Acervo de 4 mil itens sobre folclore de MS não tem lugar para ficar
Há 22 anos, amigas lutam para manter essas histórias vivas no Estado
Há 22 anos, amigos tentam manter viva a cultura folclórica no Estado, mas, a cada ano que passa, há uma decepção diferente e promessas que nunca levam a lugar nenhum. Três das 13 pessoas que compõem o grupo receberam o Lado B para contar por que a luta já dura tanto tempo, sem esperança de que ao menos os 4 mil itens de pesquisa, entre roupas, músicas e livros, tenham um lugar para guardar as histórias para as futuras gerações.
RESUMO
Nossa ferramenta de IA resume a notícia para você!
Um grupo de professoras luta há 22 anos para preservar a cultura folclórica de Mato Grosso do Sul. Com mais de 4 mil itens catalogados, incluindo roupas, músicas e livros, a Comissão Sul-Mato-Grossense de Folclore enfrenta dificuldades por falta de espaço físico e apoio governamental. O acervo inclui 38 danças tradicionais catalogadas por regiões, como o siriri no Pantanal e a folca na fronteira. O trabalho, iniciado pela professora Marlei Sigrist nos anos 2000, é mantido hoje por 13 pessoas que, além de preservar, levam as manifestações culturais para escolas do estado através do Grupo Camalote.
Quem conta parte de tudo são as professoras Cristiane Aparecida de Luca Lima, Maria Ivonete Simocelli e Lucy Carlos de Andrade. Sem espaço físico, sem apoio contínuo e com custos saindo do próprio bolso, elas seguem fazendo o trabalho que deveria ser compartilhado.
A Comissão Sul-Mato-Grossense de Folclore existe oficialmente desde 2009, mas a história começou bem antes, ainda no início dos anos 2000. Tudo nasce a partir da pesquisa da professora Marlei Sigrist e do trabalho de Júlio Feliz. Não é exagero dizer que o que hoje se conhece sobre o folclore sul-mato-grossense passou, em grande parte, pelas mãos dela. O livro “Chão Batido”, produzido por Marlei, virou referência e é considerado como uma bíblia folclórica.

“O livro da Marlei é como uma bíblia folclórica para a gente. As danças são divididas em três categorias: danças da região do bolsão, que compreende Três Lagoas e Camapuã. Ali temos o Catira, Engenho de Maromba e Engenho Novo. Engenho de Maromba é uma dança que retrata o engenho da cana, os versos da música são versos que essas pessoas, enquanto estavam na lida, cantavam”, ressalta Cristiane, professora de arte e atual presidente da comissão.
O repertório não é pequeno. São mais de 38 danças catalogadas, organizadas por regiões culturais. No Pantanal, o destaque é o siriri, com letras ligadas à fauna e à flora, executado com instrumentos como a viola de cocho e percussões feitas de couro. Já na região de fronteira, as influências da Bolívia e do Paraguai aparecem em ritmos como a folca e o vaneirão.
Ela explica que são cerca de 4 mil itens reunidos ao longo dessas duas décadas. Livros, revistas, figurinos, instrumentos como viola de cocho e objetos antigos que contam a história de práticas culturais do estado. Tudo isso sem sede própria. O material fica espalhado, muitas vezes em locais improvisados ou alugados. O aluguel, inclusive, sai do bolso delas.
“O Catira já veio de Minas Gerais, da família Malaquias. Ele chegou em Camapuã, região de Figueirão, hoje Pontinha do Coxo. Há 110 anos ele trouxe a dança, a tradição da festa popular Divino Espírito Santo também”, conta.
O grupo tenta manter fidelidade às versões tradicionais, o que não é simples. Algumas danças exigem autorização dos “chefes” tradicionais para serem executadas. Outras demandam meses de aprendizado. A catira, por exemplo, pode levar até um ano para ser dominada corretamente, exigindo precisão no ritmo e na leitura da viola, pelo menos no caso dela.
“Os tradicionais são todos iguais, o nosso pode mudar as roupas, mudar passos. A gente aprendeu a catira em até 1 ano. É muito difícil. A primeira vez tem que prestar atenção no toque da viola para saber que horas bater as mãos, pular. A dificuldade maior era a gravação das músicas, que não existiam gravadas. Fizemos parceria com Júlio Feliz para gravar no estúdio, usamos o nosso dinheiro para isso”.
O Grupo Camalote, um grupo parafolclórico criado por elas, nasceu da necessidade de mostrar a riqueza que existe por aqui. A proposta é divulgar as danças tradicionais do estado e as danças que pouco são divulgadas nas escolas. Segundo elas, até professores muitas vezes nem conhecem as músicas e coreografias da própria região. A resposta delas foi prática. Levar essas danças para dentro das escolas. Um trabalho lento, descrito como “de formiguinha”.
Maria Ivonete explica que as escolas ensinam danças regionais que não são do Estado, mas não contemplam as próprias.
“Fizemos o projeto das danças folclóricas nas escolas. Nós aqui não dançamos muito as nossas próprias danças nas escolas, dançamos tudo menos o nosso. Muitos professores não conhecem as nossas próprias músicas. Tem o caranguejo, engenho de maromba, que a Marlei pesquisou há 20, 30 anos, e a gente queria que eles conhecessem e dançassem”.
Mesmo com a própria organização e dedicação, o grupo segue sem apoio. A tentativa de participar do Festival de Folclore de Olinda (PE), por exemplo, esbarra há anos em um obstáculo básico: o transporte.
“Sempre apresentamos nos eventos as danças do Pantanal. A ciranda pantaneira não é folclórica, mas criada pela música do Grupo Acaba para representar o bioma. No siriri, os versos são todos da fauna e flora pantaneira, dança pulada, tocada com viola de cocho, um reco-reco e um instrumento feito de couro de boi. Se apresentamos em filas, bate palma”.
Lucy, que foi aluna de Marlei na UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), entrou na comissão há 6 anos e descreve o que encontrou. Um acervo valioso sem espaço adequado e uma sensação constante de invisibilidade. O que sustenta tudo isso não é incentivo. É insistência.
“Eu fui aluna dela de 1997 a 2000 e tive o privilégio de ela ser minha orientadora. Nunca mais larguei ela. Ela é apaixonante. Eu comecei a perceber a angústia da Marlei e das meninas em não ter um espaço para trabalhar e organizar uma biblioteca para novas gerações, sendo que temos tanto material. Eu comecei a abraçar essa causa, o que move a gente é a gente saber o valor de tudo isso, o quanto é importante tudo isso para todos. A gente está escondido”.
Confira a galeria de imagens:
Acompanhe o Lado B no Instagram @ladobcgoficial, Facebook e X. Tem pauta para sugerir? Mande nas redes sociais ou no Direto das Ruas através do WhatsApp (67) 99669-9563 (chame aqui).
Receba as principais notícias do Estado pelo Whats. Clique aqui para entrar na lista VIP do Campo Grande News.















