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Política

De MS para São Paulo, Simone Tebet redesenha sua base eleitoral em 2026

Ministra encara o maior teste de sua trajetória e pode virar peça estratégica na disputa presidencial

Por Vasconcelo Quadros, de Brasília | 08/01/2026 12:48
De MS para São Paulo, Simone Tebet redesenha sua base eleitoral em 2026
Ministra Simone Tebet durante discurso em envento na Capital (Foto: Marcos Maluf)

A ministra do Planejamento e Orçamento, Simone Tebet (MDB), está com um pé em São Paulo. Seu nome entrou no tabuleiro como o preferido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), mas com destino ainda em aberto: ela pode disputar o governo paulista, uma das duas vagas ao Senado no Estado ou, a depender das conveniências do palanque presidencial, até a vice-presidência nas eleições deste ano.

RESUMO

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A ministra do Planejamento e Orçamento, Simone Tebet (MDB), planeja transferir seu domicílio eleitoral para São Paulo, visando disputar as eleições de 2026. A mudança é vista como estratégica pelo presidente Lula, que busca fortalecer sua base no maior colégio eleitoral do país. Com perfil moderado e capacidade de diálogo além da base petista, Tebet surge como peça central para reduzir a vantagem bolsonarista em São Paulo. A ministra precisa concluir a transferência até maio de 2026 e pode enfrentar resistências do MDB, seu atual partido, o que pode levá-la a uma possível filiação ao PSB.

O ponto que mais avançou até agora é a sinalização de que está disposta a trocar o domicílio eleitoral, escolha que, além de representar o primeiro movimento para a definição de candidaturas em Mato Grosso do Sul, tem prazo jurídico. Para concorrer por São Paulo, Simone precisa concluir a transferência até 6 de maio de 2026, seis meses antes do pleito.

A movimentação ganhou força após a pré-candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) ao Planalto, que bagunçou o quadro da sucessão e obrigou o PT a rever estratégias em São Paulo, tanto para enfrentar o governador Tarcísio de Freitas quanto para montar uma chapa nacional mais competitiva.

No novo desenho, Simone passou a ser vista como peça central: uma liderança de centro, com trânsito além da base petista, capaz de ampliar o alcance eleitoral de Lula no maior colégio do país, onde a esquerda tradicional encontra limites históricos e nunca venceu uma eleição para governador.

Há poucos dias, numa conversa informal com o governador Eduardo Riedel (PP), conforme revelou ao Campo Grande News uma fonte ligada ao núcleo que comanda a política estadual, Simone deu pistas claras sobre seu futuro. Disse que, embora o coração a leve a pensar numa candidatura ao Senado por Mato Grosso do Sul, a fidelidade a Lula, o pragmatismo e o desafio de se colocar no topo da política nacional a empurram para São Paulo.

A ministra repetiu também um bordão aprendido com o pai, o ex-senador Ramez Tebet: “não se diz não a um presidente legitimamente eleito”. E Lula, segundo ela, pediu. Nesta eleição o presidente quer erguer no Estado um palanque robusto para enfrentar a direita, sobretudo diante da perspectiva de reeleição de Tarcísio e da provável manutenção do nome do senador Flávio Bolsonaro no jogo presidencial.

Segundo relatos de bastidores, Simone também afirmou que o governo e a cúpula do PT dispõem de pesquisas quantitativas e qualitativas indicando competitividade do seu nome tanto para o Senado quanto para o governo paulista. No fim de dezembro, ela conversou por telefone com o presidente nacional do PT, Edinho Silva, e marcou para os próximos dias uma rodada mais objetiva de tratativas.

Antes disso, num encontro com a direção do PT de Mato Grosso do Sul, Edinho ouviu críticas à postura considerada dúbia da ministra: se optasse por disputar o Senado pelo Estado mantendo dois palanques, um para Lula e outro para Riedel, poderia inviabilizar a candidatura de Fábio Trad (PT) ao governo e também atrapalhar os planos do deputado Vander Loubet na disputa pelo Senado. O dirigente prometeu intervir para resolver o impasse.

São Paulo virou o “tambor” de 2026

O pano de fundo dessa reconfiguração é matemático e político. Em 2022, Bolsonaro venceu em São Paulo com vantagem de 2,7 milhões de votos sobre Lula. No plano nacional, o presidente eleito ganhou por apenas 2,14 milhões. A virada só aconteceu graças ao colchão eleitoral do Nordeste. A lição foi direta para o Planalto: em 2026, não dá para depender exclusivamente dessa margem. É preciso reduzir a sangria paulista.

