Na Tia Eva, tombamento é visto como reconhecimento e perpetuação da história
É o primeiro quilombo declarado tombado no Brasil e vai inaugurar o Livro do Tombo
Por volta das 7h20, o movimento era grande na Rua Eva Maria de Jesus, na Comunidade Remanescente de Quilombo Tia Eva, no Jardim Seminário. Os operários que trabalham no restauro da igreja local já estavam no andaime, enquanto muitos carros passavam pela via, disputando espaço com o ônibus do transporte coletivo. Os últimos alunos chegavam à escola, onde a professora já aguardava os retardatários para o fechamento do portão.
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O Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) publicou o edital de notificação do tombamento da Comunidade Remanescente de Quilombo Eva Maria de Jesus, em Campo Grande. O documento delimita a área protegida, que inclui trechos próximos às avenidas Prefeito Heráclito Diniz de Figueiredo e Júlia Maksoud. A comunidade, uma das mais antigas referências quilombolas urbanas do Brasil, será inscrita no Livro do Tombo de Documentos e Sítios Detentores de Reminiscências Históricas de Antigos Quilombos. Fundada por Eva Maria de Jesus, conhecida como Tia Eva, representa importante marco da resistência negra no estado.
Embora seja mais um dia na comunidade, hoje os quilombolas andavam em solo recém-protegido pelo patrimônio histórico. Nesta terça-feira (10), foi publicado no Diário Oficial da União o edital de notificação de tombamento da comunidade.
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O anúncio foi feito ontem (9) pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). Hoje, o edital foi emitido e assinado pelo presidente da entidade, Leandro Grass. De acordo com o documento, a comunidade tem indicação da primeira inscrição no Livro do Tombo de Documentos e Sítios Detentores de Reminiscências Históricas de Antigos Quilombos.
A partir da declaração de tombamento comunicada no documento, a Comunidade Remanescente de Quilombo Eva Maria de Jesus passa a gozar de proteção por meio do Iphan.
Em decorrência disso, eventuais intervenções no bem declarado tombado devem ser previamente informadas à Superintendência do Iphan em Mato Grosso do Sul. O edital cita como amparo legal o §5º do artigo 216 da Constituição Federal do Brasil de 1988.
“É a primeira comunidade que recebe esse tombamento do Iphan. Para nós é algo importantíssimo, só reafirma quem somos e a nossa existência”, disse a professora Vânia Lúcia Baptista, que aguardava a chegada dos alunos no portão.
Vânia é diretora da associação da comunidade e foi subsecretária de Políticas Públicas para a Promoção da Igualdade Racial. Ela acredita que esse tombamento, apesar de ser o primeiro, não significa ação tardia. “Essas políticas voltadas para população quilombola são recentes, então pensamos que muitas são a partir da Constituição de 1988, então é o tempo”, avaliou. “É uma questão de proteção, mais um instrumento de valorização da nossa história, do nosso pertencimento, da nossa identidade e do nosso território quilombola”.
Essa história faz parte do ensinamento da Escola Estadual Antônio Delfino Pereira e do Centro Cultural de Educação Tia Eva, segundo Vânia. A história é contada aos alunos e, no mês de março, com ênfase à ação da mulher negra.
O presidente da Associação da Comunidade Tia Eva, Ronaldo Jeferson da Silva, afirmou que a publicação do edital representa mais uma etapa no reconhecimento histórico da comunidade. Segundo ele, o tombamento é resultado de um processo marcado por luta e resistência dos moradores ao longo do tempo. “Com toda sua história, com todo legado que a Tia Eva deixou para a gente e é de suma importância que esse tombamento venha para que a gente mostre a história da comunidade para o Brasil”, afirmou.
Ele também destacou que a comunidade construiu sua trajetória a partir de mobilização coletiva. “A comunidade vive de suas conquistas, de suas lutas e resistência, então a gente está sempre buscando melhorias".
Morador da Tia Eva, Giovane Guilherme da Silva, de 37 anos, trabalha com produção de água mineral e também vende salgados em um bolicho em frente à escola estadual. “Para nós é uma honra, um privilégio presenciarmos isso. Faz tempo que nosso presidente e vários líderes vêm lutando, então graças a Deus desta vez conseguimos e vai ser realizado. É uma conquista de todos nós”, afirmou.
Giovane acredita que o reconhecimento demorou a chegar, mas avalia que o processo ocorreu no momento certo. “Pelos anos que já vem, até que demorou um pouco, mas tudo tem propósito de Deus e tudo vem na hora certa”, disse.
Na Rua Eva Maria de Jesus, em frente à igreja, a aposentada Air Gerônima dos Santos, 76 anos, varria a calçada e acompanhava a movimentação na rua e a restauração do prédio. Bisneta da fundadora da comunidade, estava feliz com a obra e com o recente tombamento. “A comunidade está sendo representada, está sendo bom, está dando animação no bairro”, disse. “Para minha família vai ser importante”.
Air não conheceu a bisavó, mas sabe da história da fundação transmitida pelos avós e pelos pais. Acredita que o legado, com as mudanças estruturais e o tombamento, será aproveitado pelas futuras gerações. “Já sou tataravó, eles vão ver mais do que eu”.

Tombamento - O edital também apresenta a descrição da poligonal de tombamento, que delimita o perímetro da área abrangida pela medida. O traçado parte do encontro da Rua do Seminário com a Rua Ciro Nantes da Silveira e segue por diferentes vias e pontos de referência da região.
Entre os limites descritos estão trechos próximos à Avenida Prefeito Heráclito Diniz de Figueiredo, Avenida Júlia Maksoud, Rua Canaã e áreas próximas ao Córrego Segredo e ao Córrego Seminário.
Conforme informado no próprio edital, a partir da declaração de tombamento comunicada no documento, a Comunidade Remanescente de Quilombo Eva Maria de Jesus passa a gozar de proteção por meio do Iphan.
O tombamento da comunidade já havia sido anunciado ontem (9) pelo Iphan, conforme noticiado pelo Campo Grande News. Segundo o órgão, o reconhecimento inaugura o Livro do Tombo de Documentos e Sítios Detentores de Reminiscências Históricas de Antigos Quilombos.

A declaração será feita hoje, durante a 112ª Reunião do Conselho Consultivo, no Palácio Gustavo Capanema, no Rio de Janeiro (RJ).
O tombamento decorre de processo de debate entre a área técnica do Iphan e a comunidade iniciado ainda nos primeiros meses de 2024. Considerada uma das mais antigas referências quilombolas urbanas do Brasil, a comunidade foi fundada por Eva Maria de Jesus e se consolidou como um importante marco da resistência negra no estado.
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