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Em Pauta

Bombas do Irã em países muçulmanos, uma guerra de 1.400 anos

Por Mário Sérgio Lorenzetto | 20/03/2026 07:05
Bombas do Irã em países muçulmanos, uma guerra de 1.400 anos

Há muita gente surpresa com as bombas que o Irã joga nos países muçulmanos vizinhos. Há necessidade de conhecer a história para entendê-las. Tudo começou quando Maomé faleceu sem deixar um mísero pedaço de papel que dissesse quem deveria assumir o comando do islamismo. Não deixou testamento. Não havia um sucessor que unificasse as várias correntes. Como todas as demais religiões, partiu pela metade. Isso ocorreu em Medina, cidade da Arábia Saudita, no ano 632 d.C.. O vazio de poder é a razão que levou, hoje, catorze séculos depois, que o mundo islâmico continue sendo um campo minado. A peleja foi uma disputa sucessória que nunca finda.


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O melhor ou o parente?

Por um lado, estavam aqueles que defendiam que o novo chefe deveria ser o melhor, o mais capaz e que fosse escolhido pela comunidade. Esses foram chamados “sunitas”. Do outro lado, havia os que asseguravam que o poder teria de permanecer naquele que tinha ligação familiar com o Profeta, encarnado em seu genro Ali. Foram denominados “xiitas”. Ganharam os sunitas.


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Ali foi assassinado.

Ali foi assassinado e seu filho Hussein morreu em Kerbala, cidade iraquiana, em 680. Ocorreu uma batalha inimaginável. Quatro mil sunitas contra tão somente 70 fiéis xiitas. Obviamente, foram aniquilados. Foi assim que nasceu o DNA emocional do xiismo. A ideia de uma vertente religiosa oprimida, mas que sempre resiste. Não adianta ter um gigante tentado destroçá-los. Para os xiitas, Kerbala não é um lugar histórico, é uma ferida que continua aberta. Esse é um conhecimento que falta para quem lhes move guerra. Ainda que destroçados, sempre seguem adiante.


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Uma minoria que não confia em ninguém.

Durante séculos, o mundo islâmico foi dominado pelos sunitas. Estenderam sua religião desde a Espanha até as portas da China, na Ásia e da Áustria, na Europa. Um gigantesco império. Os xiitas viveram modestamente. Relegados a poucas montanhas, oásis e zonas pouco estratégicas. Uma diminuta minoria. Não confiam em ninguém e suspeitam de todo mundo. Ainda assim sobreviveram. O cisma permaneceu latente.


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Um terremoto: o Irã virou xiita.

No século XVI, ocorreu um terremoto geopolítico. A Pérsia, que hoje chamamos Irã, que era quase toda sunita, passou a ser governada pelo Xá Ismael. Esse governante decidiu transformar o Irã em xiita. Virou religião de Estado a golpe de decreto e espada. Foi uma estratégia política para unificar o país que enfrentava um vizinho colossal. Os otomanos da Turquia, sunitas, dominavam o Oriente Médio.


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O Muro de Berlim do Islamismo.

A partir de então, a fronteira entre o Irã e o mundo otomano se converteu no Muro de Berlim do Islã. As duas potências se enfrentaram durante dois séculos em guerras que os esgotaram. Mas deixaram uma lição para Trump e suas bombas: quando religião e identidade nacional se fundem, um país é indestrutível, ainda que arrasado.

 

Os artigos publicados com assinatura não traduzem necessariamente a opinião do portal. A publicação tem como propósito estimular o debate e provocar a reflexão sobre os problemas brasileiros.