Sharenting: quando pais expõem filhos online
O avanço das redes sociais transformou profundamente as formas de comunicação, de construção da identidade e de exposição da vida privada. Nesse contexto, emerge o fenômeno do sharenting é termo que resulta da junção das palavras inglesas share (compartilhar) e parenting (parentalidade) e que se refere à prática de pais ou responsáveis publicarem imagens, vídeos e informações de seus filhos pequenos nas redes sociais. Foi através do ator Gregório Duvivier, em seu podcast, que esse termo ficou mais conhecido, pois foi indagado por uma psicóloga que o mesmo fazia isso com suas filhas e isso o levou a pensar e refletir sobre a exposição infantil, ora motivada por algo engraçado ou até mesmo teatral. Embora muitas vezes motivado por afeto, orgulho ou desejo de registro, o sharenting levanta importantes debates sobre seus impactos sociais, éticos e educacionais.
Em primeiro lugar, é necessário reconhecer que o sharenting altera a noção tradicional de privacidade infantil, crianças passam a ter sua imagem e parte de sua história de vida expostas antes mesmo de desenvolverem consciência ou autonomia para consentir. Essa superexposição pode gerar consequências futuras, como constrangimentos, estigmatização, uso indevido de dados e até riscos à segurança. Assim, uma prática aparentemente inofensiva insere a criança em uma sociedade hiperconectada que nem sempre respeita limites éticos ou legais.
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Além disso, o sharenting contribui para a construção de uma infância performática, na qual momentos íntimos como birras, dificuldades escolares ou questões de saúde tornam-se conteúdo público. Tal dinâmica pode reforçar padrões irreais de parentalidade, estimulando comparações, culpabilização e uma lógica de validação social baseada em curtidas e comentários. Dessa forma, a relação entre pais e filhos corre o risco de ser mediada pelo olhar do outro, e não pelas reais necessidades da criança.
Esse fenômeno também provoca novas reflexões sobre educação e cidadania digital, quando se evidencia os limites entre o público e o privado, o sharenting impulsiona debates sobre direitos da criança, uso consciente da tecnologia e responsabilidade dos adultos no ambiente virtual. Nesse sentido, surgem novas perspectivas educacionais que defendem a formação digital não apenas das crianças, mas também dos pais, incentivando práticas mais éticas, reflexivas e respeitosas quanto à exposição infantil.
Esse termo "novo” torna evidente que o sharenting é um fenômeno ambivalente: ao mesmo tempo em que fortalece vínculos sociais e possibilita trocas de experiências parentais, também pode comprometer o desenvolvimento psíquico e social da criança. Pois esse tipo de discussão tem diversas camadas que também podem ser exploradas, como a exposição de fotos e vídeos de crianças a abusadores e pessoas que através da tecnologia transformam a foto do rosto da criança e colocam em imagem adultas vulgares, sensualizando a criança. Cabe, portanto, à sociedade, às instituições educacionais e às famílias promover uma cultura de maior responsabilidade digital, na qual o direito à imagem, à privacidade e ao futuro das crianças seja priorizado, importante sempre pensar se o que for postar é engraçado apenas para você, se deixa a criança exposta, a auto responsabilização deve ocorrer de forma consciente, portanto, a educação contemporânea deve incluir não apenas conteúdos formais, mas também valores relacionados ao cuidado, ao respeito e à ética no uso das tecnologias.
(*) Lia Rodrigues Alcaraz é psicóloga formada pela UCDB (2011), especialista em orientação analítica (2015) e neuropsicóloga em formação (2024). Trabalha como psicóloga clínica na Cassems e em consultório.

