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Comportamento

'Rolê de Pretão' é resistência da negritude que se acolhe na cidade

Para quem luta contra o silenciamento, até sentar em uma mesa de bar vira ato político e de luta

Por Clayton Neves | 13/03/2026 06:35

Num país que ainda insiste em empurrar a população negra para as margens, ocupar espaço também é gesto político. Às vezes, começa de forma simples: uma mesa de bar, risada solta, histórias cruzadas e gente preta se reconhecendo no olhar do outro. É nesse espírito que o “Rolê de Pretão” vem ganhando corpo em Campo Grande, transformando encontro em celebração de identidade, potência e pertencimento.

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O "Rolê de Pretão", realizado no Tereza Bar em Campo Grande, reuniu pessoas negras de diferentes perfis em um ambiente de celebração cultural e pertencimento. O evento proporcionou um espaço de afirmação coletiva, onde música, dança, moda autoral e literatura se misturaram como expressões de resistência. Para os participantes, o encontro representou um marco de valorização da cultura negra na capital sul-mato-grossense. Além das manifestações artísticas, o evento promoveu discussões sobre identidade, ancestralidade e estética, destacando-se como um território de acolhimento onde pessoas negras puderam se expressar livremente, fortalecendo laços culturais e históricos.

Na noite desta quinta-feira (12), o movimento tomou conta do Tereza Bar. Pessoas negras de diferentes trajetórias se reuniram para compartilhar cultura, estilo e vivências. No mesmo espaço, música, dança, moda autoral, literatura, comida e conversa fluíram como parte de uma mesma linguagem: a de existir, celebrar e resistir coletivamente.

Entre diferentes tonalidades de pele, texturas de cabelo, jeitos de vestir e gingados próprios, o ‘Rolê de Pretão’ se desenhou como um retrato vivo da pluralidade da negritude. No encontro, histórias foram compartilhadas com naturalidade, relatos que, fora dali, muitas vezes passam despercebidos ou acabam incompreendidos por quem nunca precisou atravessar a experiência de ser negro no Brasil.

'Rolê de Pretão' é resistência da negritude que se acolhe na cidade
Encontro reuniu pessoas de diferentes tonalidades de pele, texturas de cabelo e estilos. (Foto: Paulo Francis)

Para quem participou, o encontro funcionou quase como um território de acolhimento onde foi possível ser quem se é, sem filtros.

A costureira e figurinista Jessika Rabello, de 35 anos, enxergou o encontro como uma forma de resistência construída pela alegria e celebração. Vinda da cultura do hip-hop, ela lembra que quando era adolescente, manifestações culturais negras eram frequentemente marginalizadas.

“Quem fazia esse tipo de movimento ficava à margem. Hoje a gente ainda está em um lugar periférico, mas já é outro patamar. Existe valorização. A dança virou profissão, a moda preta ganhou força e a gente está retomando o que sempre foi nosso”, explica.

'Rolê de Pretão' é resistência da negritude que se acolhe na cidade
Moda autoral também fez parte do ´rolê´. (Foto: Paulo Francis)

Para ela, dançar, festejar e celebrar as raízes africanas é também um gesto político. “A gente se conecta por meio da celebração. Em muitos momentos falam da nossa dor, do racismo, mas hoje estamos aqui para celebrar. Isso também é resistência”, destaca.

Criador do Guia Negro, Guilherme Soares Dias vê o encontro como um símbolo de um novo momento vivido pela cidade. Para ele, ambientes como o “Rolê de Pretão” funcionam como espaços de fortalecimento, onde pessoas negras podem se reunir sem medo.

“É um lugar onde a gente pode ser quem realmente é, com toda nossa força, sabendo que não vai sofrer racismo”, afirma.

'Rolê de Pretão' é resistência da negritude que se acolhe na cidade
Jéssika avalia que movimento ganhou visibilidade. (Foto: Paulo Francis)

Morando entre Campo Grande e São Paulo desde 2009, Guilherme diz que durante muito tempo não existiam espaços assim na Capital sul-mato-grossense. “Eu frequentava escola particular e muitas vezes era o único negro no ambiente. Então ver esse aquilombamento hoje, ver a gente se reunindo e se fortalecendo, é muito significativo”, pontua.

Na avaliação do escritor, a cidade tem potencial para se tornar uma referência quando o assunto é cultura negra: “Campo Grande tem muito a mostrar. Existe uma história negra aqui que precisa ser valorizada. Esse movimento que está nascendo aponta para o futuro”, destaca.

Identidade e ancestralidade Para a professora Emy Mateus Santos, de 26 anos, reunir pessoas negras em um espaço de troca vai além da estética ou da festa. Segundo ela, encontros assim ajudam a reconstruir a identidade coletiva e a valorizar a herança ancestral.

'Rolê de Pretão' é resistência da negritude que se acolhe na cidade
Para Matheus, cabelo black power e pente garfo sçao símbolos de resistência. (Foto: Paulo Francis)

“Quando a gente se reúne com pessoas que vivem lutas parecidas, conseguimos olhar não só para as dificuldades, mas também para tudo que é positivo na nossa cultura”, explica.

Durante o evento, Emy propôs uma roda de conversa que reuniu mulheres trancistas para discutir estética, ancestralidade e memória. “Não é só sobre cabelo ou aparência. Existe toda uma história por trás disso. Quando a gente se reconhece como povo, fortalece tudo que vem dos nossos ancestrais”, detalha.

Emy acredita que a internet e a globalização também ajudaram a ampliar essas conexões. “Hoje a gente consegue ver outras mulheres negras fazendo coisas incríveis em diferentes lugares. Antes, na televisão ou nas revistas, quase não havia representação. Agora conseguimos construir rede e enxergar novas possibilidades”, avalia.

'Rolê de Pretão' é resistência da negritude que se acolhe na cidade
Roda de conversa com trancistas falou sobre estilo e ancestralidade. (Foto: Paulo Francis)
'Rolê de Pretão' é resistência da negritude que se acolhe na cidade

Entre os participantes estava o comerciante Matheus Bala, de 26 anos. Com o cabelo em estilo Black Power e um pente garfo preso aos fios como acessório, ele transformou o visual em símbolo de identidade.

Segundo ele, assumir o cabelo natural foi um processo longo de autodescoberta. “Na adolescência eu alisava o cabelo e mantinha curto. Foi só depois que comecei a entender quem eu era e a assumir minha identidade”, conta.

O pente garfo, que muitos usam apenas para arrumar o cabelo, para ele virou um marco dessa transformação. Às vezes perguntam por que estou com pente no cabelo ou o que significa. São coisas que acontecem o tempo todo. Pra mim é um símbolo de libertação. Me fez me enxergar de outra forma”, completa

No entanto, no ‘Rolê de Pretão’ o sentimento era outro. “Aqui eu sinto acolhimento. É um lugar onde encontro pessoas que têm vivências parecidas com as minhas. Isso traz uma euforia boa”, finaliza.

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