Capital faz o mais difícil, mas tem carência no tratamento básico do fígado
Fila para consultas com especialistas chegou a ultrapassar mil pessoas no ano passado
O fígado é o órgão mais maciço do corpo. Diversas funções no organismo podem ficar comprometidas quando ele adoece. Sem imaginar, muitas pessoas podem estar com problemas hepáticos, já que eles só costumam gerar sintomas quando a situação está grave.
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A fila para consultas que investigam doenças relacionadas a esse órgão chegou a ultrapassar mil pessoas e foi reduzida para 68 após um mutirão realizado entre 17 de novembro e 27 de dezembro do ano passado, em Campo Grande. O número atual foi informado pela Sesau (Secretaria Municipal de Saúde).
O atendimento em massa identificou aproximadamente 50 pacientes precisando de transplante, segundo Gustavo Rupassi, médico hepatologista e cirurgião que é responsável pelo único centro que faz esse procedimento em Mato Grosso do Sul. Foi ele próprio quem atendeu voluntariamente os encaminhados para a ação de redução de filas, mesmo sem contrato com a rede pública para esse tipo de serviço.
De Sorocaba (SP) e morando desde 2019 em Campo Grande, ele aponta uma contradição na rede pública da Capital. "Temos um centro de transplantes onde foram gastos milhões de reais, inclusive com recurso de emenda parlamentar, e não temos um centro especializado para consultas simples, exames e outros tipos de cirurgias relacionadas ao fígado", afirma.
O especialista explica que o transplante é o "topo da cadeia alimentar" quando se fala em doenças hepáticas. É a função mais complexa no tratamento.
"Da mesma forma que nós temos um centro de cardiologia e no 'final da linha' se faz uma cirurgia de coração, eu teria um centro de hepatologia que no 'final da linha' faria cirurgia do fígado. Hoje, o que nós temos é o transplante", compara Gustavo.
A soma dos transplantes feitos até agora em Mato Grosso do Sul é de 74 entre 25 de julho de 2024 e 24 de março deste ano. Estimativa da ABTO (Associação Brasileira de Transplante de Órgãos) é que a demanda real seria de 70 por ano no Estado.
Alta demanda e inquérito - Neste mês, o MPMS (Ministério Público Estadual) abriu inquérito civil para apurar a demanda reprimida por consultas em hepatologia na rede pública e acompanhar a organização da linha de cuidado das doenças do fígado no SUS (Sistema Único de Saúde).
O motivo foi aquela demanda, atendida depois na ação filantrópica. "[...] informações iniciais apontaram mais de 900 pacientes aguardando avaliação especializada, situação que evidencia risco de agravamento de quadros crônicos e a necessidade de estruturação de um serviço de referência em hepatologia no município", informou a assessoria de imprensa.
Fígados "perdidos" - Rupassi afirma que, entre agosto e setembro do ano passado, seis fígados saudáveis foram encaminhados para outros estados porque, em diferentes datas, não havia pessoas de Mato Grosso do Sul na fila que pudessem recebê-los de forma prioritária seguindo os critérios de compatibilidade e maior proximidade do local de captação.
Se não houvesse demanda represada até o mutirão, o cirurgião acredita que poderia ter evitado a piora ou até a morte de pacientes. "Eu fico muito chateado de ter certeza que tinham pessoas morrendo por aí e precisando", disse.
Ainda de acordo com o médico, a carência começa pela quantidade de especialistas registrados em Mato Grosso do Sul. Ele acredita serem menos de 10. Em consulta ao portal de buscas do CRM/MS (Conselho Regional de Mato Grosso do Sul) nesta terça-feira (10), a reportagem obteve resultado de oito atuando na hepatologia com registro público.
O que diz a Sesau - O Campo Grande News questionou a assessoria de imprensa da Sesau se avalia a criação do centro especializado e o que tem feito para evitar novas demandas represadas na hepatologia para o básico, que são as consultas.
Em nota, a pasta destacou o mutirão, o serviço de transplante e reconheceu que a fila ultrapassou três dígitos. "Campo Grande avançou de forma significativa na área de hepatologia. Com a estruturação do serviço de transplante de fígado no Hospital Adventista do Pênfigo e a realização de busca ativa para identificar pacientes elegíveis, a fila para o tratamento foi reduzida para 68 pessoas aguardando atendimento, tendo ultrapassado os mil pacientes aguardando pelo procedimento em momentos anteriores", diz trecho.
"Além de ampliar o acesso a consultas especializadas, Campo Grande agora conta com um serviço habilitado pelo Ministério da Saúde para acompanhamento, tratamento e realização de transplantes hepáticos, o que representa um marco para a saúde pública local e para todo o Mato Grosso do Sul. A Prefeitura segue investindo no fortalecimento da rede e na ampliação da assistência, com foco na redução do tempo de espera e na melhoria do atendimento à população", finaliza a nota.
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