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Cidades

Comunidades se fortalecem com a atuação da liderança feminina na linha de frente

Moradoras organizam territórios precários, mobilizam famílias e constroem rede de apoio comunitária

Por Inara Silva | 08/03/2026 10:25
Comunidades se fortalecem com a atuação da liderança feminina na linha de frente
Mônica Pereira da Silva conversa com a vizinha. (Foto: Juliano Almeida)

Quando a chuva atravessa o telhado de lona, quando a conta não fecha no fim do mês ou quando a história familiar carrega marcas de expulsão e violência, há mulheres que escolhem não recuar. Em diferentes regiões de Campo Grande, mesmo sem se conhecerem, elas vivem realidades semelhantes e transformam a dor em força coletiva.

RESUMO

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Em Campo Grande, mulheres em situação de vulnerabilidade social transformam suas experiências em liderança comunitária. Marilza Eleotério, Mônica Pereira e Marilene Jarsem são exemplos de moradoras que, mesmo enfrentando dificuldades, mobilizam suas comunidades em busca de melhorias. As líderes atuam em diferentes regiões da cidade, organizando campanhas por doações, dialogando com o poder público e lutando por regularização de áreas ocupadas. Suas histórias são marcadas pela superação da pobreza, problemas habitacionais e desafios familiares, convertendo essas experiências em ações coletivas que beneficiam dezenas de famílias.

Em meio às comunidades invisibilizadas, são elas que mantêm os grupos coesos e lideram lutas por melhorias. Uma dessas histórias é vivida por Marilza Eleotério de Barcelos Silva, 48 anos. Moradora do Lagoa Park, na região do Caiobá, a líder comunitária aprendeu a medir o tempo pelas tempestades.

Cada chuva forte significa colchões encharcados, barracos alagados, crianças gripadas e móveis perdidos. Vivendo em área ainda não regularizada, ela organiza campanhas por lonas, cobertores e alimentos enquanto aguarda, com os moradores, o reconhecimento oficial da área.

“Eu não acordei um dia querendo ser líder. Eu vi que, se ninguém fosse atrás, nada ia acontecer”, afirma.

Foi assim que, há três anos, ao chegar a um espaço com pouco mais de duas dezenas de barracos improvisados, passou a mobilizar vizinhos, cadastrar famílias, dialogar com o poder público, organizar mutirões para cascalhar ruas e reorganizar fios espalhados pelo chão.

Desde então, já esteve na Prefeitura, na Câmara Municipal, participou de reuniões técnicas para mapeamento da área e acompanhou a instalação de um hidrômetro coletivo.

“As casas são feitas do que a gente encontra. Porta velha vira parede. Guarda-roupa velho vira tábua. Telha quebrada a gente emenda. Mas a chuva não perdoa”, relata.

Comunidades se fortalecem com a atuação da liderança feminina na linha de frente
Marilza e o esposo em frente a casa da família (Foto: Marcos Maluf)

As ruas ganharam nomes simbólicos, Esperança, Vitória, Liberdade, e a comunidade já tem um CEP (Código de Endereçamento Postal). São pequenas conquistas que representam dignidade para os moradores.

Além da mobilização comunitária, Marilza encontrou na criatividade uma forma de recomeçar. Desenvolveu um fio feito da fibra da bananeira para alongamentos e tranças. O produto ganhou repercussão, passou a ser fabricado em laboratório e hoje pode abrir portas para geração de renda dentro da própria comunidade.

“Eu pensei: se eu conseguir crescer, eu quero puxar outras mulheres junto comigo”, diz. “Aqui tem muita mãe que precisa de oportunidade.”

Mesmo com a renda instável, o marido aguarda benefício do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social). Ela segue dividindo o tempo entre o projeto e as demandas da comunidade. “Nunca fiquei dias sem comer, graças a Deus. Mas já faltou muita coisa. E eu sei o que é isso.”

A experiência da falta também moldou a trajetória de Mônica Pereira da Silva, 51 anos. Moradora de Campo Grande desde os cinco meses de vida, cresceu na Vila Nasser, onde construiu família e logo conquistou um terreno por meio de um programa popular. O sonho da casa própria parecia encaminhado, até que a doença cardíaca do marido e o desemprego tornaram as contas insustentáveis.

“Era prestação de água, luz, remédio. Só ele trabalhando não dava conta. Eu fazia acabamento de prédio, mas quando precisei cuidar da minha neta, parei”, conta.

Depois de quase dois anos tentando equilibrar as finanças, vendeu o imóvel para quitar dívidas. “Foi muito difícil entregar algo que a gente lutou para ter. Mas era isso ou perder tudo.”

