Desembargador deixa TJMS e alerta para desvalorização da magistratura
Ary Raghiant Neto afirma que carreira impõe restrições severas e pode afastar profissionais vocacionados

A decisão do desembargador Ary Raghiant Neto de deixar o cargo no Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul (TJMS), após três anos e três meses na Corte, foi motivada por uma combinação de razões pessoais e profissionais, mas traz também uma crítica direta ao cenário atual da magistratura no país.
RESUMO
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O desembargador Ary Raghiant Neto anunciou sua saída do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul (TJMS), prevista para março de 2026, após três anos e três meses de atuação. A decisão foi motivada por questões pessoais e profissionais, incluindo o desejo de retornar à advocacia. Em seu pronunciamento, Raghiant alertou sobre a crescente desvalorização da magistratura no país, destacando as limitações impostas pela função e a constante vigilância sobre a conduta dos magistrados. O desembargador, que atuou por mais de 30 anos na advocacia antes de ingressar no TJMS pelo quinto constitucional, pretende retomar sua atuação na área tributária.
A saída do magistrado está prevista para o dia 27 de março de 2026, conforme portaria publicada no Diário da Justiça e assinada pelo presidente do TJMS, desembargador Dorival Renato Pavan.
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Ao comentar a decisão, Raghiant afirmou que a escolha foi fruto de uma reflexão profunda sobre sua trajetória e sobre as condições da própria carreira judicial. Segundo ele, além de questões familiares e do desejo de retomar a advocacia, a decisão também reflete um ambiente de desvalorização da magistratura, que pode afastar profissionais qualificados da função.
“Foi uma decisão difícil, mas bem pensada”, afirmou.
De acordo com o desembargador, a magistratura enfrenta atualmente um processo que vem reduzindo o interesse de pessoas vocacionadas pela carreira. Para ele, esse cenário precisa ser debatido pela sociedade e pela classe política.
“Gostaria que essa decisão servisse como alerta. É preciso olhar com mais atenção para a magistratura, para que outros magistrados não se sintam desmotivados a permanecer na carreira”, disse.
Raghiant observa que parte da sociedade ainda tem uma visão limitada sobre a função. Segundo ele, muitos enxergam apenas o prestígio do cargo, sem compreender as responsabilidades e restrições impostas ao magistrado.
“As pessoas olham apenas o lado glamouroso da magistratura, mas não entendem como realmente vive um magistrado”, afirmou.
Vida sob constante vigilância
Entre os fatores que pesaram na decisão, o desembargador destaca as limitações impostas pela função. Segundo ele, a carreira exige mudanças profundas na rotina pessoal e social, além de uma vigilância permanente sobre a conduta pública e privada.
De acordo com Raghiant, até manifestações em redes sociais passam a ser analisadas sob outra perspectiva devido ao cargo ocupado.
“Tudo o que você diz ou faz ganha repercussão pelo cargo que ocupa. A vida do magistrado exige muitas limitações”, afirmou.
Nesse contexto, ele também apontou o desejo de retomar uma rotina com maior liberdade profissional.
“Depois dessa experiência na magistratura, senti que era o momento de voltar à advocacia e retomar uma rotina com mais liberdade para exercer a atividade profissional.”
Retorno à advocacia
Raghiant tomou posse no TJMS em 29 de novembro de 2022, pelo quinto constitucional, após uma carreira de mais de 30 anos na advocacia, com atuação destacada nas áreas tributária e eleitoral.
Com a saída da magistratura, ele pretende retomar a atuação jurídica, especialmente em temas ligados ao Direito Tributário — área em que construiu reconhecimento nacional e que ganha relevância diante das mudanças trazidas pela Reforma Tributária.
“Cheguei à conclusão de que deveria voltar para a advocacia, que é uma profissão que faz parte da minha essência”, afirmou.
Apesar da decisão, o desembargador ressaltou a gratidão pela passagem pelo Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul.
“Eu não vim para cá por status ou para alimentar ego. Vim para contribuir com o Judiciário de Mato Grosso do Sul. Fui muito bem recebido e fiz grandes amizades dentro do Tribunal.”
Reconhecimento
O presidente da Associação dos Magistrados de Mato Grosso do Sul (Amamsul), Mário José Esbalqueiro Júnior, destacou a trajetória jurídica do desembargador e a contribuição ao tribunal.
“A passagem do desembargador Ary Raghiant foi marcada pela experiência, dedicação e compromisso com a Justiça. Desejamos a ele sucesso em sua nova jornada”, afirmo

