Aberto por nordestinos nos anos 90, restaurante resiste à crise do Centro
Família tocava o Bar Tropical e o Souza Restaurante, no passado, e hoje mantém o Souza Grill

Antes, o Centro de Campo Grande fazia valer seu significado: era o centro da vida urbana, concentrava mercadorias, serviços e pulsava com o fluxo de pessoas. Por diversos fatores econômicos, de comportamento e de planejamento, hoje enfrenta crise que o deixa esvaziado de gente e de negócios. Esse fenômeno não é só local, é mundial.
RESUMO
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O Souza Grill, restaurante localizado no Centro de Campo Grande (MS), representa a história de resistência de uma família nordestina. Fundado nos anos 90 por Miguel e Juditi Souza, o estabelecimento sobreviveu a diversas crises econômicas e ao esvaziamento da região central da cidade. Atualmente gerido pelo filho caçula Emerson e sua esposa Erica, o restaurante adaptou-se aos novos tempos com estratégias como delivery e marketing digital. Apesar das dificuldades enfrentadas no Centro, o casal mantém o compromisso de preservar o legado familiar e permanecer no local onde tudo começou.
Uma família nordestina que chegou à região numa época de ouro representa muito bem essa transição. Entre 1993 e 1995, montou um bar com samba aos finais de semana e um restaurante na Rua Rui Barbosa que deram certo. O primeiro se chamava Tropical e o segundo era o Souza, sobrenome que o casal de comerciantes Miguel e Juditi compartilhava e deu aos seus cinco filhos.
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O caçula de 16 anos e os irmãos ajudavam os pais a tocarem os negócios desde sempre. Já trabalhavam desde a época em que os retirantes foram para São Paulo (SP) tentar melhorar a vida.
Em Pernambuco, Miguel tinha uma propriedade rural e era patrão. Colocou todas as suas economias no banco e estava tranquilo, até 80% do valor ser confiscado pelo Plano Collor. Juditi atuou na política e era mulher à frente do seu tempo que se viu obrigada a migrar com o marido e suas crianças para sobreviver à falta de dinheiro e à perda do patrimônio que tinham. Estudou pouco, mas era uma exímia leitora e entendia de muitos assuntos, além de cozinhar muito bem.
A família quase foi para Rondônia. Mato Grosso do Sul estava crescendo e parecia uma opção melhor. E para eles foi, porque clientes não faltaram nos primeiros anos. O casal e os filhos moraram no prédio comercial que alugaram, dormiram em colchões e colchonetes no segundo andar e economizaram no que era possível.
O bar fechou e virou restaurante. A comida de Juditi tinha um tempero especial que conquistou o gosto dos campo-grandenses e virou a preferida de muitos que trabalhavam no Centro ou estavam de passagem.
Miguel e Juditi eram católicos e frequentavam a Igreja São José, que ficava bem próxima ao comércio. Eles e os filhos iam a pé. A família não perdia uma missa e era conhecida da comunidade religiosa.
Mais tarde, abriram também duas pequenas lanchonetes em frente a pontos de ônibus. Pastel e Tubaína em saquinho com canudo era o combo que mais saía. Os clientes compravam antigas fichas de ônibus no comércio ou podiam trocá-las pelo lanche. Naquele tempo, a região era cheia de gente até altas horas da noite e muitas pessoas que dependiam do transporte público circulavam por lá. A família encerrava o dia de trabalho quando funcionários da prefeitura começavam a lavar as calçadas e ruas do Centro.
Emerson, o filho mais novo, também era camelô. Viajava para a fronteira com o Paraguai e trazia de cigarros a vasilhas para vender na banca montada na Rua Rui Barbosa. Foi um dos que insistiu em ficar no local mesmo após o processo de remoção dos vendedores ambulantes para o prédio do Camelódromo, anos depois construído na Avenida Afonso Pena.
Os irmãos curtiram boa parte da juventude no Clube Viola de Ouro, a poucas quadras do restaurante. Foi lá que o caçula conheceu a gaúcha Erica Carla Rodrigues, também camelô, e se apaixonou. Namoraram e casaram.
Fechou
O restaurante fechou as portas em 2008, quando Miguel e Juditi já estavam cansados de trabalhar e o Centro começava a perder sua força. Adultos e casados, os filhos criaram seus próprios negócios e cuidaram dos pais até eles morrerem.
Todos viraram comerciantes, exceto o caçula, que decidiu mexer com construção civil. A empresa cresceu rápido e começou a erguer grandes lojas do varejo em outros estados.
Ela ia bem até a retração da economia brasileira atingir a construção civil. Em 2014, ele se viu endividado e quebrou. Em casa, quase não havia o que comer. Foi a esposa Erica quem manteve a casa com o trabalho em um salão de beleza.
Os dois filhos do casal estavam adultos quando Emerson decidiu reabrir o restaurante dos pais na Rua Dom Aquino, quase esquina com a rua onde tudo começou. Pegaram um empréstimo de R$ 20 mil e compraram o que era necessário para começar de novo.
Recomeço
O antigo nome, Souza Restaurante, virou Souza Grill. A filha do casal atendia clientes nas mesas, o filho ficava no caixa, Erica cozinhava e Emerson fazia todas as outras tarefas que iam surgindo.
Aos poucos, foi possível melhorar o lugar. Cadeiras novas, contratação de funcionários e o churrasco como carro-chefe. As dívidas liquidadas e a situação em casa se reorganizando.
Um contrato com uma operadora de telefonia e outras empresas fez o restaurante ficar bastante movimentado e entrar mais dinheiro. A família Souza abriu outras unidades nessa época.

