Torne-se mais desagradável
Há um elogio disfarçado de armadilha que muitos de nós ouvimos ao longo da vida: “Você é tão agradável.” O que parece virtude, muitas vezes, é apenas o nome socialmente aceito para a nossa dificuldade em dizer não, em sustentar limites e em tolerar o desconforto alheio sem correr para resolvê-lo. Tornar-se mais desagradável, aqui, não é sobre grosseria gratuita ou indiferença cruel. É sobre parar de se violentar emocionalmente para que o outro se sinta confortável.
Desde cedo aprendemos que ser aceito passa por agradar. Que discordar é feio, que frustrar alguém é sinal de egoísmo, que impor limites é coisa de gente difícil. Crescemos acreditando que o desconforto do outro é responsabilidade nossa — e que, se alguém se sente mal, precisamos ajustar nosso tom, nossa postura, nossa decisão. Assim, vamos nos moldando, nos encolhendo, nos explicando demais. Vamos pedindo licença para existir.
O problema é que esse esforço constante cobra um preço alto. Cada vez que você se coloca em uma posição desconfortável para poupar o outro de um incômodo legítimo, você ensina algo silenciosamente: que o seu limite é negociável, que o seu tempo é elástico, que o seu cansaço pode esperar, que o seu “não” é fraco. E, aos poucos, as pessoas aprendem. Não porque sejam más, mas porque você mostrou o caminho.
Ser mais desagradável é aceitar que o desconforto faz parte das relações adultas. Nem toda conversa precisa terminar bem. Nem toda decisão precisa ser validada. Nem todo pedido merece um “sim”. Às vezes, o outro vai ficar chateado. Às vezes, vai interpretar como frieza, como mudança, como ingratidão. E tudo bem. O sentimento do outro é legítimo, mas a gestão dele não é sua função.
Há uma confusão comum entre empatia e autoanulação. Empatia é compreender o impacto que causamos, não absorver esse impacto como culpa. É possível ser respeitoso e firme, educado e claro, humano e inegociável. O que costuma incomodar não é a firmeza, mas o fato de que ela quebra um padrão conveniente para quem se beneficiava da sua flexibilidade excessiva.
Quando você começa a dizer “isso não funciona para mim”, “não posso”, “não quero”, algo curioso acontece: o mundo não acaba. Algumas pessoas se afastam — geralmente aquelas que só se aproximavam enquanto você se dobrava. Outras ajustam a relação, reaprendem o contato, passam a respeitar. E você, finalmente, passa a caber em si mesmo.
Ser mais desagradável é parar de justificar escolhas óbvias. É não explicar dez vezes o que já foi dito uma. É não sorrir para suavizar um limite. É não rir de algo que te ofende só para não criar clima. É suportar o silêncio constrangedor sem correr para preenchê-lo com concessões. É entender que maturidade não é evitar conflitos a qualquer custo, mas escolher quais conflitos valem a pena — e muitos valem, especialmente os que dizem respeito à sua dignidade.
Existe uma estranha romantização do “aguentar”. Aguentar pessoas difíceis, situações injustas, pedidos abusivos. Como se suportar fosse sinal de força. Mas, na maioria das vezes, é apenas medo de desagradar. Força mesmo é sustentar o próprio limite enquanto o outro lida com a frustração que isso provoca. Força é não se explicar além do necessário. Força é não se punir por não corresponder às expectativas alheias.
Tornar-se mais desagradável é, no fundo, tornar-se mais honesto. Com você e com os outros. É parar de oferecer versões editadas de si mesmo para manter a paz. Porque a paz comprada com desconforto interno é cara demais. Ela custa energia, autoestima e, com o tempo, identidade.
Você não precisa se colocar em posições desconfortáveis para deixar o outro confortável. Relações saudáveis suportam limites. Relações maduras toleram frustrações. E pessoas inteiras não precisam se diminuir para caber.
Se, para alguém, você se torna “difícil” no momento em que passa a se respeitar, talvez o problema nunca tenha sido você — mas o quanto você facilitava. Ser mais desagradável, às vezes, é apenas o nome que dão quando você decide parar de se abandonar.
(*) Cristiane Lang, psicóloga clínica especialista em oncologia.
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