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Meio Ambiente

Saneamento avança e ajuda a proteger rios que sustentam o Pantanal

Tratamento de esgoto reduz poluição, preserva biodiversidade e fortalece rotas de espécies migratórias

Por José Cândido | 25/03/2026 13:39
Saneamento avança e ajuda a proteger rios que sustentam o Pantanal
Lontra em rio do Pantanal revela a qualidade da água e o equilíbrio do ecossistema. (Foto divulgação)

O caminho que liga as cidades de Mato Grosso do Sul ao Pantanal passa, inevitavelmente, pelos rios. E é justamente na origem — dentro dos centros urbanos — que começa uma das estratégias mais silenciosas e eficazes de proteção da biodiversidade: o saneamento básico.

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O saneamento básico em Mato Grosso do Sul tem se mostrado uma ferramenta crucial na proteção da biodiversidade do Pantanal. Com três Estações de Tratamento de Esgoto em Campo Grande e expansão no interior do estado, o sistema trata diariamente 92,6 milhões de litros de esgoto, impedindo que poluentes contaminem os cursos d'água. A iniciativa beneficia diretamente a fauna local, incluindo espécies como a onça-pintada, o tuiuiú e peixes migratórios. Além do tratamento de esgoto, as concessionárias investem na recuperação de áreas degradadas e recomposição vegetal, com destaque para o Viveiro Isaac de Oliveira, que já produziu mais de 650 mil mudas nativas.

A ampliação da coleta e do tratamento de esgoto, associada à redução da poluição hídrica, tem impacto direto sobre ecossistemas estratégicos do Estado, especialmente aqueles conectados à Bacia do Alto Paraguai. Essa rede de rios, córregos e áreas úmidas sustenta o Pantanal, um dos biomas mais ricos do planeta e habitat de espécies como a onça-pintada, o tuiuiú, a ariranha e o jacaré-do-pantanal.

Para o gerente de Meio Ambiente da Águas Guariroba e da Ambiental MS Pantanal, Fernando Garayo, o elo entre cidade e natureza é mais próximo do que parece.

“O Pantanal não é um espaço isolado do cotidiano urbano; ele depende da qualidade da água e da integridade dos rios que atravessam áreas urbanas e rurais. Tratar o esgoto na origem significa interromper um ciclo de contaminação que pode comprometer habitats importantes”, afirma.

Saneamento como barreira contra a poluição

Na prática, o saneamento funciona como uma barreira que impede que poluentes avancem pelos cursos d’água até áreas ambientalmente sensíveis. Em Campo Grande, duas Estações de Tratamento de Esgoto (ETEs) já operam, e uma terceira está em fase final de implantação.

Juntas, elas garantem o tratamento médio de 92,6 milhões de litros de esgoto por dia — volume que, ao longo de um ano, equivale a cerca de 16,5 mil piscinas olímpicas. Esse processo reduz significativamente a carga de poluentes lançada nos rios e contribui para o equilíbrio do ciclo hidrológico.

Além da estrutura, programas como o Córrego Limpo monitoram a qualidade da água em diversos pontos da cidade e atuam na prevenção de ligações irregulares de esgoto — um dos principais fatores de contaminação urbana.

No interior do Estado, o avanço também é expressivo. A Ambiental MS Pantanal trata atualmente cerca de 33,6 milhões de metros cúbicos de esgoto por ano. A projeção é ampliar essa capacidade em 8,7%, com a implantação de sete novas ETEs e o acréscimo de 8 milhões de litros por dia ao sistema.

Só nos dois primeiros meses de 2026, foram realizados 948 serviços de limpeza preventiva de rede, medida que evita extravasamentos e protege diretamente os cursos d’água.

“Mais do que números, esses dados representam a redução da carga poluidora em sistemas hídricos que estão conectados a áreas ambientalmente sensíveis”, reforça Garayo.

Impacto direto na fauna e nas rotas migratórias

A melhoria da qualidade da água não beneficia apenas o abastecimento humano. Ela sustenta cadeias ecológicas inteiras.

Espécies aquáticas, como os peixes migratórios — caso do pintado e do dourado — dependem de rios limpos e conectados para completar seus ciclos de vida. O mesmo ocorre com aves migratórias, que utilizam áreas alagáveis como pontos de descanso e alimentação.

Quando a água chega poluída, esse equilíbrio é rompido. Ao contrário, quando o saneamento avança, há um efeito cascata positivo: melhora a qualidade dos habitats, aumenta a disponibilidade de alimento e fortalece a biodiversidade.

Recuperação de áreas e proteção de nascentes

O impacto ambiental vai além do tratamento de esgoto. As concessionárias também investem na recuperação de áreas degradadas e na recomposição vegetal.

Um dos destaques é o Viveiro Isaac de Oliveira, que já produziu e doou mais de 650 mil mudas nativas, com capacidade anual de até 80 mil. O plantio contribui para proteger o solo, preservar nascentes e recuperar áreas sensíveis.

Na Capital, ações se concentram na Área de Proteção Ambiental (APA) Guariroba, responsável por parte do abastecimento de água, além do monitoramento contínuo das bacias hidrográficas.

No interior, iniciativas como o reflorestamento na Serra da Bodoquena reforçam a proteção de matas ciliares e Áreas de Preservação Permanente (APPs). Em 2025, cerca de 4.800 mudas foram destinadas ao Instituto das Águas da Serra da Bodoquena (IASB), fortalecendo a conservação em regiões estratégicas.

Saneamento avança e ajuda a proteger rios que sustentam o Pantanal
No Pantanal, a onça segue o curso dos rios que garantem alimento e abrigo. (Foto divulgação)

Um ciclo que começa na cidade e chega ao Pantanal

A lógica é direta: quanto menos poluição sai das cidades, mais preservados chegam os rios às áreas naturais. Em um estado onde a água conecta tudo — da torneira ao Pantanal — o saneamento deixa de ser apenas infraestrutura e passa a ser política ambiental.

“Estamos diante de um dos maiores programas de conservação de bacias hidrográficas do Brasil, e isso tem tudo a ver com biodiversidade”, conclui Garayo.

No fim das contas, cada litro de esgoto tratado representa menos pressão sobre rios, mais vida nas águas e mais chances de sobrevivência para espécies que dependem desse equilíbrio — muitas delas símbolos do próprio Mato Grosso do Sul.