Tatu de ouro joga pedra em quem passa por ponte antiga de Furnas
Moradores usam as redes sociais para contar lendas da comunidade e manter mistérios na vida das crianças
Dizem os mais antigos que nas noites de lua cheia, sob a velha ponte de Furnas do Dionísio, algo estranho costumava aparecer. Não era bicho comum. Era um tatu de ouro que jogava pedras em quem passasse na ponte do quilombo. Para manter as histórias da comunidade, moradores resgataram a lenda que ainda pega muita gente por lá. O vídeo matou a saudade de quem vivia escutando isso dos pais ou avós nas proximidades de Jaraguari.
RESUMO
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A lenda do tatu dourado, que assombra moradores da comunidade quilombola Furnas do Dionísio, em Jaraguari, continua viva através das gerações. Segundo relatos, nas noites de lua cheia, um misterioso tatu de ouro aparecia sob a velha ponte, arremessando pedras em transeuntes e desaparecendo como fumaça quando alguém tentava capturá-lo. A história faz parte de um rico acervo de lendas locais, que inclui outras narrativas como o Copo de Ouro e as Bonecas Bruxas. O professor Vanderlei dos Santos incorporou essas histórias às aulas de Cultura Afro-brasileira, preservando a tradição oral e fortalecendo o sentimento de pertencimento na comunidade quilombola.
Os alvos eram pessoas que voltavam da igreja ao entardecer ou pessoas que estavam apenas de passagem. Eles juravam ver um pequeno animal brilhar no escuro, iluminando o chão com uma luz misteriosa.
Vera Lucia Rodrigues dos Santos, quilombola de 43 anos, cresceu ouvindo essas histórias. Para ela, as lendas sempre fizeram parte da vida na comunidade.
“Quando eu era criança, a gente acreditava muito, porque vinha dos pais, dos avós. Mexia com o imaginário, com essa ideia de coisa de outro mundo. Tinha também a questão da Semana Santa, da quaresma, que não podia acender fogo, brincar, bater lata. A gente respeitava”, conta.
Hoje, segundo ela, o encanto disputa espaço com a internet e com o que é considerado “real”. “As crianças acreditam mais no que veem na tela. Aquilo que era lenda, conto e mistério foi perdendo força. Mesmo assim, a escola tenta resgatar. A ideia agora é transformar essas histórias em quadrinhos, pra não deixar morrer.”
Voltando à lenda. Os moradores contam que muitos tentaram espantar o tatu ou pegar o animal, mas ninguém jamais conseguiu tocar nele. Dizem que ele desaparecia como fumaça e, quando acuado, era ele quem revidava, atirava pedras com força, assustando quem ousasse se aproximar. Muita gente saiu correndo, outros prometeram nunca mais cruzar a ponte depois do pôr do sol.
E não é só o tatu de ouro que está no imaginário local. Em Furnas circulam outros casos: o Copo de Ouro, o Ouro d’Água, as Bonecas Bruxas, o Lobo do Olho Vermelho, Os Dois Cumpadis. Algumas são chamadas de “lendas de ouro”, ligadas à riqueza que aparece e some; outras são as clássicas histórias “de botar medo”, feitas para ensinar prudência e respeito.
Professor da comunidade, Vanderlei dos Santos incorporou essas narrativas às aulas, principalmente na disciplina de Cultura Afro-brasileira. Desde 2019, ele coleta relatos dos mais velhos e trabalha essas oralidades com alunos do ensino fundamental. Ele conta que a lenda do tatu é a mais famosa.
"Dizem que nas pedreiras ali, principalmente próximas aos córregos que banham a comunidade, sempre aparecia ou sempre aparece um tatu dourado, que quando ele aparece, os passarinhos ficam alvoroçados. Em revoadas, em cantorias. E quando alguma pessoa percebe o tatu de ouro, normalmente a intenção é capturar para vender".
As lendas não são invenções, são lembranças. Elas guardam o território, falam de fé, proteção, caminhos que enganam e riquezas que nem sempre são para serem tocadas.
Desde que chegou à região, ele passou a ouvir os mais velhos, recolher relatos e identificar quais narrativas continuavam vivas na memória coletiva. A ideia sempre foi simples, mas potente: levar esses saberes para dentro da escola e trabalhar com os alunos aquilo que já faz parte da identidade da comunidade.
Ao longo dos anos, esse levantamento formou quase um pequeno acervo. Hoje, segundo o professor, já são pelo menos 8 lendas mapeadas. Quatro delas estão ligadas diretamente ao ouro. Mais do que susto ou fantasia, Vanderlei vê nessas narrativas uma ferramenta de pertencimento.
São histórias que ajudam crianças e jovens a reconhecer o lugar onde vivem, entender a ancestralidade quilombola e manter viva uma tradição que, por muito tempo, foi transmitida apenas pela palavra falada.
Entre os moradores mais antigos, seu Sebastião contou para escritora Sirlene Jacquie de Paula Silva sobre a lenda do tatu. Para ele, não era só história contada para assustar criança, era real. Ele lembra que, antigamente, muita coisa era chamada de “ilusão”.
"Eu mesmo já perdi a conta do tanto que vi. Tinha uma pedreira ali, perto da estrada que sobe pra casa do Nirtinho. Toda vez que eu passava por ali eu via. Mas não era tatu normal, não. Era tatu todo de ouro. Brilhando. Correndo que nem doido. Coisa que mostra ouro só pra enganar".




