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Política

Ainda sem final, Uragano enterrou carreiras promissoras na política de MS

Operação que sacudiu Dourados segue sem condenados presos, mas réus têm multas milionárias a pagar

Por Helio de Freitas, de Dourados | 22/02/2026 10:15
Ainda sem final, Uragano enterrou carreiras promissoras na política de MS
Moradores em frente ao Fórum de Dourados durante protesto contra políticos presos, em setembro de 2010 (Foto: O Progresso)

O tabuleiro político de Mato Grosso do Sul já se movimenta para as eleições de 2026. Atuais vereadores e prefeitos buscam apoio para alçar voos mais altos, deputados estaduais e federais se preparam para tentar a reeleição e outros nomes proeminentes da política estadual se organizam para tentar nas urnas o primeiro mandato eletivo.

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A Operação Uragano, deflagrada em setembro de 2010 em Dourados (MS), desmantelou esquema de corrupção e encerrou carreiras políticas promissoras. O caso, que resultou na prisão do então prefeito Ari Artuzi, seu vice e diversos vereadores, ainda tramita na Justiça sem desfecho definitivo. Após quase 16 anos, nenhum dos envolvidos conseguiu retomar a carreira política com sucesso, apesar de alguns tentarem. O único beneficiado foi o delator Eleandro Passaia, ex-secretário de Governo, que hoje apresenta programa policial na TV Record em São Paulo. Os demais condenados seguem recorrendo em liberdade.

Em Dourados, maior cidade do interior de Mato Grosso do Sul, no entanto, a campanha eleitoral deste ano vai repetir a realidade de pleitos anteriores: a exclusão de políticos “amaldiçoados” pela Operação Uragano.

Deflagrada no dia 1º de setembro de 2010 para desmantelar esquema milionário de corrupção, a ação da Polícia Federal derrubou o comando político de Dourados e até hoje deixa sequelas para aqueles que ocupavam cargos públicos e foram parar atrás das grades por um curto período ou acabaram denunciados e condenados.

Nenhum implicado naquele esquema teve carreira política de sucesso após o furacão causado pelas investigações. Quase 16 anos depois, as ações penais decorrentes da investigação da Polícia Federal ainda caminham nas entranhas da Justiça e ninguém dos condenados chegou efetivamente a cumprir pena, apesar das pesadas sentenças em regime fechado. Mas o estrago nas pretensões políticas dos réus foi irreversível.

Apontado como o chefe do bando, o então prefeito Ari Artuzi morreu em agosto de 2013 em decorrência de um câncer de estômago.

Seu vice, Carlos Roberto Assis Bernardes, o “Carlinhos Cantor”, preso no dia da operação, tentou retomar a atuação política há nove anos. Em novembro de 2017, ele assumiu o comando local do então recém-fundado Podemos, que teve o ex-senador Álvaro Dias (PR) como candidato a presidente da República em 2018. Entretanto, Carlinhos nunca mais tentou disputar uma eleição. Ele é servidor concursado da Câmara de Vereadores de Dourados.

Planos destruídos – Presidente da Câmara Municipal em 1º de setembro de 2010, Sidlei Alves da Silva foi mais um jovem político douradense que teve a escalada interrompida pela Operação Uragano.

Candidato a deputado estadual nas eleições que seriam disputadas em outubro daquele ano, Sidlei foi um dos vereadores presos pela Polícia Federal e obrigado a abandonar o sonho de ocupar cargos mais importantes.

Condenado na Operação Uragano e também em outro escândalo político envolvendo empréstimos consignados na Câmara de Vereadores, Sidlei atua desde então nos bastidores políticos. Atualmente é assessor da Assomasul (Associação dos Municípios de Mato Grosso do Sul) e ensaia tentar disputar a eleição de 2026.

A Uragano também interrompeu a carreira política de outros vereadores de Dourados presos naquele 1º de setembro – Humberto Teixeira Junior, Aurélio Bonatto, Marcelo Hall, Edvaldo de Melo Moreira, José Carlos Cimatti Pereira, José Carlos de Souza, o “Zezinho da Farmácia”, Marcelo Barros, Júlio Luiz Artuzi (morto em 2015) e Paulo Henrique Amos Ferreira.

