Estudo revela impactos silenciosos do uso intensivo de venenos sobre comunidades
Pesquisa aponta danos alimentares, doenças crônicas e falhas públicas em áreas indígenas e camponesas
Um relatório inédito sobre os impactos dos agrotóxicos em comunidades indígenas e camponesas de Mato Grosso do Sul traz à tona um cenário de exposição contínua, invisibilidade institucional e mudanças forçadas no modo de vida tradicional. Intitulado “Impactos de agrotóxicos em comunidades indígenas e camponesas no MS”, o relatório foi produzido por pesquisadoras vinculadas à Fundação Oswaldo Cruz, à UFGD (Universidade Federal da Grande Dourados) e à Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, articulando pesquisa acadêmica e organizações da sociedade civil.
RESUMO
Nossa ferramenta de IA resume a notícia para você!
Um estudo realizado por pesquisadoras da Fiocruz, UFGD e Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos revela os graves impactos do uso intensivo de agrotóxicos em comunidades indígenas e camponesas de Mato Grosso do Sul. O relatório, divulgado esta semana, mostra que essas populações estão expostas a produtos químicos transportados pelo vento, afetando suas casas, fontes de água e plantações de subsistência. Cerca de 90% dos entrevistados relataram danos às suas áreas agrícolas, comprometendo a soberania alimentar e o modo de vida tradicional. A pesquisa, que envolveu entrevistas e análises de campo, identificou sintomas de intoxicação em 86,4% dos participantes, como dores nos olhos, náuseas e problemas respiratórios. Além disso, foram relatados casos de doenças crônicas e até cardiopatias congênitas em recém-nascidos. O estudo aponta falhas institucionais no monitoramento e na aplicação de políticas públicas, destacando a necessidade de medidas urgentes, como a criação de zonas de amortecimento e o fortalecimento da vigilância em saúde.
Resultado de uma pesquisa realizada entre março e agosto de 2025, o estudo foi divulgado esta semana e reúne entrevistas, questionários, observações de campo e análise de dados públicos para compreender como o modelo agrícola baseado em monoculturas afeta populações que não utilizam esses produtos, mas vivem ao lado de quem os utiliza.
- Leia Também
- Governo cria comitê para acompanhar uso de agrotóxico em terras indígenas
- Veneno adoeceu aldeia, contaminou o Pantanal e virou negócio para o PCC em 2025
Entre as principais constatações, está o fato de que essas populações vivem dentro da chamada “zona de deriva” (fenômeno em que o produto aplicado nas lavouras é transportado pelo vento), atingindo casas, fontes de água, plantações de subsistência e até o interior das aldeias.
Cerca de 90% dos entrevistados afirmaram que suas áreas de agricultura para subsistência, muitas delas organizadas como quintais agroflorestais, são afetadas pela pulverização, o que reduz o desenvolvimento de cultivos agroecológicos e compromete a produção de alimentos tradicionais. O impacto direto, segundo o relatório, representa prejuízo à soberania alimentar dessas famílias.

Pesquisa qualitativa - Segundo os autores, o estudo oferece uma compreensão inicial das experiências relacionadas à exposição aos agrotóxicos na região analisada. Por isso, adotou uma abordagem qualitativa, exploratória e com diversidade territorial dos participantes. A ideia é complementar pesquisas quantitativas já realizadas na região e documentar evidências concretas de exposição e seus efeitos no cotidiano das comunidades.
“O objetivo não é transformar pessoas em objetos de pesquisa, mas reconhecê-las como protagonistas. Elas participam da análise, ajudam a interpretar os dados e constroem o conhecimento conosco”, explica a doutora em Recursos Genéticos e Vegetais, Fernanda Savicki de Almeida, pesquisadora da Fiocruz Ceará.
A distribuição espacial envolveu populações da região central do Estado, como Campo Grande e Sidrolândia; do sul , em municípios como Dourados, Itaporã, Caarapó e Rio Brilhante; além da região sudoeste, com Ponta Porã e Amambai, e da região sudeste, em Ivinhema.
