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Lixo Zero na Saúde: Hospital São Julião, uma experiência com impacto global

Por Carlos Augusto Melke (*) | 30/03/2026 08:30

No Dia Internacional do Lixo Zero, celebrado em 30 de março, o mundo volta sua atenção para um dos maiores desafios ambientais do nosso tempo: a forma como produzimos, consumimos e descartamos resíduos. A data, instituída pela Assembleia Geral das Nações Unidas [1], nos lembra que a humanidade produz anualmente mais de 2 bilhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos [2]. Neste contexto, a experiência do Hospital São Julião, em Mato Grosso do Sul, mostra que a sustentabilidade também é um compromisso social profundo — e que o Brasil já possui exemplos de excelência que merecem ser reconhecidos e replicados.

Governos, organizações internacionais e especialistas discutem cada vez mais a necessidade de reduzir drasticamente a geração de lixo e ampliar modelos de economia circular. No Brasil, entretanto, apesar de o tema ganhar espaço no debate público, a prática ainda avança lentamente. O conceito de “lixo zero” permanece, muitas vezes, restrito a discursos, campanhas pontuais ou iniciativas isoladas, ainda distante de políticas públicas estruturadas e do apoio mais amplo da sociedade. Transformar esse ideal em realidade exige algo mais profundo: visão de longo prazo, compromisso institucional e mudança cultural.

Sustentabilidade, nesse contexto, não é apenas um conjunto de normas técnicas ou indicadores ambientais. Ela é, antes de tudo, uma visão de mundo — uma perspectiva capaz de reconhecer valor onde antes havia invisibilidade, de transformar rejeito em recurso e de devolver protagonismo às pessoas que trabalham silenciosamente para cuidar daquilo que a sociedade descarta. Como engenheiro e presidente da Associação Beneficente de Auxílio e Recuperação dos Hansenianos, vejo diariamente como a aplicação de processos estruturados pode transformar a realidade de uma instituição.

Essa mesma lógica inspira, de forma concreta, o trabalho desenvolvido há mais de uma década pelo Hospital São Julião, em Campo Grande. Instituição filantrópica que há mais de oitenta anos dedica sua existência ao atendimento integral pelo Sistema Único de Saúde (SUS), o hospital demonstra que o compromisso com a vida não se limita aos cuidados clínicos, mas se estende também à responsabilidade com o meio ambiente e com as gerações futuras. Fundado em agosto de 1941 como Sanatório São Julião, um hospital-colônia para pacientes hansenianos, com a presença do então presidente Getúlio Vargas [3], a instituição transformou uma história de isolamento compulsório em um legado de acolhimento, tratamento e inovação, adaptando-se e evoluindo ao longo das décadas para se tornar a referência filantrópica que é hoje.

Por meio do seu programa Lixo Zero, iniciado com a implantação da coleta seletiva em 2015, a instituição alcançou resultados que merecem atenção nacional. Em 2025, das 701,6 toneladas de resíduos geradas ao longo do ano, impressionantes 86% foram desviadas de aterros sanitários, sendo destinadas à reciclagem, compostagem ou reaproveitamento responsável. Esse esforço contínuo rendeu ao hospital a certificação Lixo Zero, tornando-o pioneiro na América Latina entre hospitais do SUS a alcançar tal feito [4].

Ele representa o fruto de todas as decisões conscientes tomadas diariamente por profissionais de diferentes áreas envolvidos na assistência direta ou indiretamente, parceiros e cooperativas de reciclagem, todos unidos por um propósito comum: cuidar da saúde das pessoas sem descuidar da saúde do planeta. A metodologia envolveu desde a educação visual e aquisição de lixeiras adequadas até o treinamento detalhado no centro cirúrgico para a separação correta de embalagens e instrumentais [4].

No cenário internacional, diversas instituições hospitalares vêm sendo reconhecidas por iniciativas semelhantes e frequentemente aparecem em relatórios globais de sustentabilidade na saúde. Entre os exemplos mais citados estão o Kaiser Permanente e a Cleveland Clinic (Estados Unidos), o Cambridge University Hospitals NHS Foundation Trust (Reino Unido), o Karolinska University Hospital (Suécia) e o Hospital Las Higueras (Chile). Essas instituições demonstram que hospitais podem ser protagonistas não apenas no cuidado com a saúde, mas também na construção de modelos responsáveis de gestão ambiental, economia circular e redução de emissões.

