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Após 10 anos de violência, Kátia sobreviveu ao feminicídio, mas perdeu os dentes

Vítima de violência doméstica recupera o sorriso com atendimento oferecido pela Prefeitura

Por Gabi Cenciarelli | 12/03/2026 17:11
Após 10 anos de violência, Kátia sobreviveu ao feminicídio, mas perdeu os dentes
Kátia em sua primeira consulta, antes de perder os dentes (Foto: Arquivo)

Por dez anos, Kátia Adriana Amaral Pereira, de 55 anos, evitou sorrir. Não era timidez nem vaidade. Era violência. Os dentes foram quebrados durante uma agressão do ex-genro, homem que mantinha a filha dela em um relacionamento marcado por espancamentos, ameaças e controle. Ao tentar defender a filha, Kátia também virou alvo.

RESUMO

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Kátia Adriana Amaral Pereira, de 55 anos, recuperou seu sorriso após uma década de trauma. Em 2015, ao defender a filha de um relacionamento abusivo, foi agredida pelo ex-genro, perdendo vários dentes. O episódio afetou profundamente sua autoestima e vida social. A transformação veio através do programa Sorrindo para a Vida, uma iniciativa da Secretaria Executiva da Mulher em parceria com a Secretaria Municipal de Saúde de Campo Grande. Após seis cirurgias e um ano de tratamento, Kátia recebeu uma prótese dentária e agora planeja retomar seus projetos de vida, incluindo estudos e trabalho social.

Foi enforcada, perdeu o ar e caiu no chão. Saiu da agressão com dentes quebrados e a sensação de que sua vida havia entrado em um pesadelo. Sem condições financeiras de pagar um tratamento odontológico, ela passou a conviver com a marca da violência.

Você acaba se fechando numa bolha. Evita sair, evita conversar. Parece que sua vida acabou”, conta.

O silêncio que veio depois da agressão não foi apenas físico. A perda do sorriso trouxe vergonha, retraimento e uma sensação constante de que não havia mais espaço para sonhos.

Mas a história de Kátia não começou naquele dia.

Após 10 anos de violência, Kátia sobreviveu ao feminicídio, mas perdeu os dentes
Kátia Adriana Amaral Pereira depo0is do tratamento, em entrevista com o Campo Grandre News (Foto: Renan Kubota)

A luta para salvar a filha

Tudo começou quando ela percebeu que a filha vivia em um relacionamento abusivo em 2015. O homem a mantinha isolada da família e, segundo Kátia, exercia controle sobre a vida da jovem. A situação se agravou ao ponto de a filha ser envolvida com drogas e acabar vivendo nas ruas.

Foi a mãe quem decidiu romper o silêncio. Kátia procurou ajuda e denunciou o caso na Casa da Mulher Brasileira, em Campo Grande. A denúncia desencadeou uma série de acontecimentos que mudariam a vida da família.

Mesmo assim, o ciclo de violência ainda estava longe de terminar. Em uma das ocasiões, quando tentou impedir que o agressor levasse a filha novamente, acabou atacada.

Eu já estava com minhas netas. Aquela vida dependia de mim, é a força de mãe. Eu não podia simplesmente virar as costas”, lembra.

A filha acabou diagnosticada com esquizofrenia após anos de agressões e traumas. Kátia assumiu o cuidado dela e das duas netas. Enquanto tentava reconstruir a família, deixou a própria vida de lado. O pesadelo mesmo só acabou em 2023, quando o agressor da filha foi preso.

Após 10 anos de violência, Kátia sobreviveu ao feminicídio, mas perdeu os dentes
Kágtia sendeo atendida (Foto: Divulgação)

Uma década sem sorriso

Com os dentes quebrados e sem dinheiro para o tratamento, a autoestima desapareceu. O espelho passou a ser evitado. Conversas e encontros sociais também. “Você sabe que não está igual aos outros e começa a se afastar das pessoas”, explica.

A rotina passou a se resumir ao cuidado da filha e das netas dentro de casa. Para ela, o futuro parecia limitado à sobrevivência diária. “Eu pensava que minha vida seria só aquilo. Cuidar delas e pronto.”

Mesmo assim, Kátia nunca deixou de ajudar outras pessoas do Aero Rancho, bairro em que ela trabalha como liderança comunitária. Quem convive com ela diz que, mesmo em meio à própria dor, sempre encontrou forças para apoiar quem precisava.

Foi justamente essa postura que chamou atenção da rede de apoio social. Anos depois da agressão, enquanto estava em casa preparando comida, o telefone tocou. Do outro lado da linha, a voz anunciou que ela havia sido contemplada pelo programa Sorrindo para a Vida, iniciativa da Semu (Secretaria Executiva da Mulher) em parceria com a Sesau (Secretaria Municipal de Saúde).

No primeiro momento, ela não acreditou. Minutos depois começaram a chegar mensagens e ligações de conhecidos dizendo que o nome dela havia sido divulgado nas redes sociais da prefeitura. Foi então que percebeu que a oportunidade era real.

Após 10 anos de violência, Kátia sobreviveu ao feminicídio, mas perdeu os dentes
Kátia na Upa onde foi atendida (Foto: Divulgação)

Reconstruindo o sorriso

O tratamento não foi simples. Kátia passou por seis cirurgias até chegar à etapa final da prótese. Entre cada procedimento era necessário esperar o período de cicatrização. O processo durou quase um ano.

O programa Sorrindo para a Vida foi criado em 2025 justamente para atender mulheres que sofreram lesões odontofaciais em decorrência da violência doméstica.

Atualmente, 15 mulheres participam da iniciativa, algumas já com tratamento concluído e outras ainda em processo. Segundo a secretária executiva da Mulher, Angélica Fontanari, muitas vítimas carregam por anos marcas físicas da violência.

“Muitas dessas mulheres não perderam apenas dentes. Elas perderam autoestima, oportunidades de trabalho e até a coragem de sair de casa”, explica.

Eu nasci de novo”

Quando finalmente recebeu a prótese definitiva, Kátia se olhou no espelho e não reconheceu imediatamente a própria imagem. “Demorou uns três dias para eu entender que aquela pessoa era eu.”

A transformação foi tão marcante que ela passou a dizer que renasceu. “Eu nasci na sexta-feira”, conta, referindo-se ao dia em que colocou a prótese. “Ainda estou me adaptando a esse novo mundo.”

O sorriso recuperado virou símbolo de algo maior. Antes do tratamento, ela acreditava que sua vida estava limitada ao passado de dor. Depois da prótese, voltou a fazer planos.

Hoje participa de iniciativas comunitárias no bairro e quer ajudar outras mulheres que enfrentam situações de violência. “Uma atitude que parece simples muda a vida inteira de uma pessoa.”

Um novo começo

Mais do que recuperar dentes, Kátia conta que recuperou a sensação de pertencimento ao mundo. A mulher que passou anos escondendo o sorriso agora fala em estudar, trabalhar e se envolver em projetos sociais.

“Agora eu quero viver tudo que não pude viver antes”

Para quem passou dez anos acreditando que o futuro tinha acabado, voltar a sorrir representa muito mais que estética. Representa liberdade.

Para as mulheres que quiserem fazer parte do programa, basta procurar a Semu (Secretaria Executiva da Mulher), na Rua 15 de Novembro, 1373, ou ligar através do telefone (67) 3382-7541.

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