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Interior

Dossiê aponta ataques a rezadores e expulsão de indígena em MS

Pesquisa sobre racismo e intolerância religiosa identifica ameaças, expulsões e destruição de casas de reza

Por Inara Silva | 29/03/2026 09:27
Dossiê aponta ataques a rezadores e expulsão de indígena em MS
Escombros da Casa de Reza da Dona Floriza, na Aldeia Jaguapiru (Foto: Leandro Holsbach/Arquivo)

Expulsa de sua comunidade após ter a casa incendiada e sofrer ameaças de morte, uma rezadeira indígena vive hoje em local seguro no interior de Mato Grosso do Sul. Acusada de praticar “bruxaria” por manter rituais tradicionais, ela foi obrigada a deixar o território onde morava depois que seus pertences foram destruídos e recebeu o aviso de que seria queimada viva se retornasse. O caso, relatado pela indígena Guarani-Kaiowá, Jaqueline Aranduha, foi identificado durante a pesquisa de campo do II Dossiê de Racismo e Intolerância Religiosa em Mato Grosso do Sul e exemplifica o clima de medo enfrentado por lideranças espirituais indígenas no Estado.

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Um dossiê em fase de sistematização revela ataques sistemáticos contra rezadores indígenas em Mato Grosso do Sul. Entre os casos documentados, destaca-se o de uma rezadeira Guarani-Kaiowá que foi expulsa de sua comunidade em Paranhos após ter a casa incendiada e sofrer ameaças de morte, sendo acusada de "bruxaria". O documento, coordenado pela Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade (Anmiga), também registrou incêndios em casas de reza em Dourados, Douradinha e Rio Brilhante. Os ataques são frequentemente motivados por conflitos religiosos, especialmente em áreas com expansão de denominações cristãs nas comunidades indígenas.

Jaqueline é  coordenadora de Promoção ao Direito das Mulheres e Meninas Indígenas da Anmiga (Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade). Segundo ela, a coleta de dados foi concluída em março, o relatório entra agora na fase de sistematização e deve ser lançado no final do ano. Conforme a coordenadora, o dossiê deve apresentar recomendações a órgãos públicos para proteção de lideranças espirituais e reconhecimento das denúncias como violações de direitos.

A mulher foi localizada pela equipe durante a etapa de levantamento e, conforme a coordenadora, vive atualmente sob proteção de outras lideranças espirituais e não retorna ao território de origem por temer novos ataques.

O episódio ocorreu em uma comunidade de Paranhos, na região de fronteira com o Paraguai. No entanto, de acordo  com a coordenação do dossiê, em todo o Estado, houve crescimento de discursos contrários às práticas espirituais indígenas. A equipe registrou que a acusação de “bruxaria” tem sido usada para deslegitimar rezadores e rezadeiras, criando um ambiente de hostilidade dentro dos próprios territórios.

Intolerância Religiosa - Durante a escuta, a rezadeira contou que a violência foi praticada por uma liderança da comunidade, que é de uma religião cristã. Jaqueline afirma que o caso não teve, até o momento, desdobramento judicial que reconheça a situação como intolerância religiosa.

Para a coordenadora, o episódio revela um padrão observado em diferentes territórios visitados. “Há expulsões, ameaças e destruição de casas de reza. Muitas vezes isso não chega a ser investigado como crime, mas tratado como conflito interno, o que invisibiliza a violência”, afirmou.

Dossiê aponta ataques a rezadores e expulsão de indígena em MS
Casa de reza fopi incendiada antes de ser inaugura em Caarapó. (Foto: Divulgação)

Pesquisa - A situação foi identificada durante visitas a nove territórios indígenas realizadas por uma equipe coordenada pela Anmiga, com apoio de organizações parceiras e assessoria jurídica. O grupo ouviu anciãos, rezadores, lideranças e moradores, além de coletar documentos e denúncias relacionadas a casos de racismo e intolerância religiosa.

Segundo a coordenadora, relatos como o da rezadeira expulsa se repetem em outras regiões, especialmente onde há tensão entre práticas religiosas tradicionais e a expansão de denominações cristãs dentro das comunidades. “As pessoas passam a ser pressionadas a abandonar sua espiritualidade. Quando resistem, sofrem ameaças ou são isoladas”, disse.

Incêndios - Enquanto o dossiê não é publicado, Jaqueline afirma que casos como o da rezadeira continuam sem resposta formal. Para ela, a situação expõe a vulnerabilidade de quem mantém práticas espirituais tradicionais e reforça a necessidade de políticas específicas de proteção.

Um outro caso que fará parte do dossiê envolve o incêndio de uma casa de reza na Reserva Indígena de Dourados, pertencente à anciã e rezadeira Floriza de Souza. Segundo a coordenadora Jaqueline Aranduha, o espaço tradicional foi destruído após uma série de ameaças. A comunidade denunciou o episódio, mas, conforme relatado, não houve desdobramentos efetivos nem registro claro do caso como crime de intolerância religiosa. O incêndio atingiu um dos poucos locais de prática espiritual tradicional ainda existentes na área, onde atualmente restam apenas duas casas de reza.

Outros registros, segundo Jaqueline, ocorreram também em Douradinha,onde três casas de reza foram queimadas em momentos distintos e em Rio Brilhante um episódio foi constatado na aldeia Tajasu Ygua, com uma casa de reza também incendiada.

Dossiê aponta ataques a rezadores e expulsão de indígena em MS
Principal casa de reza da aldeia Jaguapiru foi destruída pelo fogo (Foto: Divulgação)

Denúncias - Em fevereiro do ano passado, a comunidade Guarani-Kaiowá do Estado já havia entregado uma carta à embaixada da Alemanha no Brasil denunciando ataques contra práticas espirituais tradicionais. O documento, elaborado pela Aty Guasu, relatava destruição de casas de reza e perseguição a lideranças religiosas.

Dados do Cimi (Conselho Indigenista Missionário) indicam que, entre 2020 e 2024, ao menos 16 casas de reza foram incendiadas no Estado, além de registros de agressões, assassinatos de rezadores e destruição de objetos sagrados, em episódios associados a conflitos agrários e à expansão do neopentecostalismo.

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