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Mudança é nossa única certeza

Por Cristiane Lang (*) | 26/02/2026 08:30

Existe uma ironia silenciosa na existência humana: passamos a vida inteira tentando construir certezas em um universo que funciona exatamente ao contrário. Queremos garantias, estabilidade, promessas que durem para sempre. Mas a única coisa verdadeiramente constante é a mudança. Tudo escorre. Tudo se transforma. Tudo passa.

A vida não é um terreno firme — é um rio. E rios não pedem permissão para mudar de curso. Eles apenas mudam.

Nada permanece exatamente como era. Não somos quem fomos há cinco anos, às vezes nem quem fomos ontem. As pessoas que amamos mudam. Os lugares mudam. Os sonhos mudam. O que antes parecia essencial vira detalhe. O que parecia impossível vira rotina. E, no meio disso tudo, seguimos tentando segurar água com as mãos, tentando congelar momentos que nasceram para se mover.

Existe um desconforto profundo em aceitar que não temos controle real sobre quase nada. Podemos planejar, organizar, prever cenários, criar estratégias — e ainda assim, a vida pode virar de cabeça para baixo em um telefonema, em uma notícia, em um encontro inesperado, em uma despedida que não estava no roteiro.

E talvez seja exatamente isso que mais assusta: a consciência de que somos passageiros do tempo, não seus donos.

 Tudo muda porque a vida é movimento. O corpo muda. A mente muda. Os sentimentos mudam. As certezas envelhecem. As verdades pessoais amadurecem ou desmoronam. Aquilo que um dia parecia amor eterno pode virar lembrança distante. Aquilo que parecia dor insuportável pode virar história contada sem peso.

E não existe erro nisso. Existe fluxo.

Existe uma liberdade estranha em aceitar que nada é definitivo. Porque se a felicidade não é permanente, a dor também não é. Se os dias bons passam, os ruins também passam. Se relacionamentos acabam, novas conexões também surgem. Se fases terminam, outras começam — mesmo quando a gente não se sente pronto.

A vida não negocia com o nosso desejo de estabilidade. Ela apenas acontece. Ela expande, retrai, quebra, reconstrói, desmonta e reorganiza tudo o tempo todo, como se estivesse constantemente lembrando: você não está no controle, você está na experiência.

E isso não precisa ser desesperador. Pode ser profundamente libertador.

Porque quando entendemos que não controlamos tudo, também entendemos que não precisamos carregar o peso impossível de prever cada resultado, cada consequência, cada desfecho. Podemos apenas viver o agora com mais presença, mais honestidade, mais coragem.

Talvez maturidade seja justamente isso: parar de lutar contra a natureza mutável da vida e começar a caminhar com ela. Entender que segurança absoluta é uma ilusão confortável, mas ainda assim uma ilusão. Que o único chão real é a capacidade de se adaptar.

A única certeza é a mudança.

E dentro disso existe uma beleza crua e verdadeira.

Porque a mudança permite recomeços. Permite cura. Permite crescimento. Permite que versões antigas de nós mesmos fiquem no passado, onde pertencem. Permite que a vida não seja uma fotografia parada, mas um filme em movimento constante.

Talvez a sabedoria não esteja em tentar controlar a vida, mas em aprender a atravessá-la. Em entender que não somos feitos para ter todas as respostas, mas para viver as perguntas. Para mudar de ideia. Para reescrever caminhos. Para deixar para trás o que não faz mais sentido.

Nada é fixo. Nada é garantido. Nada é para sempre.

E talvez seja justamente isso que torna cada momento tão precioso.

Porque quando entendemos que tudo passa, aprendemos — mesmo que devagar — a segurar menos e viver mais.

(*) Cristiane Lang, psicóloga especialista em oncologia.

 

Os artigos publicados com assinatura não traduzem necessariamente a opinião do portal. A publicação tem como propósito estimular o debate e provocar a reflexão sobre os problemas brasileiros.