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Pela desnaturalização do preconceito estrutural na MPB

Por Paulo José Cunha (*) | 28/02/2026 08:30

O combate ao racismo estrutural há muito tempo deixou de ser uma atividade pontual e reativa para se transformar em atitude necessária, diária e essencial. O ato de racismo contra o jogador Vinicius Junior, após a gol dele que deu a vitória ao Real Madrid sobre o Benfica, pela Liga dos Campeões, trouxe o assunto de volta às manchetes. E é pra voltar mesmo, e cada dia mais. Há poucos dias, o cantor e compositor de axé Luiz Caldas, em entrevista ao Correio Braziliense, deu uma verdadeira aula de civilidade e respeito ao comentar como e porque retirou a música Fricote de seu repertório por causa dos versos: “Nega do cabelo duro/que não gosta de pentear”). “Eu realmente tirei Fricote do meu repertório porque os tempos mudam e a gente tem de mudar com eles para a melhoria da sociedade. Se você vive em sociedade, você tem de lutar para que ela seja igualitária, forte e bondosa com todos, não apenas com alguns. E, realmente, a letra dessa música não cabia nem naquela época, quanto mais hoje em dia. Naquele momento, muitas coisas eram naturalizadas, mas isso não significa que estivessem corretas. A sociedade precisa evoluir, porque os erros, que são gigantescos, são feitos por pessoas. Cada atitude preconceituosa é danosa para todos. A sociedade é uma mas é feita de vários segmentos e de várias realidades. Então, não teria como cantar essa canção hoje de forma alguma. (...) Essa faixa se transformou em reflexão. Ao não cantá-la, mesmo quando muitas pessoas pedem, eu faço com que elas reflitam que é uma canção animada, mas que contém uma letra errada”.

O mea culpa sincero e a decisão correta de Luiz Caldas lembram outros episódios da Música Popular Brasileira. Na área ambiental, sem alarde, Jorge Ben mudou a forma de cantar um de seus maiores sucessos, Chove chuva. Em reconhecimento à chuva criadeira e vivificante, retirou a palavra “ruim” do verso “Por favor chuva ruim/ Não molhe mais/ o meu amor assim”. Quebrou o ritmo e perdeu a rima com “meu amor assim”. Mas colocou um grãozinho de cuidado na causa ambiental. Na mesma linha, Gabriel, o Pensador,autor de Lôraburra, de 1993, corrigiu-se em 2019, mudando radicalmente a letra. Olha só a diferença: “Existem mulheres que são uma beleza /mas quando abrem a boca / Humm que tristeza! / Não, não é o seu hálito que apodrece o ar / O problema é o que elas falam que não dá pra aguentar / Nada na cabeça/ Personalidade fraca / Tem a feminilidade e a sensualidade de uma vaca”. E na nova versão: “Existem mulheres que são uma beleza / Não, hoje eu sei e afirmo com certeza / Que a beleza na verdade tá em toda mulher / Tá em todos os sentidos, só não vê quem não quer / Se quer saber, o quê / Onde é lugar de mulher / É na empresa, na balada e mais onde ela quiser / Liberdade na cabeça, personalidade forte”. Em compensação, Zeca Pagodinho nunca se retratou por Faixa amarela (“Mas se ela vacilar, vou dar um castigo nela / Vou lhe dar uma banda de frente / Quebrar cinco dentes e quatro costelas”). Nem Gilberto Gil – logo ele! - e Germano Batista por Minha nega na janela (“Minha nega na janela / Diz que está tirando linha / Êta nega tu é feia / Que parece macaquinha / Olhei pra ela e disse / Vai já pra cozinha / Dei um murro nela / E joguei ela dentro da pia / Quem foi que disse /Que essa nega não cabia?”). O preconceito avança em composições bem recentes. Taca cachaça, de MC Edy Lemond, tem um refrão que faz uma recomendação explícita ao estupro: “Taca cachaça que ela libera”.

São vários os exemplos de composições que fizeram sucesso, mas são politicamente incorretas. Mesmo assim continuam sendo cantadas e executadas por aí. Nega do cabelo duro (“qual é o pente que te penteia”), de David Nasser e Rubens Soares, lançada para o carnaval de 1942 em gravação dos “Anjos do Inferno”, é até hoje um sucesso. Assim como a marchinha O teu cabelo não nega, composta em 1929 pelos Irmãos Valença (João e Raul) e popularizada por Lamartine Babo em 1931. Diz abertamente: “O teu cabelo não nega, mulata/ porque és mulata na cor/ mas como a cor não pega, mulata/ mulata eu quero o teu amor”. A negritude é abertamente comparada a uma doença, ainda que não contagiosa... Como os autores não estão mais aí, como Luiz Caldas e Gabriel, o Pensador, a insensibilidade estrutural continua permitindo a execução, regravação e divulgação dessas músicas em todas as rádios e plataformas digitais.

O preconceito se espraia por outras áreas. No machismo fica bem explícita em composições como a marchinha Já, já, lançada por Sinhô em 1920. “Se essa mulher fosse minha / Apanhava uma surra já, já”. E mais adiante: “Eu lhe pisava todinha / Até mesmo ela dizer: ‘chegá”. Pior ainda é quando os compositores se metem a ser politicamente corretos, como Tião Carreiro e Pardinho, autores de Preto de alma branca, em que o título já diz tudo...

Uma sociedade evolui na medida em que, ao perceber que está tomando um rumo incorreto, altera o rumo. Mas não há notícia de qualquer decisão judicial proibindo a regravação e a execução de músicas preconceituosas. Nada contra elas ficarem guardadas em plataformas virtuais, por exemplo.

Mas que se limitem a isso. Suspeito que juízes e parlamentares não se atrevem a entrar nessa seara por medo de ser acusados da prática de censura, embora, em caso de atitude criminosa, não exista direito à liberdade de expressão. Mesmo em se tratando de canções muito antigas. A propósito: não foi porque os tempos passaram que a suástica perdeu sua carga de maldade e preconceito racial. Quem a utilizar atualmente estará cometendo um crime, poderá responder a processo. Mas, para remar contra a corrente, é preciso coragem, como ensina a bela canção de Nonato Buzar, composta para a novela Irmãos Coragem, na qual nossos juízes bem podiam se inspirar e ganhar... coragem: “Irmão, é preciso coragem/ É preciso coragem/ Que a vida é viagem/ Destino do amor/ Abre o peito coragem, irmão!/ Faz do amor sua imagem, irmão!/ Quem à vida se entrega/ A sorte não nega seu braço, seu chão”.

(*) Paulo José Cunha é professor da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília, jornalista e escritor.



 

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