Matemática e Esperança - Dia Internacional da Matemática
No dia 14 de março, celebrou-se o Dia Internacional da Matemática. A data foi proclamada pela Unesco na 40ª sessão da Conferência Geral, em 26 de novembro de 2019, e foi escolhida porque 14 de março já era celebrado, em diversos países, como o Dia do Pi, pois, em alguns países, a data é escrita como 3/14 e o número pi (π) é aproximadamente 3,14.
A iniciativa para a escolha de uma data para celebrar a matemática partiu da União Internacional de Matemática (IMU, sigla em inglês), organização científica internacional, não governamental e sem fins lucrativos, formada por cerca de 85 países, cujo objetivo é promover a cooperação internacional em matemática. A data é uma oportunidade para explicar, divulgar e celebrar o papel essencial que a matemática e a educação matemática desempenham nos avanços da ciência e da tecnologia, na melhoria da qualidade de vida e na contribuição para o alcance dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030 (ODS 1–17) da Organização das Nações Unidas (ONU).
Entre os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030 da ONU estão o fortalecimento da educação matemática e científica, com foco especial em meninas e crianças de países em desenvolvimento (ODS 4), e a promoção da igualdade de gênero e do empoderamento de mulheres e meninas também na matemática (ODS 5). Como mulher e matemática, é uma grande satisfação ver, nessa agenda, a inclusão da busca pelo espaço da mulher como protagonista no desenvolvimento científico da matemática, com atenção especial para que meninas que gostam de matemática e desejam estudá-la se sintam motivadas e acolhidas a seguir seus estudos e carreiras nessa área.
Quando observamos a história da matemática, é comum encontrar resultados associados principalmente a nomes masculinos. Isso pode dar a impressão de que as mulheres não participaram da construção da matemática ao longo dos séculos. No entanto, elas participaram dessa construção, mesmo enfrentando grandes dificuldades impostas socialmente. Durante grande parte da história, as mulheres não tiveram acesso aos mesmos espaços que os homens, especialmente aos espaços públicos de produção e circulação do conhecimento, à educação formal, a universidades e instituições científicas e debates acadêmicos. Mesmo depois de conquistarem esse acesso, muitas vezes foram, e ainda são, invisibilizadas.
Um caso emblemático é o da matemática alemã Emmy Noether. Filha de um professor de matemática, ela estudou na universidade e obteve seu doutorado no início do século XX. Mesmo sendo reconhecida por importantes matemáticos da época, enfrentou grandes dificuldades para ocupar um cargo acadêmico. Durante anos, trabalhou em uma universidade alemã sem salário e sem o título formal de professora, devido à resistência de parte da comunidade acadêmica em aceitar mulheres na docência universitária. Felizmente, ela não se rendeu e, posteriormente, tornou-se uma das matemáticas mais influentes do século XX, com contribuições fundamentais para a álgebra abstrata e para a física matemática.
Também há exemplos mais recentes da invisibilização do trabalho científico de mulheres, como o das matemáticas e cientistas que trabalharam nos primeiros programas espaciais da Nasa. Muitas delas realizaram cálculos fundamentais para missões espaciais, mas durante muito tempo não receberam o devido reconhecimento público por suas contribuições.
A Medalha Fields, considerada a principal premiação da matemática, foi criada em 1936 e é concedida a cada quatro anos pela IMU. A primeira mulher a receber essa distinção foi a matemática iraniana Maryam Mirzakhani, em 2014, 78 anos após a criação do prêmio. Até então, a medalha havia sido concedida a 52 matemáticos homens, fato que evidencia a demora histórica no reconhecimento das contribuições femininas na matemática.
Desafios para meninas e mulheres que desejam seguir na matemática ainda persistem, e a inclusão desse tema na Agenda da ONU reconhece e reforça a importância da participação feminina na área. A cada ano é escolhido um tema para o Dia Internacional da Matemática e, em 2026, o tema proposto pela IMU é: “Matemática e Esperança”, nas palavras de Tales de Mileto, "a esperança é o bem mais universal de todos os seres humanos”; mais de 2.500 anos depois, também podemos dizer que a matemática é um dos bens mais universais da humanidade.
Seguimos, então, com a matemática e com a esperança de que as mulheres tenham cada vez mais espaço, reconhecimento e visibilidade nessa construção universal do conhecimento.
(*) Aline Gomes da Silva Pinto é professora no Departamento de Matemática da Universidade de Brasília.
Os artigos publicados com assinatura não traduzem necessariamente a opinião do portal. A publicação tem como propósito estimular o debate e provocar a reflexão sobre os problemas brasileiros.

