Entre barro e asfalto, bairro com "cara" de interior abriga gerações
Famílias que chegaram nos anos 1980 viram infraestrutura avançar, mas ainda cobram esgoto e segurança
Na saída para Rochedo, em Campo Grande, o Bairro José Abrão guarda características de cidade do interior mesmo a poucos minutos do Centro da Capital. Cercado por chácaras e sítios, o bairro abriga hoje 4.152 moradores distribuídos em 814 casas, muitos deles presentes desde os primeiros anos, quando ruas de terra e lama faziam parte da rotina.
RESUMO
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O Bairro José Abrão, localizado na saída para Rochedo em Campo Grande, mantém características interioranas mesmo próximo ao Centro da Capital. Com 4.152 moradores distribuídos em 814 casas, o bairro preserva sua identidade através de moradores pioneiros que acompanharam sua evolução desde os tempos de ruas de terra. Apesar da tranquilidade e do forte senso de comunidade destacados pelos residentes, o bairro enfrenta desafios estruturais. A ausência de rede de esgoto, problemas de iluminação pública e necessidade de manutenção na praça principal são as principais demandas dos moradores, que também reivindicam maior segurança no local.
Entre esses pioneiros está a aposentada Denise de Moura, 60 anos, cuja trajetória se confunde com a formação do bairro. Ela chegou ainda adolescente, aos 16 anos, quando a infraestrutura era precária e a adaptação fazia parte do dia a dia. “Quando chovia, eu tinha que levar um tênis na sacola, ir de chinelo até o ponto e depois calçar para entrar no ônibus”, recorda.
Filha de uma das primeiras moradoras, Denise construiu toda a vida na mesma casa, na época uma quitinete de quarto e sala. Cuidou da mãe até os últimos dias e permaneceu no imóvel, hoje dividido com o marido. Das três irmãs, foi a única que decidiu ficar, mantendo o vínculo com a comunidade que ajudou a se formar.
Apesar das transformações urbanas, ela define o lugar de forma simples: “Aqui é uma comunidade. Temos mercado, farmácia. É um bairro muito bom. Para mim, é um paraíso”.
Conhecida entre os antigos moradores pelo apelido de “Gordinha”, Denise complementa a renda com uma pequena banca na praça, onde vende mandioca e milho. A clientela, segundo ela, é formada por vizinhos de décadas. “Como sou moradora antiga, todo mundo me conhece.”
José Barrão - História semelhante tem dona Neide Silva, que chegou ao local nos anos 1980 com quatro filhos para morar em uma casa recém-entregue, ainda sem asfalto. Na época, os próprios moradores apelidaram a região de “José Barrão”, referência direta à lama que dominava as ruas.
“Não tinha nada. Era só barro. Para pegar o ônibus, a gente levava o sapato na mão para calçar depois”, relembra.
Ela trabalhava à noite em uma escola e enfrentava as dificuldades típicas de um bairro em estruturação. Com o passar dos anos, viu a pavimentação chegar e a casa ser ampliada aos poucos.
“Foi ajeitando, crescendo devagarinho, até chegar no padrão que a gente queria.”
Hoje aposentada, Neide vive no mesmo imóvel com a neta e duas bisnetas. Três dos quatro filhos continuam morando no bairro e um se mudou para Cuiabá (MT). Mesmo com problemas de coluna, faz questão de cuidar das árvores que plantou na entrada do bairro, um pé de seriguela e um jatobá ainda em crescimento.
“Quem planta, tem sombra”, fala orgulhosa.
Tranquilidade - A neta de Neide, Tielle Borges, nasceu e cresceu ali. Para ela, a principal característica do José Abrão é a calmaria. “É um bairro pacato, não tem criminalidade. Eu gosto muito daqui e recomendo para quem procura um lugar tranquilo”, afirma.
O barbeiro Jonathan Felipe, 31 anos, também nunca se afastou definitivamente. Mesmo após casar, decidiu permanecer perto da família e montou atendimento em casa.
“Já morei em outros bairros, mas aqui é o mais tranquilo. Antigamente o pessoal deixava portão aberto. Hoje mudou um pouco, mas ainda é bom de viver.”
Segundo ele, a chegada de estudantes da UEMS (Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul) ajudou a movimentar a economia local, valorizando imóveis e aquecendo o comércio.
Confira a galeria de imagens:
Qualidade de vida - Morador há quatro anos no bairro, o pastor João José Sales Filho, padrasto de Felipe, destaca a facilidade de acesso ao Centro, a cerca de seis quilômetros. “Já morei em outros lugares, mas aqui é muito prático. A vida é tranquila, sem problemas de criminalidade ou conflitos”, relata.
Ele avalia que o comércio, mesmo pequeno, atende às necessidades básicas do dia a dia e reforça o perfil residencial do bairro.
Até quem mora nas redondezas mantém ligação com a comunidade. A comerciante Diana da Silva Rodrigues vende verduras produzidas na chácara onde vive e criou laços com os moradores ao longo dos anos.
“Trabalho aqui há 21 anos, todo mundo se conhece. É um bairro sossegado. Se eu tivesse condições, compraria uma casa aqui”, diz.
Desafios - Apesar de ser um bairro antigo, moradores apontam carências estruturais, como a ausência de rede de esgoto. “Se tivesse uma rede de esgoto para nós ajudaria muito, pois nós pagamos caro para limpar fossa”, afirma dona Neide.
O assessor parlamentar Jorge Coronel, morador há 25 anos, também cobra melhorias no esgoto e, principalmente, na praça principal do bairro, como troca da areia do parquinho, manutenção e reforço na iluminação pública.
“As famílias deixam de frequentar à noite por falta de segurança. A praça precisa de mais atenção”, afirma Jorge ao ressaltar que o local fica ocupado por usuários de drogas quando anoitece.
Ele também menciona necessidade de reparos nas ruas, que estão esburacadas, mais estrutura no posto de saúde e a instalação de uma base da Guarda Municipal em prédio hoje abandonado.
Dona Denise de Moura concorda. Para ela, o ponto fraco do bairro é a necessidade de agentes de segurança. “Precisa de segurança na praça para cuidar das nossas crianças, dos nossos jovens,” alertou.
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