Dia Internacional da Mulher: celebrar sem esquecer
Todo ano o calendário nos oferece flores no dia 8 de março. As vitrines se enchem de cor-de-rosa, as redes sociais transbordam homenagens, frases prontas, corações lilases. O mundo celebra o Dia Internacional da Mulher, oficializado pela Organização das Nações Unidas em 1975, como símbolo de luta, resistência e conquista. Mas, no silêncio que fica depois das postagens, uma pergunta ecoa: há, de fato, o que comemorar quando o feminicídio só aumenta?
Celebrar o quê, exatamente? A força? A resiliência? A capacidade quase sobre-humana de sobreviver em um mundo que ainda insiste em nos ferir? O 8 de março nasceu das greves, das ruas, do grito de mulheres que exigiam dignidade. Não era sobre bombons. Era sobre pão e respeito. Era sobre trabalho justo, voto, direito de existir sem tutela. Era sobre vida.
E, no entanto, seguimos contando mortos.
O feminicídio — essa palavra dura, necessária, que nomeia o assassinato de mulheres por serem mulheres — cresce como uma estatística fria que esconde histórias interrompidas. Cada número é uma filha que não volta para casa. Uma mãe que não acorda no dia seguinte. Uma amiga cujo riso se torna memória. Cada número é uma ausência que grita.
Há algo de cruel em oferecer flores para quem ainda precisa aprender estratégias de sobrevivência: olhar para trás ao entrar no carro, compartilhar a localização, evitar certas ruas, moderar o tom de voz para não “provocar”, sorrir para desarmar o perigo. Desde meninas, muitas aprendem que o mundo não é neutro. Ele é um território que exige cálculo.
Então o que significa comemorar?
Talvez a pergunta não seja se há o que celebrar, mas como celebrar. Se o dia se transforma apenas em homenagem superficial, ele se esvazia. Mas se ele nos obriga a encarar a realidade, a reconhecer que a violência não é um desvio isolado, e sim o sintoma de uma estrutura que ainda naturaliza o controle, o ciúme como prova de amor, a posse travestida de cuidado — então ele recupera seu sentido original.
Não é coincidência que tantas histórias de feminicídio comecem com sinais ignorados. A romantização do sofrimento também atravessa essa discussão. Quantas mulheres foram ensinadas a suportar? A dar mais uma chance? A acreditar que o amor cura agressões? Quantas confundiram intensidade com afeto? O problema não começa no ato extremo. Ele germina na cultura que minimiza o primeiro empurrão, que ri do primeiro insulto, que duvida da primeira denúncia.
E ainda assim, há mulheres que resistem.
Resistem ao medo, às estatísticas, às manchetes. Resistem criando redes de apoio, ocupando espaços, estudando, trabalhando, educando filhos para serem diferentes. Resistem dizendo “não” onde antes havia silêncio. Resistem denunciando, mesmo quando sabem que o sistema falha. Resistem vivendo.
Talvez seja isso que se comemore: não a violência — jamais —, mas a coragem cotidiana de existir apesar dela.
Mas não podemos romantizar nem a dor nem a resistência. Não é justo exigir que a mulher seja heroína para merecer viver. Não é justo aplaudir sua força sem questionar por que ela precisa ser tão forte o tempo todo. Força não deveria ser requisito para sobreviver.
O aumento do feminicídio revela que ainda falhamos coletivamente. Falhamos quando culpabilizamos a vítima. Falhamos quando tratamos agressões como “briga de casal”. Falhamos quando a denúncia vira burocracia e a medida protetiva não protege. Falhamos quando a educação ignora o debate sobre igualdade, respeito e autonomia.
O Dia Internacional da Mulher deveria ser desconfortável. Deveria nos tirar da zona de conforto das homenagens prontas e nos empurrar para perguntas incômodas. Que tipo de sociedade estamos construindo? O que ensinamos aos nossos meninos sobre poder e frustração? O que ensinamos às nossas meninas sobre limites e valor próprio?
Comemorar, talvez, seja não esquecer que o dia não nasceu da delicadeza, mas da luta. Que não foi criado para enfeitar agendas, mas para lembrar que direitos foram arrancados com suor — e que podem ser perdidos se nos acomodarmos.
Há o que comemorar? Sim — as conquistas, as vozes que antes eram silenciadas e hoje ecoam mais alto, as leis criadas para proteger, as mulheres que ocupam espaços antes negados. Mas há, sobretudo, o que transformar.
Enquanto uma mulher morrer por ser mulher, o 8 de março será também um dia de luto.
E talvez seja essa a maturidade que precisamos alcançar: celebrar sem esquecer. Honrar sem maquiar a realidade. Oferecer flores, mas também exigir políticas públicas eficazes, educação transformadora, justiça célere. Ensinar que amor não é posse, que ciúme não é prova de cuidado, que ninguém pertence a ninguém.
O Dia Internacional da Mulher não é um ponto final. É uma vírgula. Uma pausa para respirar, refletir e continuar.
Que as flores não sejam desculpa para o silêncio.
Que as homenagens não substituam a mudança.
Que a celebração não nos faça esquecer que viver, para muitas mulheres, ainda é um ato de resistência diária.
E que um dia — quem sabe — possamos comemorar não a força de sobreviver, mas a simples, digna e tranquila liberdade de existir.
(*) Cristiane Lang, psicóloga especialista em oncologia.
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