Sem casa, ela, o marido e a neta de 6 anos buscaram alternativas. Antes de ocupar uma área da União, nos fundos de uma indústria, em Indubrasil, Mônica pesquisou a situação do terreno. “Eu não queria colocar minha família em qualquer lugar. Fui atrás para saber de quem era.”

Comunidades se fortalecem com a atuação da liderança feminina na linha de frente
Monica em frente a sua casa na área de ocupação. (Foto: Juliano Almeida)

Fez um barraco de lona e ficou ali por cerca de 15 dias, praticamente sozinha. Depois, outras famílias começaram a chegar. Hoje são quase 50, sendo pelo menos 30 chefiadas por mães solo.

“Eu organizei para não virar bagunça. Medi 50 metros de cada lado, não deixei ninguém construir perto da rodovia. Se a gente não organiza no começo, depois vira conflito.”

A água é puxada de um cavalete a cerca de 250 metros. A energia elétrica vem de ligação improvisada, já que só há rede de alta tensão na área. Em dias de chuva, o medo retorna. “Molha tudo. A lona não aguenta. A gente corre atrás de doação.”

Apesar da precariedade, Mônica afirma que há diálogo sobre a possibilidade de construção de casas populares na região. Segundo ela, a área está em processo de levantamento para futuros projetos habitacionais.

Foi por meio do contato com a Cufa (Central Única das Favelas) que passou a conseguir apoio para lonas e cobertores. “Eu aprendi que pedir ajuda não é vergonha. Vergonha é ver criança passando necessidade e não fazer nada.”

O marido faz bicos na construção civil. Há semanas com três dias de serviço; outras, nenhum. “Tem semana que a gente respira. Tem semana que aperta. Mas a gente não desiste.”

Mônica não carrega título formal, mas é reconhecida como liderança. “Eu olho bem quem precisa mesmo. Não é qualquer um que entra aqui. Tem que ter necessidade de verdade.”

A líder carrega a consciência de que a política habitacional, muitas vezes, não alcança quem mais precisa. “Não adianta dar terreno se a pessoa não consegue construir nem pagar água e luz”, reflete. Ainda assim, sustenta o recomeço coletivo com firmeza silenciosa.

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Marilene Jarsem, presidente da Associação de Moradores do Jardim Canguru. (Foto: Marcos Maluf)

No Jardim Canguru, Marilene Jarsem dos Santos, 58 anos, conta que já morou em duas ocupações antes de conseguir sua casa própria. Filha e neta de descendentes de quilombolas expulsos de terras em Rio Brilhante, ela cresceu ouvindo relatos de violência contra a família, que vivia em área própria. A disputa fundiária atravessou gerações e segue em processo de reconhecimento pelo Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária).

A experiência da expulsão não ficou apenas na memória dos seus antepassados. No fim dos anos 1980, já adulta, Marilene também precisou recomeçar. Deixou a casa do pai e, com a irmã, ergueu um barraco de lona preta na antiga Vila Sayonara. Tempos depois, o poder público remanejou os moradores do local e demoliu seus barracos.

“Disseram que iam levar a gente para um lugar melhor. Quando chegamos, era mato pela cintura. Jogaram nossa mudança no meio do mato”, conta.

Com facão, cortou madeira e novamente levantou as paredes improvisadas. “Primeiro fiz o meu, depois ajudei minha irmã. A gente não podia esperar ninguém fazer por nós.”

Conseguiu um emprego na Santa Casa de Campo Grande, como serviços gerais, decidiu usar o primeiro salário fixo para organizar uma ceia de Natal coletiva. “Muitos não sabiam nem como preparar uma ceia. Eu queria que todo mundo tivesse pelo menos aquele momento.”

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Marilene em sua loja de roupas no Jardim Canguru (Foto: Marcos Maluf)

Anos depois, ao conquistar uma casa popular no Jardim Canguru, continuou mobilizando o bairro por melhorias. Marilene fala com orgulho que lutou pela conquista da iluminação pública, creche, escola, CRAS (Centro de Referência de Assistência Social). “A gente batia na porta, fazia abaixo-assinado, ia atrás.”

Enquanto corria atrás de doações atendendo às necessidades dos vizinhos, Marilene foi aos poucos reformando sua casa. Junto com o esposo, criou os três filhos, hoje adultos, e abriu uma pequena loja de roupas no bairro.

Hoje, após 25 anos de atuação comunitária,recentemente foi eleita presidente da Associação de Moradores.

“Eu já morei em barraco de lona. Já perdi tudo. Hoje eu olho para trás e vejo que valeu a pena não desistir.”

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