Nesse contexto, Simone aparece como uma das poucas peças capazes de mexer nesse tabuleiro. Não é “petista raiz”, tem perfil técnico, discurso moderado e capacidade de diálogo com o eleitor antibolsonarista que não é lulista automático, exatamente o público que decide eleições em São Paulo.

Para o cientista político Paulo Catanante Júnior, do Instituto Novo Ibrape, a movimentação deixou de ser mera especulação e já integra a estratégia nacional do governo. Na avaliação dele, Simone reúne atributos raros: densidade eleitoral em São Paulo, onde obteve 1.625.596 votos em 2022, o equivalente a 6,34% do eleitorado paulista, desempenho que representou 33,1% do total de 4.915.423 votos conquistados por ela no país. Soma-se a isso a baixa rejeição e um perfil que transita fora da chamada “esquerda radical”, ampliando seu alcance junto ao eleitorado de centro.

Além disso, ela dialoga diretamente com a pauta feminina. “Ela ajuda Lula agora e, mesmo numa derrota, sai maior politicamente”, resume. Para Catanante, uma candidatura competitiva no maior Estado do país pode projetar Simone como liderança nacional e até como nome viável no debate sucessório do pós-Lula.

Obstáculos reais: partido e prazo

O desenho, porém, não é simples. Em São Paulo, Simone enfrenta a mesma barreira estrutural que mina suas chances em Mato Grosso do Sul: o veto dos caciques do MDB, o principal deles, o ex-governador André Puccinelli, a montar palanque para Lula. Em São Paulo há resistência do prefeito Ricardo Nunes e do presidente estadual da legenda, Rodrigo Arenas, ambos formalmente empenhados na reeleição de Tarcísio de Freitas. Não se trata apenas de resistência pontual, mas de uma aliança consolidada, o que dificulta qualquer composição orgânica com o PT.

Por isso, aliados admitem nos bastidores que, se a ministra quiser de fato disputar por São Paulo numa chapa alinhada ao Planalto, pode ser obrigada a mudar de legenda, hipótese delicada para uma política cuja identidade está ligada ao MDB há décadas. Simone tem convite do PSB. Se aceitar, contará com o apoio do PT e com o respaldo ostensivo do vice-presidente Geraldo Alckmin, que é do partido e governou o Estado por quatro mandatos pelo PSDB.

A ministra se movimenta de olho no relógio jurídico. A mudança de domicílio não é detalhe burocrático: para ser candidata em São Paulo, Simone precisa concluir a transferência até 6 de maio de 2026. Isso transforma a especulação em decisão de curto prazo. Se não agir até lá, o projeto paulista simplesmente sai do horizonte.

De MS para São Paulo, Simone Tebet redesenha sua base eleitoral em 2026
Ministra Simone Tebet ao lado do governador Eduardo Riedel durante evento em MS (Foto: Marcos Maluf)

Mato Grosso do Sul: de base a obstáculo

A permanência de Simone em Mato Grosso do Sul é vista como politicamente conflituosa. O MDB só assimilaria sua candidatura se for imposta pelo diretório nacional. Puccinelli e a maioria da legenda não lhe darão palanque para pedir votos a Lula. Nesse mesmo campo está o marido da ministra, Eduardo Rocha, ex-chefe da Casa Civil no governo Riedel, que pretende voltar à Assembleia Legislativa e se alinha entre os conservadores que enxergam o PT como adversário permanente. Nos bastidores, Rocha tem dito que Simone deve mesmo transferir o domicílio para São Paulo, possivelmente para disputar o governo.

Analistas ouvidos pelo Campo Grande News avaliam que a mudança para São Paulo é o melhor caminho para Simone: ela alçaria um voo de maior envergadura nacional, com chances inclusive de se colocar, em 2030, como candidata presidencial novamente. “Eu ficaria surpreso se Simone disputasse o Senado por Mato Grosso do Sul”, afirma o cientista político Daniel Miranda, da UFMS.

Segundo ele, a ministra perdeu as condições que teve em 2022: o MDB está dividido, o grupo liderado por Reinaldo Azambuja controla a engrenagem política local e, desta vez, Simone teria de bater de frente com a própria legenda. “Hoje, a escolha não é só regional. É nacional. O Senado virou peça-chave para a governabilidade, e a tendência é concentrar forças onde houver mais chance real de vitória”, diz.