Quando se observam com atenção os resultados alcançados pelo Hospital São Julião, percebe-se algo igualmente significativo. Mesmo sendo uma instituição filantrópica, integralmente dedicada ao SUS, localizada longe dos grandes centros econômicos e sem o aparato institucional ou midiático que frequentemente acompanha projetos internacionais, o hospital alcançou índices de gestão de resíduos comparáveis aos das melhores práticas globais. O reconhecimento veio na forma de diversos prêmios nacionais, incluindo o Prêmio ESG 2025 [5], e a formação do Laboratório Lixo Zero no próprio hospital, que agora presta consultoria para outras instituições [4]. Esses reconhecimentos destacam a excelência e o pioneirismo da instituição no cenário nacional, conforme detalhado na tabela a seguir:

PrêmioOrganizaçãoData
Prêmio Frederico ValenteAssociação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental Seção MS (ABES-MS)Nov 2022
Prêmio Amigo do Meio AmbienteSecretaria de Estado da Saúde de São Paulo (SES-SP), Programa Hospitais SaudáveisDez 2022 e Dez 2025
Prêmio Lixo ZeroInstituto Lixo Zero BrasilDez 2023 e Dez 2024
Troféu SeriemaConselho Regional de Engenharia e Agronomia de Goiás (CREA-GO)Nov 2024
Prêmio Consciência Ambiental ImmensitàMori Administração e Participação LtdaJunho 2024
Prêmio ESGAssociação Brasileira de ESGJulho 2024 e Maio de 2025

Entretanto, o Hospital São Julião quer ir além. Os desafios ambientais nos movem, somos parte e corresponsáveis pela sustentabilidade ambiental do planeta. Com essa postura, sistematizamos e precificamos nossos serviços com o projeto “Cidades LIXO ZERO” para serem adquiridos por todos os municípios do nosso estado, criando uma unidade de proposta para a sustentabilidade ambiental na saúde. Nossa proposição é transformar nosso case em política pública de Mato Grosso do Sul e se tornar o primeiro estado do Brasil LIXO ZERO, no setor da saúde, em todos os seus hospitais.

Ainda assim, essa conquista permanece pouco conhecida fora dos limites da própria instituição e do estado de Mato Grosso do Sul. Até hoje não recebeu o reconhecimento proporcional da grande imprensa brasileira, nem a valorização que deveria despertar em autoridades competentes para a formulação de políticas públicas de saúde e meio ambiente.

O que se realiza diariamente no Hospital São Julião demonstra que a excelência ambiental não depende apenas de grandes investimentos financeiros, mas de propósito, consciência, engenharia de processos e compromisso coletivo. Grandes transformações raramente começam com aplausos. Elas nascem do trabalho persistente de pessoas que acreditam que cada gesto importa.

E sem perder de vista nossa história, um hospital que usou a arte para reabilitar vidas, vamos agora usar nosso lixo para sensibilizar a sociedade através da arte sustentável, criativa e crítica, com um novo uso para o que descartamos. E porque não a Arte? A proposta é fazer um programa de Residência Artística no hospital e convidar artistas para criarem arte de valor, mostrando que sustentabilidade e arte é reflexão, conscientização e transformação social.

Internacionalmente também estamos à frente. Fomos convidados a participar do prestigiado Prêmio Zayed de Sustentabilidade e Humanitarismo, iniciativa global para projetos inovadores, legítimos e relevantes para o planeta. Fomos reconhecidos no Setor da Sustentabilidade na Saúde e vamos concorrer.

E talvez essa seja a mensagem mais importante deste Dia Internacional do Lixo Zero: cuidar da saúde das pessoas também significa cuidar da saúde do planeta. Porque, quando uma instituição aprende a dar destino digno até mesmo àquilo que seria descartado, ela demonstra que sustentabilidade não é apenas um conceito — é uma escolha diária de responsabilidade com a vida e com o futuro.

(*) Carlos Augusto Melke, Presidente da Associação Beneficente de Auxílio e Recuperação dos Hansenianos - Hospital São Julião e Engenheiro

Referências :

[1] Dia Internacional do Lixo Zero - ONU Habitat: https://unhabitat.org/internationalday -of-zero-waste [2] Dia Internacional do Resíduo Zero - Nações Unidas Brasil: https://brasil.un.org/pt-br/264621-dia-internacional-do-res%C3%ADduo-zero [3] Breve História do Hospital São Julião: https://saojuliao.org.br/institucional/ [4] Programa Lixo Zero em Hospital SUS: Uma Utopia Possível - ABES: https://abesdn.org.br/anaiseletronicos/33cbesa/6_tema_iii.pdf [5] Hospital São Julião conquista prêmio nacional com programa Lixo Zero - Campo Grande News: https://www.campograndenews.com.br/meio-ambiente/hospital-sao-juliao-conquista-premio-nacional-com-programa-lixo-zero

 

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