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Com educação, mulheres superam abandono e preconceito e buscam nova vida

Curso de assistente administrativo de programa federal já formou mais de 650 alunas em Campo Grande

Por Ketlen Gomes | 28/08/2025 17:45
Com educação, mulheres superam abandono e preconceito e buscam nova vida
Aula do curso de Auxiliar Administrativo sobre direitos previstos na Constituição Federal. (Foto: Paulo Francis)

Na região do Segredo, no Bairro Estrela Dalva, dezenas de mulheres acompanham atentas uma aula sobre direitos previstos na Constituição Federal. Elas integram a 10ª turma do curso de Assistente Administrativo, oferecido pelo programa Mulheres Mil, fruto de parceria entre a Prefeitura de Campo Grande, por meio da Funsat (Fundação Social do Trabalho), e o governo federal, por meio do MEC (Ministério da Educação) e do MTE (Ministério do Trabalho e Emprego).

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O programa Mulheres Mil, parceria entre a Prefeitura de Campo Grande e o governo federal, tem transformado a vida de dezenas de mulheres através da educação. Com 75 alunas matriculadas atualmente, o projeto já formou 655 pessoas em nove turmas, oferecendo disciplinas como empreendedorismo, direito e marketing digital.Entre as participantes, histórias de superação se destacam. Josiane Rodrigues, 45 anos, busca empreender após ser abandonada pelo marido; Jessica Charupa, 28 anos, almeja formação em pedagogia para trabalhar com crianças autistas; e Marilete Delgado, 56 anos, encontrou no programa conhecimento sobre seus direitos trabalhistas após anos de discriminação.

Ao todo, 75 mulheres de diferentes idades estão matriculadas e têm aulas de empreendedorismo, direito e até marketing digital, entre as 18 disciplinas ministradas no curso. Desde o fim de 2023, quando o projeto foi implementado nas Moreninhas como uma ação temporária, já foram formadas nove turmas, totalizando 655 concluintes. A procura crescente levou à prorrogação da iniciativa.

Entre as alunas está Josiane Rodrigues da Silva, 45 anos, manicure, que sonha em empreender após concluir o curso. A decisão representa uma guinada em sua vida. Após 16 anos de casamento, ela foi abandonada pelo ex-marido, ficando sozinha com os dois filhos.

“Eu parei de estudar no terceiro ano do ensino médio para cuidar dos meus filhos. Vim de uma família humilde, morei em Rio Verde e cheguei a Campo Grande com 17 anos. Conquistei minha casa, mas quando ele foi embora me vi em um túnel. Só que lá embaixo tinha uma mola que me jogou para cima”, desabafa.

Com educação, mulheres superam abandono e preconceito e buscam nova vida
Josiane enfrentou uma infância difícil e um abandono matrimonial, e quer empreender no futuro. (Foto: Paulo Francis)

Para manter a família, Josiane trabalhou como doméstica e diarista até fazer curso de manicure e atender em casa, ficando próxima dos filhos. Ela lembra que, após o abandono, as crianças precisaram de acompanhamento psicológico e ela mesma enfrentou traumas antigos.

A infância foi marcada por dor: aos dois anos perdeu a mãe e, em seguida, sofreu abusos de quem considerava pai. Aos sete, conseguiu reagir e contar para familiares. “Fiquei jogada na casa da minha irmã, na casa do meu irmão. Pra mim não era bom, eu me sentia muito mal. Tentei denunciar, mas o meu irmão não deixou, falou que ele ia morrer se ele fosse preso. Esse trauma ficou, porque eu passei isso para os meus filhos, eu tinha medo. Até hoje eu fico preocupada com a minha filha”, conta.

Mesmo com tantas marcas, ela afirma que agora enxerga novas perspectivas. “Esse curso está sendo muito importante porque me ajuda na vida pessoal, mental e profissional. Quero abrir um negócio e trabalhar com meus filhos. Esse é o meu sonho.”

Aos 28 anos, Jessica Charupa também vê no curso uma oportunidade de mudança. Dona de casa e mãe de três filhos, ela quer voltar ao mercado de trabalho e se formar em pedagogia para atuar com crianças com TEA (Transtorno do Espectro Autista).

Ela lembra que o filho mais velho foi diagnosticado com autismo aos quatro anos, após uma médica afirmar que ele era “muito hiperativo” e “não teria futuro”. “Fui pesquisando, vendo que mesmo com todas as limitações e dificuldades que ele tem, ele vai ter um futuro, porque aí a gente começa a pesquisar sobre o autismo, sobre as coisas que ele precisa, do acompanhamento multidisciplinar que ele ainda não tem e está na fila do SUS”, diz emocionada.

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Jessica se emociona ao falar sobre seu filho autista e o amor que sente por ele. (Foto: Paulo Francis)

Apesar das dificuldades para estudar e trabalhar, Jessica conta com o apoio do marido e da mãe e vê no curso uma oportunidade de mudar de vida.

Direitos e dignidade - Outra participante, Marilete de Moraes Delgado, 56 anos, também encontrou no programa um espaço de aprendizado. Aos 36, foi abandonada pelo marido após 12 anos de casamento e precisou criar os três filhos sozinha.

“Minhas duas filhas tinham seis anos e o maior tinha sete. Eu tive que confiar no meu mais velho, levantava às 5h todos os dias, lavava, limpava a casa e deixava o almoço. Aí eu ia para o serviço, mas quando eu chegava em casa, estava bagunçado, né?”, lembra.

Empregada doméstica durante anos, ela só agora reconhece os direitos que tinha. “Minha patroa me humilhava, falava da minha cor, do meu corpo, que eu só servia para limpeza. Chegou a levantar a roupa dela e falar que era magra e eu não. No momento eu não fiz nada porque a gente não tem conhecimento de leis, como fazer e a quem recorrer, então eu deixei e aguentei por três anos”, conta.

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Com o curso, Marilete reconheceu seus direitos trabalhistas e sabe a quem recorrer. (Foto: Paulo Francis)

Mesmo com dificuldades em lidar com internet e tecnologia, Marilete garante que vai persistir. “Aqui estou aprendendo muito, inclusive sobre leis. Estou me sacrificando para acompanhar e vou conseguir”, reforça.

Impacto - A diretora da escola da Funsat, Elaine Dias, de 39 anos, disse que há muitas histórias como as de Josiane, Jessica e Marilete, e que durante o curso é possível ver a diferença que a educação traz para a vida das alunas.

“A gente consegue ver como o brilho delas está mais diferente, o empoderamento, elas conseguem se enxergar de uma maneira muito melhor, se sentir com potencial além daquilo que elas imaginavam que conseguiam. Eleva o nível de escolaridade e de autonomia de cada uma delas”, complementa.

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