Na avaliação de Daniel, o cenário em Mato Grosso do Sul caminha para uma disputa duríssima pela segunda vaga ao Senado, com Azambuja largando como referência para a primeira e nomes como Nelsinho Trad, Vander Loubet e Capitão Contar brigando por espaço; há, também, no segundo grupo uma penca de nomes buscando viabilidade. Nesse tabuleiro, Simone deixa de ser protagonista local para se tornar ativo estratégico federal, exatamente o papel que Lula parece querer que ela desempenhe em São Paulo.

De MS para São Paulo, Simone Tebet redesenha sua base eleitoral em 2026
Presidente Lula durante posse de Simone Tebet como Ministra de Estado do Planejamento e Orçamento em janeiro de 2023 (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

A lógica por trás da aposta de Lula

O cálculo do Planalto é menos sobre a trajetória individual de Simone e mais sobre o Senado como campo de batalha central em 2026. O bolsonarismo aposta em ampliar sua bancada para pressionar o STF e travar a governabilidade. A esquerda, por sua vez, busca nomes competitivos fora do eixo tradicional do PT para evitar uma derrota estrutural. Nesse xadrez, Simone não é apenas candidata em potencial, é peça numa disputa maior.

Por isso, a hipótese paulista ganha densidade. Em Mato Grosso do Sul, ela enfrenta a máquina política adversária, um MDB dividido e alianças hostis. Em São Paulo, apesar dos obstáculos partidários, entra como nome nacional, amparada por pesquisas internas, pelo interesse direto de Lula e por uma estratégia que mira reduzir a vantagem bolsonarista no maior colégio eleitoral do país.

A metáfora da crisálida

Há um detalhe fora do cenário imediato da política que ajuda a entender o momento de Simone Tebet, e que ela própria tratou de registrar antes que o cenário a empurrasse para essa encruzilhada. Em O voo das borboletas, livro em que revisita sua trajetória, a ministra se define como uma “crisálida”: alguém em processo de transformação, ainda protegida pelo casulo, mas já consciente de que a política nacional exige outra envergadura.

A metáfora ganha densidade quando confrontada com o caminho que ela percorreu até aqui, da primeira mulher a comandar a prefeitura de Três Lagoas por dois mandatos, à deputada estadual, depois primeira vice-governadora de Mato Grosso do Sul e, mais tarde, à senadora que se projetou nacionalmente como líder da bancada feminina na CPI da Covid.

No livro, Simone associa essa metamorfose a um aprendizado silencioso: construir liderança em ambientes hostis, majoritariamente masculinos, sem recorrer ao confronto permanente como método. É nesse ponto que a narrativa pessoal se conecta ao desafio político atual. Ao falar da importância de atrair o voto das mulheres, ela evita o tom militante e aposta numa chave mais estratégica, a de que existe um eleitorado feminino amplo, urbano e moderado que não se reconhece nem na esquerda tradicional nem no conservadorismo ruidoso.

Se a mudança de domicílio e o salto para São Paulo representam um risco calculado, a imagem da crisálida ajuda a dar sentido a esse movimento: menos como aventura, mais como passagem deliberada para uma fase em que visibilidade, conflito e projeção deixam de ser exceção e passam a ser condição.

Um salto, mesmo na derrota

Se confirmar a mudança, Simone não apenas trocará de domicílio eleitoral, mas também de patamar político. Seria no jargão político uma "queda pra cima".  De liderança regional com projeção nacional, pode se transformar numa das principais apostas do governo para enfrentar a direita onde ela é mais forte, e, de quebra, reposicionar seu nome entre os poucos quadros com densidade para o futuro do campo governista.

Mesmo num cenário de derrota, o cálculo permanece favorável: uma candidatura competitiva em São Paulo, sobretudo se chegar ao segundo turno, a colocaria em outro nível de exposição, ampliando seu capital político para além de 2026 e com espaço garantido na Esplanada dos Ministérios caso Lula alcance a façanha de um quarto mandato. Em um campo em que Lula não tem sucessor óbvio, Simone surge como uma das raras lideranças capazes de dialogar com o centro e com a esquerda, num ambiente cada vez mais polarizado.

No fim das contas, o “novo voo” de Simone Tebet não é apenas uma escolha pessoal que aliviaria tensões no PT e MDB regionais. É parte de uma equação nacional: como reduzir a desvantagem em São Paulo, proteger o Senado e manter a governabilidade num país em que cada ponto percentual no maior colégio eleitoral, com cerca de 34,4 milhões de eleitores, o equivalente a 22% do eleitorado do país, pode decidir o destino da Presidência.