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Moto Brabas: nasce uma rede de solidariedade feminina no trabalho precarizado

Por Kethury Magalhães dos Santos (*) | 31/03/2026 08:20

Na última década, o trabalho mediado por aplicativos tornou-se um dos principais símbolos da precarização das relações de trabalho no Brasil e no mundo. Entregadores e motoristas passaram a ocupar o centro do debate público, mas há um aspecto frequentemente ignorado nessa discussão: a presença e as experiência das mulheres neste setor. Mesmo em pesquisas acadêmicas sobre o tema, categorias como “gênero”, “mulher” e “feminino” sequer aparecem nas produções teóricas e nas pesquisas empíricas.

Essa ausência, reflexo do machismo estrutural que constitui os pilares da sociedade em que vivemos, corrobora para reforçar a invisibilização histórica do trabalho feminino, incluindo este setor amplamente marcado por riscos à integridade física das e dos trabalhadores, jornadas exaustivas e ausência de proteção social. Em minha pesquisa de mestrado, sobre entregadoras de alimentos e mercadorias, realizada no Distrito Federal, acompanhei algumas integrantes do coletivo Moto Brabas, formado por motogirls que se articularam para enfrentar o isolamento imposto pelas plataformas e a violência de gênero presentes no cotidiano da profissão. O grupo, que hoje reúne cerca de 180 trabalhadoras, nasceu como uma forma de apoio mútuo entre mulheres em um espaço tradicionalmente masculinizado.

Diferentemente de outras formas de organização do trabalho, as plataformas digitais estimulam o isolamento, a competição e o individualismo entre trabalhadoras/es. Cada pessoa disputa mais pedidos sob a gestão algorítmica, sem vínculo empregatício e assumindo todos os riscos que envolvem a atividade laboral, incluindo o risco de perder a própria vida em um acidente de trânsito. Para as mulheres, esses riscos são ampliados, já que estão mais expostas as diferentes formas de violência, como o assédio, a discriminação e o sexismo.

No ato da pesquisa, enquanto observava os laços construídos entre as integrantes do grupo Moto Brabas, tornava-se evidente que aquela rede de apoio fortalecia as trabalhadoras diante das adversidades impostas pela dinâmica do trabalho nas ruas e cumpria um papel fundamental em relação à sobrevivência destas mulheres no cotidiano. Mesmo em situações marcadas pela hostilidade e discriminações frequentes, as trabalhadoras fortaleciam umas às outras compartilhando experiências, dicas e até criando estratégias de segurança (partilhando a localização em tempo real durante o trabalho, por exemplo), transformando o sofrimento em força coletiva.

No entanto, por mais potente que seja esta rede de solidariedade, ela não é capaz de preencher as lacunas que as plataformas e o Estado deixam em branco, haja vista que as trabalhadoras continuam correndo os mesmos riscos dia após dia, seja no trânsito, enfrentando jornadas extenuantes ou expostas ao racismo, sexismo e à exploração econômica por parte destas empresas. Ademais, a invisibilização das mulheres nesse segmento laboral assume contornos que repercutem diretamente na vida destas trabalhadoras. Ou seja, ignorar as dimensões de gênero, raça e posição social no trabalho por meio de plataformas significa naturalizar as violências direcionadas a elas.

Por isso, discutir a regulamentação do trabalho plataformizado é também discutir proteção, dignidade e segurança para essas trabalhadoras e seus pares. Sem políticas públicas efetivas e os devidos mecanismos de responsabilização das plataformas, assim como canais efetivos de denúncias, as mulheres continuarão sendo exploradas e abandonadas à própria sorte. Por isso, embora as Moto Brabas nos ensinam que a solidariedade feminina pode florescer mesmo em um contexto desfavorável e precário, redes de apoio, por mais sólidas que sejam, não substituem direitos. Regulamentar o trabalho por aplicativos é, também, uma forma de garantir que as mulheres sejam acolhidas e protegidas.

(*) Kethury Magalhães dos Santos é doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UnB. Sua investigação articula as dimensões de gênero, precarização laboral, mobilidade urbana e resistência coletiva, contribuindo para o debate sociológico sobre trabalho, tecnologia e desigualdades no capitalismo contemporâneo.

 

Os artigos publicados com assinatura não traduzem necessariamente a opinião do portal. A publicação tem como propósito estimular o debate e provocar a reflexão sobre os problemas brasileiros.