Passaram praticamente ilesos dos efeitos da pandemia de covid-19 porque conseguiram um contrato para fornecer alimentação a servidores da Segurança Pública. Investiram rapidamente nas entregas e isso garantiu o caixa.
Crise no Centro
Mas o esvaziamento do Centro e o processo de recuperação judicial de uma empresa cliente estremeceram o Souza Grill. Foi preciso vender bens para pagar funcionários que precisaram ser demitidos das outras unidades. Ficaram apenas com o restaurante da Rua Dom Aquino.
O que manteve o negócio vivo foi a fidelidade de quem conhece o local desde a época de Miguel e Juditi, além de estratégias para se adaptar aos novos tempos. Uma delas foi colocar um boi de acrílico na calçada para indicar que ali tem churrasco.

Mais presença nas redes sociais, descontos para categorias profissionais como os funcionários da Segurança Pública, que já conheciam o sabor, e entregas rápidas e com embalagens iguais às popularizadas por redes nacionais foram outras práticas que ancoraram o restaurante.
Vão abandonar a região em crise?
O Centro está atrelado à história do Souza Grill e à do casal, que está junto há mais de 30 anos. Para Emerson e Erica, é praticamente impossível deixarem o lugar onde nasceu o restaurante, onde se conheceram e de onde veio o sustento dos filhos.
"Dá desgosto de ver o quanto tudo mudou, mas a gente está se adaptando à nova realidade. No meu ponto de vista, estamos atrasados, andamos para trás no Centro. Só que o investimento que fizemos aqui é tão grande e estamos carregando o nome dos meus pais. Aqui, existe um legado, amigos antigos. Não temos como sair daqui", diz Emerson.
Erica tem carinho pela região. "Chegamos a morar aqui, nossos filhos andavam de bicicleta por essas calçadas. Conhecemos muita gente aqui, o pessoal do Centro é uma grande família", afirma.
Eles pretendem insistir no Centro. "Não vamos abandonar. Vamos continuar nos adaptando e vamos cobrar do Poder Público que essa situação melhore. Só não deixaremos. Tudo nosso está aqui", finaliza o comerciante.
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