Rede de proteção é falha, mas crianças correm risco até dentro de casa
67,8% das violências contra infantes de zero a quatro anos ocorrem dentro das quatro paredes do lar

O lar, que deveria ser o espaço mais seguro para uma criança, é também o principal cenário de violência. Dados do Atlas da Violência 2025 apontam que 67,8% das agressões contra crianças de zero a quatro anos acontecem dentro de casa. Entre cinco e 14 anos, o índice chega a 65,9%.
RESUMO
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A violência contra crianças no ambiente doméstico é uma realidade alarmante no Brasil. Segundo o Atlas da Violência 2025, mais de 65% das agressões contra menores de 14 anos ocorrem dentro de casa. Em Mato Grosso do Sul, casos recentes como os de Sophia Ocampo, Sophie Eugênia e Emanuelly Victoria evidenciam a gravidade do problema. Especialistas alertam para falhas sistemáticas na rede de proteção e destacam a importância da vigilância constante dos responsáveis. O projeto Nova Transforma, que oferece atendimento psicossocial, revela que muitas denúncias deixam de ser feitas por minimização do abuso ou medo de desestruturar famílias, contribuindo para a perpetuação da violência.
A psicanalista Viviane Vaz, coordenadora do projeto Nova Transforma, que atua no enfrentamento à violência e à exploração sexual de crianças e mulheres, sustenta que “não, as crianças não estão seguras nem em casa, não dá pra confiar em ninguém”. Se de um lado isso parece ofensivo, do outro, há os fatos.
A violência contra a pequena Sophia Ocampo, morta em janeiro de 2023 depois de agressões frequentes e até abuso sexual, começou dentro de casa. Condenados, o padrasto Christian Campoçano e a mãe, Stephanie de Jesus tentaram se defender e estão presos desde o dia da morte.
A menina foi levada inúmeras vezes para atendimento em postos de saúde, havia denúncias no Conselho Tutelar e até procedimento aberto no Ministério Público de Mato Grosso do Sul, tudo antes da morte, mesmo assim, ela foi assassinada.
Em maio deste ano, Sophie Eugênia Borges Medeiros, com apenas 10 meses, foi assassinada junto com a mãe, Vanessa Eugênia Medeiros, pelo próprio pai, João Augusto Borges de Almeida. Ele colocou fogo nos corpos e depois foi trabalhar normalmente. Não havia denúncias contra o pai até o dia da morte.
No caso mais recente e não menos chocante, uma menina de apenas seis anos estava em casa quando foi levada de lá para “passear” pelo seu assassino, Marcos Willian Teixeira Timóteo, que era amigo da família. Ela foi estuprada e morta na casa dele, na Vila Carvalho. O Conselho Tutelar acompanhava o caso como “vulnerabilidade social”.
“Ele era conhecido da família, devia estar sempre por lá, e como é que funciona isso na cabeça da criança? — Ah, se meu pai conversa com ele, está tudo bem! — ou se a pessoa fala que vai me levar para passear, ou para ver a avó, a criança acredita porque é ingênua, vulnerável”, destaca a psicanalista.
Para ela, não há apenas um culpado, mas sim as estruturas públicas que falham sistematicamente. Entretanto, ela não é a única vilã.
“É fácil julgar, fácil apontar o dedo para a família, para o Conselho Tutelar. Mas e para nós enquanto sociedade?”, questiona, ressaltando que na maioria das vezes, o discurso só aumenta as situações de violência e de ódio. “As pessoas querem combater o crime com vingança, ou seja, mais violência. A sociedade não entende seu papel de proteção”, avalia.
Pais e responsáveis - A especialista afirma que os pais e responsáveis precisam ser mais desconfiados e estarem a todo tempo alerta. “Ele (Marcos Wilian) certamente já estava rondando a criança, percebia a fragilidade da família, eles analisam para perceber se vão conseguir abusar. Percebem se uma criança que fica mais solta, livre na rua, se fala com qualquer um. São um prato cheio pro abusador”.
O projeto Nova Transforma atende crianças, adolescentes e mulheres encaminhadas pela Defensoria Pública, Ministério Público e Tribunal de Justiça, oferecendo serviço psicossocial. Nesses atendimentos, segundo Viviane, há muitos relatos de quem deixou de denunciar um caso de abuso porque “foi só uma vez, porque não tinha provas, porque vai desestruturar a família, porque não vai dar em nada, porque foi só uma cantada ou porque só passou a mão nas partes íntimas”.
A especialista alerta que se uma pessoa demonstra sinais de abuso dentro de casa ou fora dela, é preciso ser firme e denunciar a primeira vez, impondo limites.
“Quem não se posiciona, favorece o crime”, afirma ao ressaltar que estupro não é apenas a conjunção carnal. “Eu recebo muitos casos aqui de adolescentes que já chegam com ideação suicida porque a família desacredita os abusos, questiona se não foi a criança ou adolescente que provocou o abusador”, revela.
Dados - O Atlas da Violência 2025 traz dados de 2013 a 2023 e é elaborado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública e pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada). Os números revelam que o segundo espaço onde crianças e adolescentes mais sofrem violência é dentro da escola ou em via pública.
Pelos dados, 42 crianças de zero a quatro anos de idade em Mato Grosso do Sul foram vítimas de homicídio entre 2013 e 2023, sendo quatro no último ano da análise e 74 entre cinco e 14 anos. As três principais formas de assassinato de crianças e adolescentes são por arma de fogo, por objetos perfurantes, como facas, e por instrumento contundente, ou seja, socos, pedras e martelos, por exemplo.