagem do filme, também em Marc a relação com Paris foi atravessada pelos objetos que compunham seu pequeno mundo desde a praça Colonel Fabien até Ménilmontant. Marc viveu na Rive Droite, porém, no extremo oposto dos grandes empreendedores e dos Grands Magasins. Ao mesmo tempo, embora fosse um editor prestigioso de obras acadêmicas, ele se posicionou com ligeira reserva da Paris do Quartier Latin e das universidades, embora do ponto de vista simbólico ele se situasse muito mais nesse quadrante da cidade do que o seu itinerário cotidiano nos faria supor.

O mundo de Marc era cercado por livros e impressos de toda sorte. Para se ter uma ideia da variedade de seus gostos e da sensibilidade de seu olhar, ele mesmo reuniu, em colaboração com Christiane Kopylov, esposa e companheira de muitas jornadas, estudos singulares sobre papéis decorados. Toda essa diversidade de papéis marmorizados, dourados, ou dos chamados papéis dominotés, que fizeram sua fortuna nos séculos 18 e 19, tanto por sua importância na decoração de móveis e objetos, quanto por seu uso na encadernação de livros, foi objeto de vários volumes, cuidadosamente editados. Notemos com que graça e precisão o tema é apresentado ao público:

A fantasia dos papéis decorados não deixa de surpreender e encantar. Novas descobertas levaram-nos a dar continuidade ao trabalho pioneiro de André Jammes. Os motivos, ao mesmo tempo simples e complexos – devido à sua própria existência –, executados com habilidade, arte, mas também com falta de jeito, não deixam de nos emocionar. Sujeitos a um registo de elementos decorativos que parece fixo (o traço, a linha, o ponto, o quadrado, o triângulo, o cruzado, as flores, as folhas, os frutos…), um formato “estabilizado” […], uma paleta de cores limitada […], as propostas não parecem menos incontáveis, como ilimitadas. O jogo repetido sobre um mesmo motivo é, à sua maneira, muito moderno, e se algumas composições podem parecer previsíveis, outras, mais ousadas, estão deliberadamente empenhadas numa busca pela “novidade”, pela experimentação, como é o caso de alguns monocromos realizados com uma extrema economia de meios (Marc Kopylov, Papiers dominotés français ou l’art de revêtir livres & brochures, 2012).

A descrição e a precisão com que é apresentado esse levantamento exaustivo dos papéis dominotés produzidos na França traduzem bem o espírito da Éditions des Cendres: o olhar atento ao pormenor, ou seja, às pequenas coisas quase intangíveis que nos cercam e, ao mesmo tempo, nos permitem não raro viver “experiências poderosas”.

Como recorda Yann Sordet, a Éditions des Cendres se impôs no circuito das editoras independentes pela qualidade de suas obras, mas – e talvez sobretudo – pela elegância de suas edições. Marc e Christiane lograram construir uma das mais elegantes editoras independentes, comprometida com a história e as artes do livro, a poesia contemporânea, a gravura e a fotografia, a arquitetura.

Construíram um catálogo abundante com mais de 350 títulos, através da colaboração de poetas (Yves Bonnefoy, Maryline Desbiolles, Ghérasim Luca, Jérôme Peignot, François-René Simon, André Stas…), artistas (Annie Bocel, Marc Couturier, Astrid de La Forest, Farhad Ostovani, Claude Rutault, Annie Warnier…), de estudiosos (Daniel Arasse, Frédéric Barbier, François Chapon, André Jammes, Jean-Marie Pérouse de Montclos…), de bibliotecas (Mazarine, Sainte-Geneviève, bibliotecas literárias Jacques Doucet, de Genebra, municipais de Rouen, de Tours…), centros de investigação (INHA, Cité de l’architecture et du patrimoine…), museus e instituições patrimoniais (Fundação Arp, Museu Bourdelle, Academia de Belas-Artes, Museu d’Orsay…).

O catálogo seleto des Cendres não se limitou a autores e temas franceses. Em 2004 veio a lume a versão francesa de Formas do Silêncio, de Eni Orlandi. A primeira edição brasileira dessa prestigiosa linguista e professora aposentada do IEL-Unicamp venceu o Prêmio Jabuti em 1993. Lembrança incontornável, na ausência de uma análise meticulosa de toda a fortuna editorial construída desde 1984 por essa charmante editora, é a Dernière Tentantion de Valéry Larbaud: le Brésil (2005), volume dos Cahiers des Amis de Valéry Larbaud que reúne especialistas franceses e brasileiros.

E se parece certeira a crença de que o capital do editor são os títulos que ele registra no seu catálogo, há algo mais a ser dito sobre a figura de Marc Kopylov. Qual era a sua formação? Era design? Havia feito o curso clássico de Letras, para então se aventurar em uma diplomação complementar em produção editorial? Teria seguido um curso técnico em produção gráfica? Como acumulara tantas expertises?

Na discrição costumeira, seguindo a boa regra segundo a qual ser é mais importante do que parecer, Marc compunha seus próprios livros, das plaquetes aos volumes mais elaborados. O tempo da produção era o tempo do artífice que faz de cada objeto, de cada livro, um trabalho singular. O original, escolhido a dedo. Às vezes penso que Marc escolhia seus autores e obras, não o contrário. E na mesma medida que essas escolhas iam conformando sua coterie, também os livros compunham um catálogo coerente, no texto e nas formas. No que tange às formas, não há livros mais elegantes! Nas composições que executava, a família Garamond adquiria uma aura própria, compatível com cada título em que era empregada. A regularidade das formas e das cores (os lilases e pastéis) era o toque de inovação que vinha dar a graça final à arte multissecular da tipografia. O papel? Munken. A gráfica? Uma em Verona, para onde viajava e acompanhava, insone, as impressões de cada título.

Marc Kopylov nos deixou em 14 de dezembro de 2025. Sua trajetória como editor e colecionador nos reporta a esse uniforme particular no qual as coisas tangíveis constituem uma extensão da nossa memória. Assim o tempo do mundo era convertido no tempo dos livros – e das coisas tangíveis que tornam poderosas as nossas experiências. Uma moeda de troca nem sempre valorizada, mas justa para um artífice do seu porte. Marc Kopylov representa bem esse tipo raro, dotado de uma personalidade generosa que não se presta, contudo, a aceitar o mundo e as coisas como elas se apresentam, na forma abrupta das relações apressadas do dia a dia. O tempo de Marc é como o tempo do livro impresso e da leitura. Um tempo que se revela através das memórias tangíveis. Um tempo que permite dar às coisas a ênfase necessária. Um tempo finito.

(*) Marisa Midori Deaecto, professora da Escola de Comunicações e Artes da USP

 

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