Informação em saúde: entre quantidade, qualidade, acesso e vínculo
Durante décadas, o ecossistema informacional consolidou a crença de que a expansão contínua de informações técnicas e conteúdos especializados sobre saúde seria suficiente para transformar realidades sociais. Acreditava-se que, quanto mais informação estivesse disponível e acessível, mais próxima estaria a população de compreender riscos, adotar medidas de proteção e tomar decisões alinhadas ao que a ciência considerava adequado.
Os últimos anos, porém, revelaram que mesmo quando a informação é abundante, acessível e tecnicamente qualificada, ela não necessariamente se converte em compreensão, confiança ou mudança comportamental. Assim, a experiência recente mostrou que a informação em saúde, por mais precisa ou atualizada que seja, não opera sozinha. Ela depende de contextos, trajetórias culturais, modos de vida e vínculos humanos que moldam a forma como cada comunidade atribui sentido ao conteúdo informacional que recebe. Essa dinâmica pode ser reconhecida em diferentes situações que impactam os sistemas de saúde.
Durante a pandemia de covid-19, houve uma expansão massiva da circulação de informações em saúde. O ecossistema informacional operou sob a suposição de que a qualidade técnica seria suficiente para gerar uniformidade interpretativa, acreditando que a consistência técnica dos conteúdos informacionais seria suficiente para produzir convergência e adesão social.
Essa suposição desconsiderou que cada comunidade lê o mundo a partir de repertórios simbólicos e históricos próprios. Assim, a heterogeneidade de respostas sociais não expõe falhas de compreensão coletiva, mas sim a distância estrutural entre o modo como a informação é produzida e o modo como ela é apropriada nos diferentes territórios, atravessados por memórias, vínculos, desigualdades e modos de existir que moldam o sentido do risco.
Esse fenômeno torna-se visível também nos debates da crise climática. Em regiões afetadas por enchentes, secas e ondas de calor, a circulação de informações técnicas sobre perigo não é suficiente para orientar decisões ou produzir mudanças comportamentais. Comunidades inteiras permanecem em áreas de risco não por desconhecimento, mas porque possuem outros tipos de conexões com seu território.
A comunicação oficial, com seus dados objetivos, aponta perigo; mas as comunidades se estruturam no pertencimento e na permanência social, que operam como lentes interpretativas historicamente construídas. Isso mostra que produzir e comunicar conteúdos informacionais sobre riscos climáticos exige compreender a lógica simbólica e territorial que sustenta decisões coletivas.
Portanto, a questão não depende apenas da quantidade, da qualidade ou do acesso à informação técnica e científica divulgada, mas da capacidade de dialogar com a leitura da comunidade sobre o mundo e de articular conhecimento dito científico com o conhecimento social organizado por gerações.
O problema se repete em outros domínios onde dados abundam, mas vínculos escasseiam. A transformação digital dos sistemas de saúde reforça a mesma lição. Muitos gestores da saúde estão entusiasmados com a expansão de plataformas tecnológicas, com algoritmos capazes de apoiar decisões clínicas e com prontuários eletrônicos que ampliam a disponibilidade de dados para o sistema de saúde.
Todavia, esquecem algo crucial: grande parte da população e dos profissionais de saúde não se reconhece nessas ferramentas. Para muitos, especialmente idosos, pessoas com baixa literacia digital de diferentes idades e classes sociais ou com conectividade limitada, a tecnologia representa mais uma camada de distância institucional, comunicacional e emocional.
O acesso a um aplicativo não significa acolhimento, cuidado ou compreensão da mensagem. Assim, a digitalização amplia a disponibilização de dados e informações, mas não resolve aquilo que mais importa para as populações vulneráveis, que é a saúde baseada no vínculo. É nesse ponto que a literacia em saúde baseada no vínculo oferece uma chave conceitual e prática para repensar a circulação da informação.
A literatura tradicional tende a definir literacia em saúde como um conjunto de habilidades individuais: buscar informação em saúde, ler, entender, decidir. No entanto, a pandemia, a crise climática e a transformação digital mostram que decisões em saúde não são individuais, mas profundamente afetadas por relações, contextos, histórias e pertencimentos.
A literacia em saúde baseada no vínculo parte dessa constatação. Ela propõe que a informação em saúde só se torna conhecimento quando encontra a vida interior das pessoas: seus repertórios afetivos e culturais, suas narrativas, seus vínculos sociais e a forma como se situam no mundo. Disponibilizar e disseminar informação em saúde não é suficiente. É preciso criar condições para que ela seja apropriada cognitivamente.
Ao reconhecer que a compreensão e a aceitação da informação dependem de vínculos sociais, essa abordagem permite explicar por que populações vulneráveis, idosos, moradores de periferias urbanas ou comunidades tradicionais respondem de maneira distinta aos mesmos conteúdos informacionais.
O vínculo funciona como a ponte que falta entre a disponibilização de informações e a apropriação cognitiva. Sem essa ponte, mesmo a comunicação científica tecnicamente impecável se perde no caminho. Com ela, a informação ganha densidade e torna-se capaz de orientar práticas de saúde mais justas, contextualizadas e efetivas.
Essa análise de uso da informação em saúde reforça a importância da cooperação nacional e internacional. Pesquisadores de diferentes regiões podem contribuir para ampliar o entendimento sobre como populações diversas se apropriam de informações em saúde em seus territórios.
Quando perspectivas epidemiológicas, antropológicas, tecnológicas, linguísticas, comunicacionais e sociológicas são colocadas em diálogo, emergem leituras que nenhum campo produziria isoladamente.
O diálogo interdisciplinar poderá esclarecer, assim, os elementos em jogo na transposição da informação em conhecimento e prática comportamental, bem como verificar que a informação em saúde não fracassa por falta de quantidade, qualidade ou disponibilidade, mas por falta de vínculo com pessoas reais, em seus territórios, crenças e leituras de mundo.
(*) Maria Cristiane Barbosa Galvão, professora da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP.
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