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Meio Ambiente

Campo Grande pode aquecer menos que outras cidades tropicais, aponta estudo

Pesquisa com 104 municípios mostra que Capital de MS deve ter ilha de calor de menor intensidade

Por Inara Silva | 13/03/2026 17:01
Campo Grande pode aquecer menos que outras cidades tropicais, aponta estudo
Calor do fim da tarde em Campo Grande (Foto: Osmar Veiga)

Cidades tropicais devem sentir de forma cada vez mais intensa os efeitos do aquecimento global, mas algumas podem apresentar comportamento diferente. É o caso de Campo Grande (MS), que aparece em um estudo internacional sobre calor urbano com uma característica específica. Isto porque, embora a temperatura também deva subir nas próximas décadas, a Capital de Mato Grosso do Sul pode ter redução relativa da intensidade da ilha de calor urbana em comparação com muitas cidades tropicais.

RESUMO

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Um estudo internacional liderado pela Universidade de East Anglia, no Reino Unido, revela que Campo Grande pode ter uma redução relativa da intensidade da ilha de calor urbana em comparação com outras cidades tropicais. A pesquisa analisou 104 cidades de médio porte em regiões tropicais e subtropicais, projetando que 81% delas terão aumento significativo do calor urbano. No entanto, áreas do Centro-Oeste brasileiro, como Campo Grande, podem apresentar menor contraste térmico entre cidade e campo devido a mudanças ambientais que favorecem o resfriamento rural. Apesar disso, o aquecimento global continuará afetando todas as regiões, exigindo políticas de adaptação urbana.

A conclusão faz parte de um estudo realizado por cientistas da Universidade de East Anglia, no Reino Unido, que analisou 104 cidades de médio porte em regiões tropicais e subtropicais, com população entre 300 mil e 1 milhão de habitantes, predominantemente em regiões afetadas por monções, como a Índia, a China e a África Ocidental.

O objetivo foi entender como o fenômeno da ilha de calor urbano, quando áreas urbanas ficam mais quentes que o entorno rural, pode mudar à medida que o planeta se aproxima de 2 °C de aquecimento global.

Campo Grande entra no estudo justamente por apresentar características semelhantes às cidades analisadas: clima tropical, crescimento urbano recente e população dentro da faixa considerada pelos pesquisadores.

Campo Grande pode aquecer menos que outras cidades tropicais, aponta estudo
Área urbana de Capital, uma mescla de árvores e concreto. (Foto: Osmar Veiga)

Tendência global - O estudo “Aquecimento amplificado em cidades tropicais e subtropicais sob um cenário de 2°C de mudança climática” foi publicado em fevereiro de 2026 na revista científica da National Academy of Sciences, PNAS (Proceedings of the National Academy of Sciences).

De acordo com o estudo, a temperatura média da superfície urbana pode aumentar entre 1,5°C e 2°C durante o dia em cidades como Patiala, na Índia, Assiut, no Egito, e Shangqiu, na China. No Brasil, as projeções indicam elevação ainda maior em alguns municípios como Rio Branco (AC), que pode registrar aumento de até 3°C; enquanto Ribeirão Preto (SP), Franca (SP), Uberaba (MG) e Cuiabá (MT) podem ter alta próxima de 3°C. Já Piracicaba (SP) deve apresentar elevação de cerca de 2,2°C, e Caruaru (PE), aproximadamente 2°C.

De forma geral, o estudo indica que 81% das cidades analisadas devem apresentar aumento na intensidade da ilha de calor urbana. Em média, o aquecimento nas áreas urbanas pode ser cerca de 0,4°C maior do que o observado nas áreas rurais do entorno.

Considerando um cenário de 2°C de aquecimento global, os pesquisadores estimam que aproximadamente 16% dessas cidades podem registrar taxas de aquecimento entre 50% e 100% maiores do que as observadas em suas áreas rurais vizinhas

Isso ocorre porque o ambiente urbano concentra elementos que acumulam calor, como asfalto e concreto, pouca vegetação, menor evaporação de água do solo, calor gerado por veículos e equipamentos urbanos. Conjunto de fatores que faz com que as cidades retenham mais calor do que as áreas naturais ao redor.

Campo Grande pode aquecer menos que outras cidades tropicais, aponta estudo
Dia de altas temperaturas na área urbana da Capital (Foto: Osmar Veiga)

Exceção - No caso de parte da América do Sul, incluindo regiões do interior do Brasil, os resultados mostram um comportamento diferente. Nos mapas apresentados na pesquisa, áreas do Centro-Oeste brasileiro, como Campo Grande, aparecem com possível enfraquecimento da ilha de calor urbana em cenários de aquecimento global.

Conforme a pesquisa, o fato não significa que a cidade ficará mais fria, pois a temperatura ainda deve subir, acompanhando o aquecimento do planeta. O diferencial em relação às demais cidades estudadas é que as áreas rurais ao redor podem resfriar relativamente mais, diminuindo o contraste entre cidade e campo.

O estudo demonstra que o fato pode ocorrer porque mudanças ambientais favorecem maior evapotranspiração da vegetação e aumento da umidade do solo nas áreas naturais, o que contribui para resfriar o ambiente rural.

Aquecimento continua - Mesmo com essa possível redução relativa do efeito da ilha de calor, os pesquisadores ressaltam que o aumento da temperatura urbana continua ocorrendo. Na prática, o cenário projetado indica que o planeta e as cidades estarão mais quentes, com diferença térmica menor entre a cidade e o campo em algumas regiões.

Metodologia utilizada - Para chegar às projeções, os pesquisadores combinaram três fontes principais de informação incluindo dados de satélite, usados para medir a temperatura da superfície nas cidades; modelos climáticos globais, que simulam cenários de aquecimento do planeta; e técnicas de aprendizado de máquina, capazes de estimar como o efeito da ilha de calor pode evoluir em diferentes ambientes urbanos.

A metodologia permitiu analisar cidades de médio porte, que normalmente ficam fora dos modelos climáticos tradicionais, focados em grandes metrópoles.

Campo Grande pode aquecer menos que outras cidades tropicais, aponta estudo
Sol forte ilumina dia de calor intenso em Campo Grande (Foto: Arquivo)

Maior Risco - O estudo destaca que muitas cidades tropicais devem registrar aumento significativo da ilha de calor urbana. Entre os exemplos citados pelos pesquisadores estão centros urbanos como Ouagadougou, em Burkina Faso; Niamey, no Níger; Khartoum, no Sudão; além de cidades asiáticas como Karachi, no Paquistão; e Ahmedabad, na Índia.

Nessas regiões, o aumento da intensidade da ilha de calor pode superar 0,5 °C além do aquecimento regional, ampliando riscos associados a ondas de calor.

Desafios -  Os pesquisadores destacam que cidades de médio porte, categoria em que se encaixa Campo Grande, concentram população crescente e estão entre as menos estudadas em projeções climáticas globais.

Entender como o aquecimento urbano se comporta nesses centros é fundamental para planejar políticas de adaptação, reduzir riscos à saúde e ampliar estratégias de arborização e planejamento urbano capazes de amenizar os efeitos do calor nas próximas décadas.

Outras informações sobre o estudo estão disponíveis na Revista PNAS.

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