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Carnaval como gramática histórica da cultura popular

Pertencimento, memória e construção do povo

Por Pedro Machado Mastro (*) | 17/02/2026 13:30

Desde os primórdios da experiência humana, o sentimento de pertencimento não se funda apenas na ocupação física de um território, mas na partilha de sistemas simbólicos que conferem sentido à vida coletiva. A cultura, entendida em sua acepção mais ampla, antecede o Estado, a legislação escrita e mesmo as formas modernas de organização política. É por meio da música, da dança, dos rituais, das formas de alimentação, das crenças e das linguagens do corpo que o indivíduo reconhece a si mesmo como parte de um coletivo. Quando essa trama simbólica se consolida, não há apenas uma população situada em determinado espaço, mas um povo, dotado de memória, identidade e disposição para defender sua maneira de existir.

A distinção entre população e povo é central para compreender o lugar das festas populares na história social. Populações podem ser administradas, deslocadas, persuadidas e absorvidas por narrativas externas com relativa facilidade. Povos, ao contrário, resistem. A resistência não se manifesta apenas no plano bélico ou institucional, mas sobretudo no campo simbólico. Um povo defende sua cultura porque nela reconhece a si mesmo. A cultura, nesse sentido, é elemento de segurança coletiva, fundamento invisível da soberania e da continuidade histórica.

É nesse horizonte que o Carnaval deve ser compreendido. Reduzi-lo à condição de entretenimento ou evento turístico significa ignorar sua densidade antropológica e sua função histórica. O Carnaval é uma gramática social complexa, uma linguagem coletiva por meio da qual grupos historicamente subalternizados produziram memória, visibilidade e reconhecimento fora dos registros oficiais. Ele opera como um sistema simbólico no qual o corpo, o ritmo, a fantasia e a ocupação do espaço urbano se articulam para narrar histórias que, por muito tempo, foram silenciadas.

Ao ocupar a rua, o Carnaval suspende temporariamente as hierarquias ordinárias e reinscreve no espaço público corpos e narrativas que a cidade formal tende a marginalizar. A rua deixa de ser mero espaço de circulação funcional e transforma-se em território simbólico, em palco onde o coletivo se apresenta a si mesmo e aos outros. Essa ocupação não é caótica, mas ritualizada. Há regras implícitas, memórias compartilhadas, repertórios estéticos transmitidos entre gerações. Trata-se de uma pedagogia do pertencimento, aprendida no corpo antes de ser formulada em palavras.

A memória produzida pelo Carnaval não se fixa prioritariamente no arquivo escrito, no monumento ou no documento oficial. Ela se encarna no gesto repetido, no canto que retorna a cada ano, no ritmo reconhecido antes mesmo de ser ouvido conscientemente. É uma memória viva, performativa, que se atualiza no presente sem romper com o passado. Nesse sentido, o Carnaval desafia a primazia dos registros formais como únicos depositários da história e revela a potência das culturas populares como arquivos sensíveis da experiência social.

Ao longo do tempo, o Carnaval constituiu-se como um dos mais eficazes dispositivos de produção do povo no Brasil. Nele se consolidam laços afetivos com o território, narrativas compartilhadas sobre a origem e o destino coletivo, e uma ética implícita de reconhecimento mútuo. Amar a festa é amar a terra onde ela acontece, os corpos que a constroem, os sons que a atravessam. Esse amor não é abstrato, mas vivido, incorporado, transmitido. É ele que transforma a permanência em enraizamento e a coexistência em comunidade.

Em um mundo marcado por disputas simbólicas cada vez mais intensas e pela atuação sofisticada de mecanismos de influência cultural transnacional, festas populares como o Carnaval revelam-se não como resquícios do passado, mas como tecnologias sociais de altíssima atualidade. Elas fortalecem identidades, produzem coesão e criam anticorpos simbólicos contra a homogeneização cultural. Onde há Carnaval, há povo em formação contínua, afirmando sua presença no tempo e no espaço.

Pensar o Carnaval como gramática histórica da cultura popular é, portanto, reconhecer sua centralidade na construção da memória social, na produção de regimes de visibilidade e na inscrição duradoura do coletivo no espaço urbano. Mais do que festa, ele é linguagem. Mais do que espetáculo, é estrutura de pertencimento. Mais do que celebração episódica, é uma das formas mais sofisticadas pelas quais um povo se reconhece, se narra e se projeta no futuro.

O Carnaval é, em última instância, a demonstração mais acabada de uma força civilizatória singular, forjada por um povo que habita um espaço continental e aprendeu a transformar a diversidade em linguagem comum. É na avenida que o Brasil condensa sua energia vital, reúne alegria suficiente para atravessar um ano inteiro de vicissitudes, desigualdades e dores, e constrói uma memória emocional capaz de sustentar a travessia do cotidiano. A avenida torna-se síntese do nosso poder civilizatório porque nela não importa a origem, seja europeia, oriental ou de matriz africana, não importam as crenças, os credos ou as diferenças, pois ali todos são brasileiros, dissolvidos numa comunhão estética e afetiva que celebra a convivência, a harmonia e o reconhecimento mútuo. Nesse espaço ritualizado, a alegria não é fuga, mas afirmação, não é esquecimento, mas resistência, e a exuberância do encontro revela uma ética profunda da tolerância e do amor. Por isso o Carnaval ultrapassa qualquer definição turística ou econômica e se afirma como uma das mais altas expressões da civilização brasileira, um espetáculo não apenas do mundo, mas do humano em sua capacidade radical de conviver, criar e perseverar.

Segundo a ensaísta Ana Maria Bernardelli, numa leitura do texto de Pedro Mastrobuono, o Carnaval emerge como linguagem civilizatória e não como espetáculo passageiro. Palavra e imagem se encontram para revelar a festa como sistema simbólico de longa duração – um arquivo vivo no qual o povo se reconhece, resiste e se reinscreve no espaço urbano. O texto de Mastrobuono, restitui densidade conceitual a esse gesto coletivo, mostrando que a alegria carnavalesca não é evasão, mas memória incorporada; não é excesso, mas ética do convívio. Assim, afirma-se uma compreensão do Brasil em que o Carnaval funciona como gramática do pertencimento, e a imagem, como testemunho sensível de uma nação que aprendeu a existir fazendo da diversidade uma forma comum de civilização.

(*) Pedro Machado Mastro é presidente da Fundação Memorial da América Latina, pós-doutor em Antropologia Social. 

 

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