Conhecido como “Bambu”, Paulo Henrique é outro que não conseguiu abandonar a política e seguiu atuando como coordenador político nomeado no governo do Estado. Em dezembro de 2025, deixou o cargo na Casa Civil.

Herdeiro político do pai, o ex-prefeito Humberto Teixeira (1993-1995), o ex-vereador Humberto Teixeira Júnior, que era primeiro-secretário da Câmara quando a Uragano foi deflagrada, até tentou voltar à cena em 2024. Primeiro tentou ser candidato a prefeito, depois lançou candidatura a vereador pelo PRD (Partido Renovação Democrática), mas foi considerado inapto com base na Lei da Ficha Limpa.

Outros réus – Além do prefeito, vice-prefeito e vereadores, a Operação Uragano resultou na prisão, denúncia e depois sentença contra empresários, servidores de carreira do município de Dourados e ocupantes de cargos do primeiro escalão da gestão Ari Artuzi.

Todos foram condenados em regime fechado nas várias ações decorrentes das investigações, possuem dívidas milionárias em multas a serem pagas, mas, assim como os demais, continuam recorrendo em liberdade.

Entre os ex-secretários de Ari Artuzi condenados está Darci Caldo, que ocupou a pasta de Governo naquela gestão e atualmente é secretário de Articulação Regional de Campo Grande.

Em junho de 2025, a 1ª Câmara Criminal do TJMS (Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul) rejeitou, por unanimidade, o recurso do Ministério Público e decretou a extinção da punibilidade de Darci Caldo e de outros cinco réus no mesmo processo – José Carlos Cimatti Pereira, Dirceu Aparecido Longhi, “Zezinho da Farmácia”, o ex-técnico de controle externo do TCE (Tribunal de Contas do Estado) Selmo Marques de Oliveira e o ex-secretário adjunto de Saúde Dilson Degutti Vieira.

Entre os 61 réus da Operação Uragano estavam 12 servidores efetivos do município de Dourados, entre eles o engenheiro Dilson Cândido de Sá e a professora Marlene Florêncio Vasconcelos, que ocupavam, respectivamente, os cargos de secretários de Obras e de Educação.

Os dois também foram presos no dia da operação, acusados de receber propina de empresas envolvidas no esquema. Dilson Cândido de Sá foi citado nos relatórios como um dos beneficiários de comissões pagas por construtoras.

Em fevereiro de 2012, a Prefeitura de Dourados abriu processo administrativo para investigar a conduta dos servidores efetivos implicados no escândalo. A punição mais alta seria a demissão, mas todos eles seguem exercendo suas funções normalmente. Engenheiro efetivo do município, Dilson recebe salário líquido de R$ 19,2 mil, segundo o portal da transparência.

Ainda sem final, Uragano enterrou carreiras promissoras na política de MS
O jornalista Elendro Passaia no estúdio da Record, em São Paulo (Foto: Reprodução)

Delator curte fama – Peça-chave para o sucesso das investigações da Polícia Federal, o jornalista Eleandro Passaia, de 50 anos, é o único que “subiu de patamar” após a Operação Uragano. Então secretário de Governo de Ari Artuzi, Passaia atuou como infiltrado da Polícia Federal e gravou diálogos com políticos e empresários implicados no esquema de corrupção.

Aproveitou o momento de fama para escrever o livro “Máfia do Paletó”, que narrava em detalhes os caminhos da propina que enriquece ilegalmente os detentores de cargos públicos em Mato Grosso do Sul.

Atualmente, Eleandro Passaia é apresentador do programa policial Balanço Geral SP, da TV Record. Ele assumiu o posto de âncora do programa em janeiro de 2025, após um período na Rede Massa, do apresentador Ratinho, em Curitiba (PR).

Eleandro Passaia assinou um termo de colaboração premiada com a Polícia Federal e não foi denunciado pelo Ministério Público. Entretanto, o acordo foi anulado pelo Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul.

A 2ª instância da Justiça entendeu que o Ministério Público falhou ao livrar Passaia totalmente das denúncias. A controvérsia jurídica ajudou outros réus a anular punições por improbidade administrativa (esfera cível).

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