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Afinal, o que é esse tal de hiperfoco?

Por Cristiane Lang (*) | 31/08/2025 13:30

Nos últimos anos, o termo hiperfoco ganhou espaço em conversas sobre saúde mental, produtividade e, principalmente, em discussões relacionadas ao Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). Ainda que muitas pessoas nunca tenham ouvido falar dele, a verdade é que esse fenômeno é bastante comum e pode afetar diretamente a forma como uma pessoa estuda, trabalha e se relaciona. Mas, afinal, o que é o hiperfoco e por que ele é tão peculiar?

O que significa hiperfoco?

O hiperfoco é um estado mental caracterizado por uma concentração intensa e sustentada em uma única atividade ou interesse, a ponto de a pessoa perder a noção do tempo e de tudo o que acontece ao redor.

É como se o cérebro entrasse em um “túnel” em que apenas aquilo que está diante de si importa.

Ao contrário da atenção dispersa, no hiperfoco a pessoa não apenas se concentra, mas mergulha profundamente em uma tarefa, muitas vezes demonstrando criatividade, desempenho e produtividade acima da média.

A relação entre hiperfoco e TDAH

O hiperfoco é frequentemente associado ao TDAH. Quem vive com o transtorno, paradoxalmente, não apresenta apenas dificuldades de atenção; muitas vezes também vivencia momentos em que a atenção é tão intensa que se torna quase impossível desviar dela.

Isso acontece porque o cérebro com TDAH processa dopamina de forma diferente. A dopamina é o neurotransmissor responsável pela motivação e pelo prazer. Quando a atividade realizada gera um nível alto de estímulo ou interesse, ela desencadeia uma espécie de “recompensa cerebral”, levando a pessoa a mergulhar completamente naquela tarefa.

Contudo, é importante destacar: hiperfoco não é exclusividade do TDAH. Pessoas sem o transtorno também podem experimentá-lo, principalmente em atividades que despertam grande paixão, curiosidade ou envolvimento emocional.

O lado positivo do hiperfoco

Produtividade elevada: durante o hiperfoco, a pessoa consegue produzir em poucas horas o que talvez demorasse dias em outro estado mental.

Profundidade de conhecimento: muitas pessoas se tornam verdadeiras especialistas em temas que despertam hiperfoco, justamente pelo mergulho constante.

Criatividade e inovação: o estado de imersão pode favorecer conexões originais e soluções criativas para problemas.

Satisfação pessoal: mergulhar em algo que se ama pode gerar uma sensação intensa de realização e prazer.

O lado desafiador do hiperfoco

Se, por um lado, o hiperfoco pode ser uma vantagem, por outro ele traz riscos e prejuízos:

Negligência de outras áreas: ao se dedicar demais a uma única tarefa, a pessoa pode esquecer compromissos, prazos, necessidades básicas como comer ou dormir.

Dificuldade de transição: mudar de uma tarefa em hiperfoco para outra pode ser um enorme desafio, gerando frustração tanto para quem vive isso quanto para quem convive ao redor.

Desequilíbrio na rotina: a vida é composta por múltiplas demandas, mas o hiperfoco pode criar um descompasso entre o que a pessoa quer fazer e o que precisa ser feito.

Impacto nas relações: parceiros, familiares ou colegas podem sentir que estão sendo ignorados ou negligenciados quando a pessoa entra em estado de hiperfoco.

Como lidar com o hiperfoco?

O hiperfoco não precisa ser encarado apenas como um problema. Na verdade, quando compreendido e administrado, pode se transformar em um aliado. Algumas estratégias ajudam:

Uso de alarmes e lembretes: ajudam a “quebrar” o estado de hiperfoco para que a pessoa se lembre de outras atividades importantes.

Planejamento prévio: dividir o dia em blocos de tempo pode reduzir o risco de se perder completamente em uma única tarefa.

Autoconhecimento: identificar os gatilhos que levam ao hiperfoco ajuda a prever quando ele pode acontecer.

Comunicação clara: avisar colegas, familiares ou parceiros sobre esse comportamento pode diminuir conflitos e frustrações.

Apoio profissional: no caso de pessoas com TDAH, acompanhamento psicológico e, em alguns casos, médico é essencial para equilibrar o funcionamento da atenção.

O hiperfoco é vilão ou aliado?

A resposta depende da forma como ele é manejado. Para alguns, o hiperfoco é o que possibilita grandes conquistas acadêmicas, profissionais e artísticas. Para outros, pode ser uma armadilha que gera desorganização, atrasos e conflitos pessoais.

Na prática, ele é uma característica do funcionamento cerebral que merece ser reconhecida, acolhida e trabalhada. Não se trata de algo “bom” ou “ruim” por si só, mas de um fenômeno que pode assumir diferentes papéis dependendo do contexto.

O hiperfoco é mais do que apenas “estar concentrado”. É um mergulho profundo em um universo específico, onde tempo, espaço e obrigações externas parecem desaparecer. Entender esse fenômeno é essencial não apenas para quem o vivencia, mas também para quem convive com pessoas que entram nesse estado.

Quando usado de forma consciente e equilibrada, o hiperfoco pode ser transformado em uma ferramenta poderosa de realização. Mas, sem cuidado, pode se tornar um obstáculo para a vida cotidiana.

Assim, a chave está em reconhecer seus limites e potencialidades, encontrando no hiperfoco não um inimigo, mas um recurso valioso para viver de forma mais plena e produtiva.

(*) Cristiane Lang, psicóloga clínica especializada em oncologia

 

Os artigos publicados com assinatura não traduzem necessariamente a opinião do portal. A publicação tem como propósito estimular o debate e provocar a reflexão sobre os problemas brasileiros.