Público de 20 mil encerra desfiles com flashback, águas sagradas e diásporas
Catedráticos, Deixa Falar e Cinderela fecham Carnaval com emoção, crítica social e fé
Com público estimado em 20 mil pessoas, o segundo dia de desfiles das escolas de samba de Campo Grande, realizado nesta terça-feira (17), encerrou as apresentações do Carnaval 2026. Catedráticos do Samba, Deixa Falar e Cinderela Tradição do José Abrão levaram emoção, crítica social e memória afetiva à avenida montada na Praça do Papa.
RESUMO
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O segundo dia de desfiles das escolas de samba de Campo Grande encerrou o Carnaval 2026 com público estimado de 20 mil pessoas. Catedráticos do Samba, Deixa Falar e Cinderela Tradição do José Abrão apresentaram-se na Praça do Papa. Os Catedráticos abriram a noite com um flashback musical, a Deixa Falar trouxe o tema das águas sagradas dos orixás, e a Cinderela Tradição encerrou com um enredo sobre diásporas e conflitos históricos. A apuração das notas acontece no Teatro Arena do Horto Florestal, com premiação prevista para o Armazém Cultural.
Catedráticos do Samba: viagem ao passado
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Responsáveis por abrir a noite, os Catedráticos do Samba convidaram a plateia para embarcar no enredo “De volta ao passado: os Catedráticos do Samba em um flashback de emoções”.
Logo na entrada, a comissão de frente arrancou aplausos ao relembrar a clássica coreografia de Thriller, de Michael Jackson. O rei do pop apareceu até caracterizado como lobisomem na apresentação dos carnavalescos.
O abre-alas trouxe referências a Madonna e Elton John. Na primeira ala, figurinos remetiam às baladas românticas das décadas de 1970 e 1980, com a palavra “Exagerado” estampada nas roupas. Em seguida, vieram referências a rádios, fitas K7, toca-discos e televisores antigos.
A terceira ala misturou figurinos modernos e clássicos do flashback. A era da discoteca foi representada no segundo carro alegórico, que trouxe pista de dança iluminada e dançarinos com roupas inspiradas no estilo disco. A escola ainda fez menção às jukeboxes e aos chamados anos dourados.
“A saudade faz tão bem, na explosão da bateria é raiz. Uma viagem na máquina do tempo, no flashback o povo é mais feliz”, cantava a bateria.
Mesmo com limitações de locomoção, a diretora Marilene Ferreira de Barros acompanhou o desfile de perto. Em cadeira de rodas e conduzida pela filha, percorreu a avenida emocionada.
“Pra mim foi muita surpresa, porque os meus filhos se preparam e eu sou do bastidor. Eles preparam, meus filhos são artistas. [...] Pra mim foi um sentimento de muito orgulho mesmo, a minha escola me surpreendeu”, afirmou.

Deixa Falar: águas sagradas
Com o tema voltado às águas sagradas dos orixás, a Deixa Falar levou à avenida a “dança das águas”, simbolizando o encontro entre natureza e humanidade, entre o visível e o invisível.
O primeiro casal de porta-bandeira representou o caminho das águas, com figurinos inspirados em Exu e Pombagira. No abre-alas, a escola apresentou uma gigantesca concha, símbolo da água, além da cabeça de um tigre, mascote da agremiação.
As alas trouxeram elementos como águas da purificação, Iemanjá, Oxum, o curso dos rios, os ribeirinhos e as águas do Pantanal.
O refrão marcante incentivou a interação do público: “Na palma da mão, no toque do tambor, no igarapé! Dançou Iara. Se água é vida, ‘Deixa Falar’ é fé nesta avenida dando um banho de axé”, dizia o trecho.
Após o desfile, o diretor Francis Fabian avaliou que a proposta foi cumprida como planejada. “A proposta que a gente queria levar para a passarela a gente conseguiu”, declarou.
Ele destacou ainda que a escola se manteve compacta, sem buracos. “Não é mole, é uma escola grande, muitos componentes, muitas cabeças pensantes. Lidar com isso exige muita psicologia, é difícil. Uma coisa muito importante é ter pessoas em quem você confia e que falem a mesma língua”, completou.

Cinderela Tradição: do passado de dor ao clamor
Com o enredo “Diásporas – Por um futuro que não repita o passado”, a Cinderela Tradição do José Abrão apostou em um desfile de forte teor histórico e social. Inspirada na canção “Diáspora”, dos Tribalistas (2017), a escola propôs reflexão sobre deslocamentos forçados ao longo da história e suas consequências.
A diáspora africana ganhou destaque nas primeiras alas, com referências aos povos bantos, aos navios negreiros, chamados de tumbeiros, e ao processo de desumanização de africanos escravizados. A escola também abordou a Inquisição Católica, a diáspora judaica e conflitos históricos e contemporâneos, como a disputa entre judeus e palestinos, ressaltando os impactos das guerras e do fanatismo religioso.
Ao longo da apresentação, a narrativa contrapôs ganância, ódio e destruição, simbolizados pelo fogo, à água como elemento de purificação e esperança. O enredo também mencionou países que vivem conflitos armados e a crise humanitária que leva milhares de refugiados a buscar abrigo no Brasil.
A escola ainda lembrou o deslocamento de nordestinos para o Sudeste entre as décadas de 1940 e 1990, reforçando a resistência e a identidade cultural desse povo. Em outro momento, destacou o Brasil como “Pátria Mãe Gentil”, que acolhe imigrantes e refugiados. O encerramento apostou na reconstrução e na esperança, com anjos de luz, referências à paz e a figura de Oxalá como mensageiro.
“É diáspora sem fim, guerra e destruição, judeus e palestinos lutam pelo próprio chão”, dizia trecho do samba-enredo. “Ao som dos tambores ecoa igualdade. Na Cinderela um grito de liberdade, um novo mundo só de amor e paz. Diásporas nunca mais”, cantava a bateria.
Integrante da diretoria, Juliana de Paula, avaliou o resultado. “Foi maravilhoso, espetacular. A escola veio vibrando, com toda emoção que sempre teve e veio para somar em mais um Carnaval,” afirmou.
Próximos eventos - Com o fim das apresentações das seis escolas, as agremiações agora aguardam a apuração das notas, marcada para esta quarta-feira (18), às 17h, no Teatro Arena do Horto Florestal. A premiação das campeãs será na sexta-feira (20), a partir das 19h, no Armazém Cultural, com entrada gratuita.
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