De forma geral, há uma cobertura de todo o Estado. Segundo Fernanda Savicki, como se trata de uma análise reflexiva, o resultado mostra uma tendência muito forte do que acontece em todo o Mato Grosso do Sul.
Entre os respondentes, 59% se identificaram como indígenas, 20,5% como negros (pretos ou pardos) e 20,5% como brancos. As mulheres representam 61,4% das pessoas ouvidas, homens 36,4% e 2,3% se identificam como travestis.
Territórios cercados - O trabalho concentrou-se em áreas indígenas como Laranjeira Yvyrapikuê, Guyra Kambi’y, Avaeté II, Guyraroka e Passo Piraju, hoje rodeadas por extensas plantações mecanizadas de soja, milho e, em menor escala, algodão e cana-de-açúcar.
Mesmo sem cultivar essas commodities, moradores relatam contato frequente com pulverizações realizadas nas propriedades vizinhas. Entre os sinais observados no campo estavam frutos deformados, folhas queimadas e o enfraquecimento de hortas tradicionais, elementos que os próprios moradores associam à exposição constante aos agrotóxicos.
Segundo a pesquisadora Katiuscia Galhera, o estudo identificou um descompasso entre a instrução normativa que regula a pulverização de agrotóxicos e a realidade observada em comunidades rurais e indígenas. Pela legislação, deve existir uma distância de 500 metros de povoações, cidades, vilas, bairros e 250 metros de moradias isoladas. Contudo, segundo a pesquisadora, as medições feitas in loco revelaram cenários em que as lavouras estavam a apenas 50 metros e, em alguns casos, até menos, das residências e áreas de convivência.
Entre os achados documentados estão:
- cheiro intenso de veneno após pulverizações, inclusive perto de moradias;
- resíduos percebidos sobre plantas, solo e estruturas comunitárias;
- insegurança quanto à qualidade da água consumida;
- necessidade de interromper atividades cotidianas durante aplicações;
- perda parcial de lavouras destinadas ao autoconsumo.
- Ambiente contaminado, saúde afetada
A maioria dos entrevistados descreve contato frequente com produtos químicos:
- 77,3% afirmam viver ou trabalhar em áreas diretamente expostas;
- 63% relatam convivência com o problema há mais de um ano;
- 86,4% dizem já ter passado por ao menos um episódio de intoxicação.
Segundo os pesquisadores, trata-se de um quadro de exposição subcrônica ou crônica, quando o contato ocorre repetidamente, mesmo em doses consideradas menores.
Os sintomas relatados coincidem com descrições da literatura científica: dor nos olhos (50%), náuseas e gosto ruim na boca (45,5%), dor de estômago (43,2%), diarreia (40,9%), secreções nasais (38,6%), fraqueza (36,4%), além de vômitos, tosse, espirros, febre e tontura. Há ainda registros de convulsões e sangramento nasal em menor proporção.
A principal via de intoxicação relatada é a respiratória (82,5%), seguida por contato com pele ou olhos (27,5%) e ingestão de alimentos contaminados (20%). A pulverização terrestre foi mencionada em 85% dos casos, além de aplicações por aeronaves ou drones (47,5%), poeira química (40%) e contaminação da água (32,5%).
Dados oficiais - Informações do Painel de Vigilância em Saúde de Populações Expostas a Agrotóxicos indicam que, entre 2006 e 2024, foram registradas 4.192 notificações de intoxicação exógena por agrotóxicos no Estado, uma média de 20,25 casos por mês.
A residência aparece como principal local de ocorrência, com 2.788 registros, superando o ambiente de trabalho (909) e outros locais. O dado converge com a pesquisa de campo, na qual 77,3% afirmaram que casa e trabalho são o mesmo espaço de exposição.
Outro destaque é que, em Mato Grosso do Sul, os agrotóxicos de uso agrícola lideram as notificações (1.416 casos), diferentemente do cenário nacional, onde predominam intoxicações por raticidas.
