ACOMPANHE-NOS     Campo Grande News no Facebook Campo Grande News no X Campo Grande News no Instagram Campo Grande News no TikTok Campo Grande News no Youtube
MARÇO, DOMINGO  01    CAMPO GRANDE 28º

Artigos

Baixa produtividade e má gestão caminham juntas no Brasil

Por Paulo Feldmann (*) | 01/03/2026 08:30

O Brasil apresenta uma das taxas mais baixas de produtividade do trabalho. Entre cem países considerados pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), estamos no 94º lugar. Em média, nosso trabalhador produz apenas a quarta parte do seu análogo estadunidense. A preocupação com a baixa produtividade é antiga – mesmo assim ela piorou muito nos últimos 20 anos. Melhorou em vários países, principalmente na Ásia e na Europa Central, mas só os países africanos tiveram resultados piores que os nossos.

As principais causas desse quadro brasileiro são bastante conhecidas, no entanto quase nada tem sido feito para extingui-las ou atenuá-las. É o caso do transporte de mercadorias, que tem um custo altíssimo no nosso país – e isso se deve quase que exclusivamente ao fato de que usamos caminhões e rodovias para tanto. Por que não se constrói ferrovias por aqui? A carga tributária é outro fator que prejudica nossa produtividade. Temos uma das maiores cargas tributárias do mundo, da ordem de 34% do PIB nacional.

Mas uma causa ainda pouco falada vem à tona com estudos feitos nos últimos 15 anos por dois pesquisadores: Nicholas Bloom, de Stanford, e John Van Reenen, da London School of Economics. Ambos desenvolveram uma metodologia que mede a qualidade da gestão de empresas a partir de entrevistas com o principal executivo das mesmas. Chamaram esse método de World Management Survey (WMS) e costumam avaliar cerca de seis mil empresas a cada quatro ou cinco anos.

Com esse método, eles dão uma nota para cada empresa e as classificam por países. Assim, a média das notas de todas as empresas de um determinado país acaba sendo a média do país. É por aí que ficamos sabendo que a média das empresas brasileiras sempre está entre as mais baixas do mundo. Desde o primeiro estudo divulgado em 2010, nossa nota média continua a mesma. Não é o caso das empresas chinesas, cujas notas eram iguais às brasileiras no primeiro estudo, mas hoje tiveram um avanço significativo.

Van Reenen e Bloom calculam que, para cada 1% de melhora na nota da qualidade da gestão, há um impacto de 6% no crescimento da produtividade dos respectivos países. O próprio Instituto de Pesquisas Economicas Aplicadas (Ipea) tem demonstrado enormes preocupações com esses resultados, que deveriam exigir do Brasil um esforço nacional em prol da melhoria da gestão.

Claro que nosso país conta com empresas altamente eficientes que atuam com desenvoltura no cenário internacional. Podemos citar Embraer, Natura, Raizen, JBS, Petrobras, WEG, Gerdau e algumas outras. Mas não muitas.

Isto fica claro quando se examina a lista das duas mil maiores empresas do mundo, elaborada anualmente pela revista estadunidense Forbes. Na lista deste ano aparecem apenas 27 empresas brasileiras, ou seja, 1,35% do total. Os Estados Unidos contam com 612 empresas e a China com 317. O interessante em relação à China é que, há 30 anos, em 1995, ela e o Brasil ostentavam o mesmo número de empresas na lista — cerca de 35 cada.

Os estudos de Van Reenen e Bloom trazem constatações sobre a forma brasileira de gerir empresas e por que ela é mal avaliada. O fato é que o País precisaria levar adiante uma espécie de cruzada em prol da melhoria da gestão. Todos sabemos do desperdício de recursos que existe no setor público, dos critérios políticos para se escolher gestores e dirigentes nas prefeituras e em todas as instâncias do poder Executivo, da falta de metas, de objetivos claros e de cobranças sobre resultados; o que talvez não seja tão conhecido é que esses erros e vícios também acontecem no setor privado.

Todos concordam que a produtividade é um problema real do Brasil. Por isso é preciso verificar como seria possível melhorar a gestão de empresas públicas e privadas em nosso país. O mais estranho é que este assunto ainda não entrou na agenda de prioridades. Pura má gestão!

(*) Paulo Feldmann, professor da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária (FEA) da USP

 

Os artigos publicados com assinatura não traduzem necessariamente a opinião do portal. A publicação tem como propósito estimular o debate e provocar a reflexão sobre os problemas brasileiros.