Minério vira fachada e empresas tentam reaver cargas usadas pelo tráfico
A desativação dos trens e a seca no Rio Paraguai fizeram proliferar carretas na BR-262 que escondiam cocaína

A entrada de cocaína no Brasil a partir da fronteira com a Bolívia, em Corumbá, sempre foi um problema para a segurança pública, ganhando um ingrediente a mais com a desativação do transporte ferroviário e a obrigação do uso de caminhões para o transporte de combustível e o escoamento do minério extraído na região do Rio Paraguai, impossibilitado de ser levado em embarcações pelo rio em período de estiagem.
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A mineradora LHG Mining, do grupo J&F Investimentos, busca na Justiça a recuperação de carga de minério de ferro apreendida em fevereiro, quando foram encontrados 423,7 quilos de cocaína em um caminhão terceirizado na BR-262, em Campo Grande. O motorista foi condenado a mais de sete anos de prisão. O caso reflete um problema crescente na região, com aumento de 86,5% nas apreensões de drogas em 2024. A situação se agravou após a desativação do transporte ferroviário, forçando o uso de caminhões. O setor de mineração aguarda a concessão da Hidrovia Paraguai-Paraná para viabilizar o transporte fluvial, considerado mais seguro.
No caso mais recente, um caminhoneiro foi preso ontem em Terenos, após ser flagrado transportando drogas escondidas em 12 compartimentos ocultos de um caminhão Mercedes-Benz Axor com dois semirreboques carregados em Corumbá.
A carreta, teoricamente de minério, escondia 22,7 kg de cocaína em pó, 41,2 kg de maconha, 35,1 kg de skunk e 35,1 kg de pasta base de cocaína.
Os volumes de apreensão na BR-262, que corta o Estado de leste a oeste, dão a dimensão do problema. Em abril, foram 368 quilos encontrados sob minério de ferro. Já em maio, em Miranda, foi realizada a maior apreensão de cocaína do ano, somando 676 quilos em um caminhão que transportava ferro-gusa. Até o final daquele mês, as apreensões somavam 7,8 toneladas da droga, 86,5% a mais que no mesmo período de 2024, quando foram 4,1 toneladas.
A empresa LHG Mining, do grupo J&F Investimentos, sucessora da MCR (Mineração Corumbaense Reunida), foi à Justiça recentemente para tentar reaver a carga de minério de ferro apreendida em fevereiro, quando o caminhão contratado para o frete foi retido na BR-262, em Campo Grande, após uma denúncia. Agentes do FICCO/MS (Força Integrada de Combate ao Crime Organizado em Mato Grosso do Sul) encontraram 423,7 quilos de cocaína escondidos em um fundo falso na cabine do veículo.
O caso já foi sentenciado e o motorista condenado a sete anos, nove meses e 20 dias de reclusão, além de multa, com apelação pela redução das penas pendente de análise no TJMS (Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul). Por conta de o pedido ter sido feito quando o caso já tinha sentença, o juiz Marcio Wust apontou que a empresa deveria apresentar a petição ao tribunal.
A reportagem do Campo Grande News não conseguiu informações com a empresa sobre se a situação já ocorreu outras vezes e se houve mudança na terceirização do transporte. Mas foi possível apurar que a LHG Mining não é a única com esse tipo de problema. A Vetorial Mineração já precisou duas vezes pedir a liberação de cargas apreendidas porque o transporte terceirizado acabou também servindo ao tráfico no caminho da BR-262. Um episódio ocorreu em Terenos e outro quando o caminhão já estava no interior de São Paulo. Para evitar problemas, empresas de mineração teriam ampliado a vigilância nos pátios de carregamento com câmeras. Entre policiais, há suspeita de que caminhoneiros sejam abordados ao longo da rodovia para participar do tráfico.

A Lei de Drogas determina o perdimento dos bens apreendidos com o tráfico e a destruição da droga. Então, as empresas precisam reunir a documentação para demonstrar a propriedade da carga de minério e a contratação do frete.
Nesta quinta-feira, a Polícia Federal noticiou o cumprimento de mandados de busca e apreensão em São Paulo exatamente para obter provas em investigação conduzida em Corumbá sobre o tráfico em compartimentos ocultos de veículos. Houve apreensão de mídias, que serão periciadas, mas não foram repassados mais detalhes sobre a apuração.
Hidrovia e minério – O setor de mineração aposta na concessão da Hidrovia Paraguai-Paraná para haver condições permanentes de navegabilidade no rio e utilização do transporte fluvial, que é mais barato e seguro, para escoar o minério e deixar de contratar caminhões para seguir pela BR-262 até São Paulo ou Minas Gerais. O projeto de concessão já saiu do MPor (Ministério de Portos e Aeroportos) e seguiu para o TCU (Tribunal de Contas da União). Há expectativa de que o edital seja publicado ainda este ano.
A LHG aposta na extração de minério de ferro e manganês na região, produto considerado de alta qualidade, com perspectiva de dobrar a produção. Para o escoamento, obteve R$ 3,7 bilhões para a construção de embarcações, recurso do FMN (Fundo da Marinha Mercante) por meio de financiamento realizado junto ao BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social).