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Em Pauta

Não era terra, os indígenas queriam ferramentas de ferro

Por Mário Sérgio Lorenzetto | 09/01/2026 06:42
Não era terra, os indígenas queriam ferramentas de ferro

O maior marco civilizatório aconteceu quando um homem disse: “esta terra é minha”. Nesse dia, parcela importante dos humanos abandonaram o nomadismo, a andança em busca de melhores condições de vida. Mas, outra parte dos humanos continuou não se interessando pela propriedade de terras. Pelo mundo afora, ficaram conhecidos como “índios”. Há milhares de anos, estava constituída uma diferença transcendental que só deixou de existir no Mato Grosso do Sul há bem pouco tempo.


Não era terra, os indígenas queriam ferramentas de ferro

Homens da pedra lascada e do chifre de cervo.

O sílex era a pedra mais dura de todas. Tudo que tinha uma extremidade cortante era feito de sílex, quer fosse uma ponta de flecha, faca, raspadores, furadores ou machadinha. Todos precisavam da pedra, que sempre podia ser trocada por qualquer outra coisa: comida, roupa ou animais. Alguns acumulavam sílex. O material não se deteriorava e sempre era valioso. Era tirado de buracos na terra. Os das camadas mais profundas eram de um preto intenso e lustroso . Soltava lascas quando era golpeado com uma pedra, podendo assim ser moldado. Além desse tipo de ferramenta frágil, usavam o chifre de cervo como picareta. Eram tão duros quanto pedras e também podiam tirar o sílex dos buracos.


Não era terra, os indígenas queriam ferramentas de ferro

O documento que comprova a necessidade de ferramentas.

Os documentos mais importantes sobre a história remota do Mato Grosso do Sul estão em latas no arquivo de Cuiabá. Ninguém tentou trazê-los para cá, uma falha grave cometida pelas universidades deste lado das terras que outrora eram cheias de mato. Após a guerra, os indígenas fronteiriços viviam perambulando e “tocando o terror” nas fazendas que por lá existiam. Assaltavam, eventualmente matavam os brancos fazendeiros e suas famílias. Mas o documento deixa bem claro que não havia “malvadeza”. A motivação era o desespero. Tinham imensa necessidade de ferramentas de ferro. Trocavam seu suor por elas. O documento, escrito por um funcionário público, implora ao governo que construa aldeias para protegê-los. Esse papel importante está na lata 1.874 - Mss., Documentos Avulsos, APEMAT. Cuiabá-MT. E não é o único a narrar a história verdadeira de nossa fronteira com o Paraguai.


Não era terra, os indígenas queriam ferramentas de ferro

“Quero terra”, uma importação cultural.

É verdade que nessa época ainda existiram esparsas guerras por terra entre brancos e indígenas. A mais estudada e conhecida foi a travada nas atuais terras kadivéus contra um sujeito chamado Malheiros, de Corumbá. Ele conseguiu deslocar uma tropa de policiais, com canhões, para roubar terras indígenas. Sem canhões, continuam hoje as mesmas práticas desse famigerado Malheiros. Mas essa é uma das raras exceções. A regra era muito clara: os indígenas não foram coagidos a viverem em aldeias criadas pelos brancos. Para lá foram sem esboçar qualquer descontentamento. A luta pela terra é bem recente. Como tantas outras mudanças, viajou dos Estados Unidos para a América do Sul nos livros e filmes de Hollywood. E demorou a aportar por aqui, chegou bem mais cedo no Chile, Argentina, Equador e Peru. O chamado “movimento indigenista” é uma importação cultural feita por quem não suportava ver a miséria a que os índios foram relegados.

 

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