Entre samba e futebol, Estrela do Sul deixou de ser "ilha" e ganhou identidade
Projetos comunitários ajudaram moradores a fortalecer laços no bairro
Entre samba e futebol, o Estrela do Sul deixou de ser “ilha” e se tornou um dos bairros com mais brasilidade de Campo Grande. As atividades realizadas no bairro serviram para unir os moradores, que tinham dificuldade de ir a eventos em outras regiões.
RESUMO
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O bairro Estrela do Sul, em Campo Grande, transformou-se de uma região isolada em um local com forte identidade cultural, marcada principalmente pelo samba e futebol. O desenvolvimento começou em 1981, quando foi construído um campo de futebol que se tornou referência na região, hoje conhecido como estádio Ramão Pereira. A instalação da escola de samba Cruzeiro e a criação de espaços comunitários contribuíram para unir os moradores. O bairro, que inicialmente tinha apenas uma via de acesso, hoje conta com comércio diversificado na Rua das Balsas e mantém características peculiares, como os calçadões entre as casas, preservando sua tranquilidade mesmo com o crescimento.
Atualmente, Ramão Pereira, de 63 anos, é presidente do bairro, mas quando se mudou para o Estrela do Sul, em 1981, era jogador profissional. Ele relembra que chorou ao trocar o Centro de Campo Grande pelo bairro recém-fundado. “Era muito feio, era um barro. Hoje é uma maravilha isso aqui. A pessoa que não conhece vai reclamar, mas quem viveu naquela época aqui não pode reclamar muito não”, conta.
Logo no primeiro ano no bairro, o pai de Ramão iniciou o primeiro projeto que se tornaria referência na região e uniria os moradores do local: a construção do campo de futebol que hoje leva seu nome.
“Isso aqui, quando começou, era um colonião. Então, meu pai pegou uma enxadinha, fizemos um campinho de terra pequenininho, botando duas traves de pau. Na época, o prefeito era Lúdio Coelho, meteu um terrão aqui, fez igual o talismã, meteu essa bancadinha e deixou o terrão. E o resto, isso aqui, é a população quem fez”, comenta.
O estádio faz parte da praça do bairro. Além do campo, que recebe competições de base, o espaço também conta com atividades culturais, como saraus, pilates, judô, aulas de dança, entre outros. “Aqui não tem motivo para ficar parado, só depende da pessoa. Tem coisas para você fazer, só tem que querer.”
Outra atividade que envolve a região é o samba. O bairro é a casa da escola de samba do Cruzeiro. Hoje, seus criadores, João Renato Pereira Guedes, o Picolé, e Aparecida Gomes da Silva, já faleceram, mas o legado segue sendo levado pelo filho, Alex Guedes, de 60 anos.
Picolé chegou a ser presidente do bairro, assim como a esposa, Cida. “Eu vi desenvolver tudo, crescer e acompanhar as enchentes, que aqui tinha muitas enchentes, e promovemos muitos eventos. Fora que nós trouxemos uma escola pra cá, ela se fixou aqui e leva o nome do Estrela do Sul”, relembra Alex.
Apesar de representar o bairro, a escola não tem o nome da região. Segundo Alex, isso aconteceu porque a escola de samba foi criada um ano antes da fundação do Estrela do Sul. “Ela foi fundada na região do bairro dos Cruzeiros, na região do Coronel Antonino e Eldorado Imperial. Aqui ainda não era urbanizado, por isso levou esse nome”, explica.
A história da agremiação foi marcada pela resistência nos primeiros anos no bairro. No entanto, Alex relata que hoje o cenário mudou e os moradores da região são voluntários da escola, ajudando na confecção dos figurinos.
Curiosidades — Quem visita o Estrela do Sul logo se depara com uma peculiaridade que pouco se repete em outros bairros: os espaços entre as casas, chamados de calçadões pelos moradores.
“A gente chama de calçadão porque é muito estreito e o declínio dele é muito grande. Antigamente era por ali que a gente circulava. Era uma época em que nem todo mundo tinha carro, então de manhã a gente encontrava todo mundo ali, circulando para pegar o ônibus”, compara Alex.

Hoje, a circulação diminuiu e, segundo ele, os calçadões acabam sendo alvo de descarte irregular de lixo. Ainda assim, guarda na memória a época em que o local era o “ponto de encontro do bom dia”.
“Ali que era o bom dia de manhã, que você via todo mundo. Hoje já nem tanto, o progresso também acaba com o encontro de famílias, de pessoas, de amizade. A gente fazia amizade em ônibus e hoje já não mais, não existe mais isso”, lamenta.
Outra curiosidade lembrada por Alex é a vegetação que cercava o bairro. Segundo ele, todo o Estrela do Sul era rodeado por chácaras e possuía apenas uma entrada, que também era a única saída.
“A gente era ilhados, tinha uma entrada e uma saída. Era uma entrada para entrar e ficar. Nós começamos a organizar futebol, porque a gente não conseguia sair daqui para alguma atividade, então ficamos aqui”, contou.
O primeiro Centro Comunitário da região também tem história. Entre risadas, Alex conta que o local foi construído inicialmente com lona. “Era de lona preta porque o presidente do bairro na época ganhou uma madeira e fez o Centro Comunitário de lona. Ali tinha discoteca. A gente falava assim: ‘você vai na lona preta?’” relembra.
Uma segunda doação de madeira foi suficiente para transformar o espaço em um barracão. “Lá no passado, a gente ficou muito aqui dentro. Nós nos ilhamos aqui dentro, mas não era porque queríamos, era porque era difícil ir para outros bairros.”
"Continua pacato" — Com o passar dos anos, o Estrela do Sul cresceu e as casas perfeitamente enfileiradas já não são mais como no ano em que foram entregues. Além das opções de lazer, o bairro passou a contar com comércio próprio, incluindo supermercado e lojas de roupas e artigos variados.
A Rua das Balsas concentra os empreendimentos. Lucimara Vera de Oliveira, de 44 anos, é uma das profissionais que escolheram o Estrela do Sul para trabalhar. A designer de sobrancelhas não mora na região, mas acompanhou o desenvolvimento do bairro e do comércio.
“Eu moro no Veraneio, mas minha prima mora aqui. Meus clientes são muitos daqui e eu sempre estou por aqui. Por ter um supermercado, acaba atraindo gente de vários bairros. A lotérica também ajuda a aumentar o movimento”, conta.
Josué Coutinho, de 50 anos, mora no Coronel Antonino, mas ao menos uma vez por mês faz compras no Estrela do Sul. Apesar de dizer que não conhece bem o bairro, ele afirma já ter tido contato com a escola de samba e o estádio da região. “A escola ensaiava perto da minha casa. Eu não acompanhava, mas via que reunia muita gente.”
Quem vive no Estrela do Sul destaca que, mesmo com o crescimento, a calmaria predomina. “Aqui é um bairro completo, cresceu muito, mas ainda continua tranquilo. Moro há tanto tempo e nunca invadiram minha casa, não vejo ninguém falando que foi roubado também”, afirma Irene Maciel, de 65 anos.
Maria de Lourdes, de 67 anos, também defende a tranquilidade da região. “Aqui todo mundo se conhece, tem poucos moradores novos. Antigamente era pequeno, hoje cresceu bastante, mas ainda continua calmo.”
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