Executado em Campo Grande delatou policiais paulistas presos por tráfico
Tiago Lobo foi considerado peça-chave na investigação de suspeita de desvio de drogas por agentes de segurança
Executado a tiros em Campo Grande em 30 de novembro de 2025, no bairro Danúbio Azul, Tiago Lobo, na época com 30 anos, havia denunciado em fevereiro de 2025, policiais civis de São Paulo (SP) por tráfico de drogas à Corregedoria daquele estado. Nas manchetes do período de seu assassinato, constavam passagens por violência doméstica e tentativa de homicídio contra um servidor público da Capital. Na cena da morte, foram encontrados dezenove tabletes de pasta base de cocaína no porta-malas do carro que ele dirigia, um modelo HB20 branco.
RESUMO
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Um homem executado em Campo Grande em novembro de 2025 havia denunciado policiais civis de São Paulo por tráfico de drogas. Tiago Lobo, de 30 anos, era informante e ajudava a localizar carregamentos de entorpecentes, mas acabou revelando um esquema de desvio de drogas envolvendo agentes da segurança pública paulista. A investigação apontou que três policiais e dois civis desviaram cerca de 450 quilos de cocaína apreendida em Rubineia, São Paulo. A droga pertencia a um parceiro do líder do PCC. Após denunciar o caso à Corregedoria, Lobo passou a receber ameaças e foi morto antes de formalizar sua delação premiada.
O que ninguém sabia, é que ele era informante de policiais paulistas que desviavam drogas para depois revendê-las. Ele ajudava a polícia a localizar carregamentos de entorpecentes, mas sua morte revelou uma trama muito mais complexa envolvendo a segurança pública paulista. No começo de fevereiro deste ano, três desses policiais foram presos em operação em fevereiro do ano passado.
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As informações foram divulgadas pelo Portal IG, que teve acesso ao material da Corregedoria. Tiago Lobo é considerado a peça-chave que liga sua própria execução à suspeita de que policiais teriam desviado quase 450 quilos de cocaína de alta pureza. Essa droga havia sido apreendida originalmente em um caminhão de milho na cidade de Rubineia (SP), no interior de São Paulo, na divisa com Mato Grosso do Sul, em maio de 2024, e seu destinatário seria Gilberto Aparecido dos Santos, o “Fuminho”, principal parceiro de Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, chefão do PCC (Primeiro Comando da Capital).
Com as informações de Tiago, investigadores organizaram uma estrutura fictícia, com viatura oficial e até um cão farejador particular para realizar a apreensão.
A investigação da Corregedoria de São Paulo aponta que três investigadores de uma delegacia da capital paulista se uniram a dois civis para retirar parte da droga antes que ela fosse entregue oficialmente na delegacia. Esse tipo de prática é conhecido no meio policial como "vira", que consiste em substituir a droga verdadeira por substâncias sem valor, como gesso ou farinha, para enganar a perícia e revender o produto original.
O motorista do caminhão, Diego Russo Castilho, foi preso e condenado a mais de oito anos de prisão pelo transporte da carga. No entanto, o juiz que analisou o caso notou falhas graves no trabalho dos policiais, como erros no registro do peso da droga e a incineração muito rápida do material, o que impediu uma conferência precisa.
Em suas declarações, que deram detalhes, nomes, estrutura e forma de organização do esquema, ele afirmou que desviar uma carga desse porte equivale a declarar guerra, já que cada quilo de cocaína representa lucro relevante em negociações internas e externas, do atacado na fronteira aos acordos com grupos estrangeiros.
Ao afirmar que a droga era de Fuminho, ele sugere que havia, de um lado, alguém dentro da facção repassando informações de rota para a polícia civis corruptos, e, de outro, policiais civis dispostos a correr o risco de um acerto de contas sangrento em nome de uma fortuna imediata.
O próprio Tiago disse ter passado a receber ameaças de morte depois de se envolver no esquema e começar a falar em colaboração com a Corregedoria. Ameaças que, segundo o material analisado, vinham tanto de policiais citados no depoimento quanto de interlocutores associados ao crime organizado, incomodados com a possibilidade de um "ganso" (informante da polícia) se converter em delator oficial.
Delação - Tiago Lobo procurou a Corregedoria em fevereiro de 2025 afirmando que ele foi a pessoa que deu o aviso sobre o caminhão aos policiais. Ele declarou ter recebido R$ 280 mil de um investigador pelo serviço e detalhou como o esquema funcionava.
Segundo o depoimento de Tiago, os policiais utilizavam empresas de fachada e contavam com a ajuda de civis, como um empresário e um taxista, que chegavam a usar distintivos e armas para parecerem agentes públicos durante as abordagens.
Diante do perigo que corria, Tiago chegou a iniciar um processo para se tornar um delator oficial da justiça, o que lhe garantiria benefícios em troca de informações. A Corregedoria pediu sigilo total sobre o que ele dizia para proteger sua vida, já que o caso envolvia policiais da ativa e mencionava nomes importantes de organizações criminosas. Contudo, esse acordo de colaboração nunca foi assinado por ele.
Os policiais investigados, por outro lado, defendem que Tiago não era confiável e que ele usava informações de dentro da Corregedoria para tentar extorquir dinheiro das pessoas. Eles afirmam que o informante exigia pagamentos para não fazer denúncias e que a investigação contra os agentes foi baseada apenas em palavras de um homem com histórico criminal.
A defesa dos policiais também aponta encontros informais entre o chefe dos investigadores da Corregedoria e um dos acusados, sugerindo que o processo interno estaria comprometido.

A situação de Tiago mudou drasticamente em março de 2025, quando ele enviou um e-mail recuando de sua intenção de fazer a delação premiada. Ele pediu para ser considerado apenas uma testemunha comum, alegando que não tinha mais informações a passar. Esse recuo pode ter sido uma tentativa de proteção, já que ser um delator oficial aumenta muito o risco de morte no mundo do crime.
Mesmo tentando se afastar da condição de delator, Tiago continuou na mira. O silêncio que ele buscou no papel não se refletiu nas ruas. Sua execução em Campo Grande, ocorreu em um cenário que muitos interpretam como uma queima de arquivo. A presença da droga em seu carro no momento da morte é vista, segundo as informações reveladas pelo Portal IG, como uma forma de desacreditar suas denúncias anteriores contra os policiais corruptos.
Como afirmam os documentos, Tiago Lobo transitou entre o crime e as delegacias, revelou um esquema de desvio de cargas milionárias e terminou morto antes que a Justiça pudesse validar suas declarações.
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