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Comportamento

Silvio já procurou Air France 447 e hoje mostra bastidores de tragédias

Ele atuou na maior operação de busca da história do Brasil em 2009 e escreveu dois livros, um sobre a Voepass

Por Natália Olliver | 13/03/2026 08:12
Silvio já procurou Air France 447 e hoje mostra bastidores de tragédias
Silvio já procurou Air France 447 e hoje escreve sobre os bastidores de tragédias aéreas (Foto: Arquivo pessoal)

Silvio Monteiro Júnior passou 30 anos fardado, a maior parte deles olhando o mundo de cima, através do para-brisa de um helicóptero do Esquadrão Pelicano. Quando um avião desaparece do radar, começa uma corrida silenciosa contra o tempo. É nesse momento que entram em cena pilotos treinados para vasculhar o céu e o mar em busca de respostas e, muitas vezes, de sobreviventes.

Durante 22 anos, foi exatamente nesse tipo de missão que ele atuou, inclusive na maior operação de busca da história do Brasil: o voo Air France 447, em 2009. O episódio foi um dos acidentes aéreos mais marcantes da aviação moderna. Ele ocorreu na madrugada de 1º de junho de 2009, quando um avião que fazia a rota entre Rio de Janeiro e Paris caiu no Oceano Atlântico, matando todas as 228 pessoas a bordo.

A história dele com a aviação começa aos 15 anos, quando ele deixou Campinas para aprender a voar a 700 km de casa. O sonho de guri, dividido entre a medicina e o céu, resolveu pousar na Força Aérea Brasileira.

Silvio já procurou Air France 447 e hoje mostra bastidores de tragédias
História com a aviação começou aos 15 anos de Silvio, em Campinas (Foto: Arquivo pessoal)

Silvio queria ajudar pessoas e acabou fazendo isso coordenando operações onde a esperança é o único combustível. Durante duas décadas, ele mergulhou na logística de encontrar o que sumiu. Ao Lado B, ele não faz ideia do número exato de missões das quais já participou.

“O sistema de busca e salvamento funciona de forma bastante ampla. Quando uma aeronave que deveria pousar em determinado local não chega ao destino, o sistema é acionado e um dos cinco centros de coordenação assume a missão de localizá-la".

No Brasil são cerca de 2.700 operações por ano, envolvendo diferentes tipos de ocorrência. Eu estive envolvido com a atividade de busca e salvamento por 22 anos, entre a execução, coordenação e supervisão das missões. Sem dúvida, a operação que mais me marcou foi o acidente com o voo Air France 447.

A experiência deixou marcas profundas e acabou se transformando em livro. No primeiro trabalho, Silvio decidiu revelar ao público os bastidores dessa operação e explicar como funcionam as buscas quando um avião desaparece no meio do oceano, uma tarefa que pode levar meses e envolver investigações que se estendem por anos.

Silvio já procurou Air France 447 e hoje mostra bastidores de tragédias
Piloto atuou durante 22 anos em missões de salvamento e rastreamento de aviões desaparecidos (Foto: Arquivo pessoal)

Depois de décadas voando em missões onde o drama é real e as respostas nem sempre aparecem rápido, Silvio decidiu usar a escrita para explicar dois mundos que raramente se encontram: o da aviação que busca respostas com método e tempo, e o da informação que circula quase instantaneamente após uma tragédia.

O piloto, que hoje é mestre em comunicação pela UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), percebeu que enquanto as equipes técnicas levam anos para assinar um relatório final, a internet leva segundos para apontar culpados.

Foi daí que nasceu o segundo livro inspirado na queda do voo VoePass 2283 crash, em Vinhedo, no interior de São Paulo, que  matou 62 pessoas e gerou uma avalanche de vídeos, notícias e teorias poucos minutos depois da tragédia.O livro será lançado no dia 19 de março.

Silvio já procurou Air France 447 e hoje mostra bastidores de tragédias
Ao todo, Silvio atuou por 30 anos na Força Aérea Brasileira (Foto: Arquivo pessoal)

“Nasci em Campinas, sou filho único e meus pais sempre valorizaram muito a educação. Como muitos garotos da minha geração, eu sonhava em voar. Minha carreira começou ali, ainda no ensino médio da Força Aérea, e depois seguiu na Academia da Força Aérea. No ano seguinte me especializei como piloto de helicópteros e escolhi servir no Esquadrão Pelicano, aqui em Campo Grande. Ao todo, foram cerca de 30 anos na Força Aérea Brasileira”.

Ele explica que os dois livros nasceram de inquietações diferentes ao longo da sua trajetória, o primeiro para mostrar os bastidores, o segundo pelo incômodo das teorias sem provas. De certa forma, o último livro também é uma tentativa de explicar melhor como funciona o trabalho dos profissionais responsáveis pela investigação de acidentes aéreos no Brasil e, ao mesmo tempo, provocar uma reflexão sobre como lidamos com as notícias em momentos de crise.

Silvio já procurou Air France 447 e hoje mostra bastidores de tragédias
Livro “VOEPASS 2283: Tragédia e Desinformação”, será lançado dia 19 (Foto: Raquel de Souza)

Medo de avião?

Silvio ainda falou de um tema polêmico: medo de avião. Para ele, a segurança no céu não é uma questão de sorte, mas de um sistema que tenta ser mais rápido que o erro humano. Como ex-piloto do Esquadrão Pelicano, ele analisa os dados com o pé no chão e conta que, embora o "julgamento de pilotagem" apareça em mais de 470 ocorrências na última década, isso não é um atestado de má formação. Ou seja, não precisa desse medo todo.

“O medo de voar é mais comum do que muita gente imagina e pode ter diferentes causas. Algumas pessoas têm medo de altura, outras ficam ansiosas por não estarem no controle da situação, e há também quem tenha desenvolvido esse medo após alguma experiência ruim. Esse tipo de medo pode ser tratado, muitas vezes, com apoio psicológico".

O que ele costuma mostrar é que a aviação continua sendo, "estatisticamente, o meio de transporte mais seguro do mundo. Em termos estatísticos, a probabilidade de sofrer um acidente de carro no caminho até o aeroporto é muito maior do que a bordo de um avião”.

O livro “VOEPASS 2283: Tragédia e Desinformação”, será lançado na próxima quinta-feira, dia 19, na Lupland Biergarten. A entrada é gratuita.

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