Municípios com maiores índices de ocorrência coincidem com regiões de expansão agrícola, como o Cone Sul, caso de Laguna Caarapã e Caarapó, e áreas do norte e nordeste do Estado, onde predominam lavouras de soja, milho, cana-de-açúcar e eucalipto.
Relatos comunitários - Além dos episódios agudos, os entrevistados relataram doenças crônicas associadas aos sistemas circulatório, respiratório, hepático e renal, além de alergias, problemas dermatológicos, alterações hormonais, imunológicas e casos de câncer. O conjunto de dados sugere compatibilidade entre esses perfis de adoecimento e efeitos conhecidos da exposição prolongada a agrotóxicos.
Há também elevado número de relatos comunitários sobre nascimento de crianças com Transtorno do Espectro Autista em contextos de uso intensivo de glifosato, além de recém-nascidos com cardiopatias congênitas.
Um estudo com prontuários de bebês internados na UTI (Unidade de Terapia Intensiva) Neonatal do Hospital Universitário da Grande Dourados mostrou que, entre 2019 e 2021, 55,31% dos 358 recém-nascidos examinados apresentaram diagnóstico de cardiopatia congênita. O relatório ressalta que não estabelece causalidade direta, mas aponta a coexistência desses agravos com a intensificação do uso de herbicidas na região.
Impactos no cotidiano - A contaminação e o avanço das lavouras também alteram práticas culturais, calendários agrícolas tradicionais e formas de ocupação do território. Os locais de exposição relatados incluem retomadas indígenas (36,4%), reservas ou aldeias (27,2%), assentamentos rurais (25%) e acampamentos.
O relatório classifica essa dinâmica como processo de injustiça ambiental, no qual populações que não se beneficiam economicamente do agronegócio concentram os riscos sanitários e territoriais da atividade.
Segundo a pesquisadora Fernanda Savick, a pressão ambiental inviabiliza práticas que sustentam a identidade dessas comunidades, como a produção de alimentos, a relação com a água, a transmissão de conhecimentos e a organização social.
“Estamos inviabilizando modos de vida que têm a ver com cultura, ambiente, educação e identidade. Isso vai além da questão ambiental, há também um processo simbólico. Por isso, podemos falar em injustiça, ou até de racismo ambiental," destaca a pesquisadora ao afirmar que retirar ou fragilizar o vínculo dessas populações com o território significa comprometer sua própria sobrevivência.
“São violações de direitos em várias dimensões, não apenas no acesso à terra,” resume Savicki.
Falhas institucionais - Apesar das evidências, os especialistas apontam lacunas no monitoramento, subnotificação de casos e ausência de políticas públicas estruturadas. Apenas parte dos atendimentos de saúde relacionados à exposição chega a ser registrada nos sistemas oficiais.
Para os autores, o problema vem sendo tratado como questão exclusivamente agrícola, quando envolve saúde pública, ordenamento territorial, direitos humanos e desenvolvimento regional.
Os pesquisadores destacam que a pesquisa não pretende apenas denunciar situações pontuais, mas qualificar o debate público com base em evidências construídas junto às populações afetadas.
“A ideia é transformar dados em reflexão e reflexão em políticas concretas”, afirma Savicki.
Recomendações - Entre as medidas consideradas urgentes, o estudo propõe:
- criação de zonas de amortecimento entre lavouras e comunidades;
- fortalecimento da vigilância em saúde no SUS (Sistema Único de Saúde);
- monitoramento permanente de água, solo e ar;
- restrição da pulverização aérea próxima a moradias;
- instalação de laboratório público para análise de resíduos;
- participação das comunidades nas decisões territoriais;
- incentivo a modelos produtivos menos dependentes de insumos químicos.
Receba as principais notícias do Estado pelo Whats. Clique aqui para acessar o canal do Campo Grande News e siga nossas redes sociais.






