ACOMPANHE-NOS     Campo Grande News no Facebook Campo Grande News no X Campo Grande News no Instagram Campo Grande News no TikTok Campo Grande News no Youtube
MARÇO, QUARTA  18    CAMPO GRANDE 27º

Cidades

Família de Eliza denuncia falhas, diz que Bruno tem regalias e "ri da lei"

Documento cobra rigor da Justiça, denuncia viagens sem autorização e questiona falhas no cumprimento da pena

Por Dayene Paz | 18/03/2026 12:16
Família de Eliza denuncia falhas, diz que Bruno tem regalias e "ri da lei"
Eliza Samúdio desapareceu em 2010; ela teve filho com ex-goleiro Bruno (Foto: Arquivo Pessoal )

A indignação de mais de uma década voltou à tona em forma de apelo público. Em carta aberta divulgada nesta semana, a mãe de Eliza Samudio, Sônia Fátima Moura, e a madrinha do filho da vítima, Maria do Carmo dos Santos, afirmam que o ex-goleiro Bruno Fernandes das Dores de Souza debocha da Justiça brasileira ao permanecer foragido, mesmo após condenação e sucessivos descumprimentos de medidas judiciais.

RESUMO

Nossa ferramenta de IA resume a notícia para você!

A família de Eliza Samudio, vítima de feminicídio em 2010, denunciou em carta aberta as falhas do sistema judiciário no caso do ex-goleiro Bruno Fernandes. O documento, assinado pela mãe de Eliza e pela madrinha de seu filho, critica as regalias concedidas ao condenado, que está foragido após descumprir medidas do livramento condicional. Bruno, sentenciado a mais de 20 anos de prisão por feminicídio, sequestro, cárcere privado e ocultação de cadáver, circulou livremente pelo país, participando inclusive de jogos de futebol sem autorização. A família ressalta que nunca pôde enterrar o corpo de Eliza e que o filho dela, Bruninho, recebeu apenas uma vez a pensão alimentícia do pai.

Endereçado às autoridades dos três poderes, à sociedade e à imprensa, o documento expõe dor, revolta e um histórico de falhas que, segundo as autoras, evidenciam a incapacidade do sistema em garantir o cumprimento da pena. “O silêncio não é uma opção”, escreveram.

Na carta, elas lembram que Bruno foi condenado em 2013 a mais de 20 anos de prisão por feminicídio, sequestro, cárcere privado e ocultação de cadáver. Ainda assim, apontam que ele nunca teve, de fato, a liberdade totalmente restringida. Desde 2023, o ex-jogador não era localizado para assinar o termo de livramento condicional, situação que, segundo o relato, levou três anos para gerar alguma providência por parte da Vara de Execução Penal.

Família de Eliza denuncia falhas, diz que Bruno tem regalias e "ri da lei"
Ex-goleiro é procurado pela justiça. (Foto: Divulgação)

Durante esse período, afirmam, ele circulou livremente pelo país. O texto cita presença em jogo no Maracanã e viagens para Espírito Santo, Minas Gerais e Acre, todas sem a devida fiscalização.

Um dos episódios mais criticados ocorreu em fevereiro deste ano, quando, cinco dias após oficializar a progressão de regime, Bruno viajou sem autorização para o Acre e participou de uma partida de futebol pelo Vasco-AC no Campeonato Brasileiro. A participação foi divulgada nas redes sociais e gerou indignação não só pela presença do ex-goleiro, mas também pelo contexto de homenagens consideradas ofensivas pelas autoras.

“A cena é estarrecedora”, diz um trecho da carta, ao comparar a exposição pública do condenado com a dor da família, que nunca pôde enterrar o corpo de Eliza. O filho dela, Bruninho, segue sem acesso aos restos mortais da mãe. "A cena é estarrecedora: enquanto um feminicida condenado desfila impune, a mãe de sua vítima nunca pôde enterrar a filha, e o filho órfão nunca teve acesso aos restos mortais da própria mãe".

O documento também denuncia o que chama de “afronta às vítimas”. Enquanto Bruno recebe atenção pública, os familiares relatam viver sob cobranças, invisibilidade e luto permanente.

A carta ainda relembra que o ex-goleiro negou a paternidade por anos, recusando-se a fazer exame de DNA, e que praticamente não contribui financeiramente com o filho, tendo pago pensão apenas uma vez, referente a dois anos acumulados.

“Como um apenado não é encontrado pela Justiça se é obrigado a manter o endereço atualizado?”, questionam. Em um dos trechos mais contundentes, as autoras levantam uma pergunta direta: "quantas mulheres ainda precisarão morrer ou sofrer violência para que o sistema judiciário cumpra, de fato, seu papel?"

Entre os pedidos, a família cobra investigação sobre todas as viagens não autorizadas realizadas por Bruno, atuação rigorosa do Ministério Público diante das violações e o cumprimento integral da pena. Também pedem responsabilização criminal pela fuga e pelos descumprimentos das regras impostas pela Justiça.

A carta afirma ainda que a forma como o caso vem sendo conduzido envia uma mensagem perigosa à sociedade, a de que crimes contra mulheres podem não ser devidamente punidos.

O posicionamento público ocorre no momento em que Bruno é considerado foragido. O Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro determinou o retorno imediato do condenado ao sistema prisional após a revogação do livramento condicional. Ele não se apresentou às autoridades e teve pedido de habeas corpus negado pela 1ª Câmara Criminal.

Condenado a 23 anos e um mês de prisão pelo assassinato de Eliza Samudio, o ex-goleiro descumpriu regras impostas para permanecer em liberdade, o que levou à expedição de mandado de prisão no início deste mês.

A carta termina com um compromisso: o de não silenciar. “Seguiremos firmes”, afirmam. Para elas, o nome de Eliza precisa deixar de ser apenas mais um caso e se tornar símbolo de uma luta maior, a de um país onde feminicidas não sejam tratados como celebridades.

Investigação - Um passaporte em nome de Eliza Samudio, morta em 2010, foi encontrado em janeiro de 2026 em um imóvel alugado em Portugal. O documento estava guardado entre livros em uma estante e, segundo relatos, possui carimbo de entrada no país europeu datado de 5 de maio de 2007, sem registro de saída. Apesar disso, há registros oficiais de que Eliza esteve no Brasil após essa data, o que levanta dúvidas sobre a trajetória do documento.

Receba as principais notícias do Estado pelo Whats. Clique aqui para acessar o canal do Campo Grande News e siga nossas redes sociais.