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Meio Ambiente

Eucalipto ameaça água, abelhas e até plantação de alface, alertam especialistas

Audiência reúne pesquisadores e autoridades que apontam perdas agrícolas e risco a nascentes

Por Inara Silva | 11/03/2026 17:54
Eucalipto ameaça água, abelhas e até plantação de alface, alertam especialistas
Audiência pública discete avanço de eucalipto em MS (Foto: Wagner Guimarães)

O avanço do plantio de eucalipto no leste de Mato Grosso do Sul tem afetado as nascentes dos rios, provocado prejuízos aos pequenos produtores, à produção de abelhas, além de impactos na fauna e até danos em lavouras de hortaliças. Pesquisadores e autoridades locais apresentaram esses relatos em audiência pública sobre a expansão da silvicultura  na região e levantaram a necessidade de atualização da legislação ambiental.

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O avanço do plantio de eucalipto no leste de Mato Grosso do Sul tem causado impactos significativos no meio ambiente e na agricultura local. Em audiência pública, pesquisadores e autoridades relataram prejuízos a pequenos produtores, diminuição de colmeias e comprometimento de nascentes dos rios.A área de eucaliptos no Estado cresceu 500% na última década, atingindo 1,75 milhão de hectares em 2025. Especialistas alertam para alterações no microclima e biodiversidade, enquanto autoridades defendem mudanças na legislação ambiental, incluindo o aumento da distância mínima entre plantações e áreas habitadas, dos atuais 50 para 500 metros.

O evento foi coordenado pelo deputado estadual Zeca do PT, presidente da Comissão de Desenvolvimento Agrário e Assuntos Indígenas e Quilombolas da Assembleia Legislativa. Conforme o parlamentar, a ideia do encontro foi promover um debate aprofundado para buscar soluções e encaminhar ações que “permitam conhecer melhor a realidade e os efeitos que as florestas de eucalipto têm causado na vida de muita gente”. O deputado afirmou que o documento final do encontro será encaminhado para o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), em Brasília.

Durante o debate, o professor e pesquisador da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), Mauro Henrique Soares da Silva, especialista em climatologia e biogeografia, destacou que a expansão acelerada da atividade pode gerar mudanças ambientais significativas no território.

Ele disse que na feira de Três Lagoas, por exemplo, pequenos produtores rurais relataram perdas em plantações de alface em dezembro. Segundo ele, o fato está associado  às mudanças no microclima e à pressão ambiental causada pelas grandes áreas de monocultura. Também há queixas de apicultores sobre diminuição de colmeias e dificuldade de sobrevivência das abelhas, além de impactos na produção agrícola familiar.

A área de eucaliptos plantados no Estado aumentou em 500% nos últimos dez anos, conforme a Semadesc (Secretaria de Estado de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação), somando 1,75 milhão de hectares em 2025.

Segundo o pesquisador, a formação de grandes áreas contínuas de eucalipto altera o equilíbrio natural do ambiente, afeta o regime de umidade do solo, a dinâmica da água e a biodiversidade, o que acaba repercutindo diretamente nas atividades agrícolas da região.

O pesquisador ressaltou que as monoculturas florestais podem influenciar o microclima regional e gerar impactos indiretos na agricultura, na disponibilidade de água e na fauna.

Eucalipto ameaça água, abelhas e até plantação de alface, alertam especialistas
Apresentação do subsecretário de Meio Ambiente de Selvíria, Valcitinez Santiago,(Foto: Wagner Guimarães)

Nascentes ameaçadas - O subsecretário de Meio Ambiente de Selvíria, Valcitinez Santiago, também apresentou preocupações durante a audiência. Segundo ele, imagens de satélite mostram nascentes comprometidas pelo avanço do eucalipto em áreas próximas a assentamentos rurais. Em uma das apresentações, o gestor exibiu fotografias que indicariam três nascentes impactadas pela atividade, com redução da área úmida e avanço do plantio até áreas sensíveis.

“Essas fotos mostram claramente as nascentes que estão sendo comprometidas pela atividade”, afirmou.

Valcitinez defende mudança na lei ambiental com a fixação de uma distância mínima de 500 metros entre plantações de eucalipto e áreas habitadas ou produtivas de pequenos agricultores, como forma de proteger comunidades rurais e recursos hídricos. Atualmente, o limite é de 50 metros.

“Não somos contra o desenvolvimento, mas contra a forma desordenada como ele vem acontecendo”, disse.

Impactos nos municípios - O subsecretário também destacou que municípios pequenos da região enfrentam dificuldades para lidar com os impactos ambientais provocados pela expansão da silvicultura. Segundo ele, cidades como Selvíria possuem grande área rural, pouca estrutura de fiscalização e dependem de políticas estaduais para lidar com os efeitos da atividade.

Ele citou ainda o crescimento da cultura em municípios vizinhos, como Inocência, que já possui mais de 76 mil hectares de eucalipto plantados, tornando-se um dos principais polos de produção no Estado. Para o gestor, além da regulamentação da atividade, é necessário garantir que as compensações ambientais sejam aplicadas nos municípios onde os impactos ocorrem.

Fauna e escassez de água - Entre os exemplos citados por Valcitinez está o registro de animais com dificuldade de acesso à água em áreas onde nascentes estariam secando. Ele contou que, ao visitar uma dessas áreas, presenciou a tentativa de um animal silvestre de beber água em uma nascente praticamente seca. “Quando fui tirar a foto, havia um lobo tentando beber água ali, mas estava seco”, relatou.

A vereadora de Ribas do Rio Pardo, Jaqueline Pereira  Arimura (PT-MS), apresentou a situação do Rio Pardo, que está tomado por plantas aquáticas desde fevereiro de 2025 e, segundo ela, até agora não houve respostas nem fiscalização.

Eucalipto ameaça água, abelhas e até plantação de alface, alertam especialistas
Público da audiência assiste apresentação no telão (Foto: Wagner Guimarães)

Legislação - Doutor em Meio Ambiente, o promotor de Justiça Luciano Loubet, lembrou que a destruição da vegetação nativa no Estado não tem relação direta com o eucalipto, ela ocorre, segundo ele, por conta da pecuária e da plantação de pastagens, conforme demonstrou com imagens e mapas. O promotor disse que age de acordo com a legislação e aproveitou para criticar a lei atual que, desde 2007, libera de licença o plantio de eucalipto. E isso se reflete em nível nacional.

“A nova lei dispensa qualquer tipo de atividade agropecuária de licenciamento para fins de plantio. Então, se eu tenho uma propriedade de 10 mil hectares, eu posso usar 8 mil ha dela para fazer e plantar o que eu quiser e posso não deixar um pé de árvore em pé para conexão de fauna”.

Em sua fala, Benedito Lázaro, diretor-executivo da Reflore/MS (Associação dos Produtores de Consumidores de Florestas Plantadas em MS), defendeu a atividade por conta do desenvolvimento e geração de empregos nos municípios. Lázaro também ressaltou que as empresas têm cumprido todos os critérios ambientais para receber o “selo” que permite a atividade. No entanto, se disse aberto ao diálogo e a aproximação das comunidades.

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