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Cidades

Para lucrar 3X mais, contrabandistas fracionam tirzepatida em seringa delivery

Margem de lucro ultrapassa 1 mil por caixas fracionadas, sem se preocupar com contaminação

Por Anahi Zurutuza | 26/01/2026 10:25
Para lucrar 3X mais, contrabandistas fracionam tirzepatida em seringa delivery
Imagem usada em anúncio de venda de emagrecedores pelo WhatsApp (Foto: Reprodução)

Na onda da busca pelo shape “perfeito”, a febre da tirzepatida, medicamento para o tratamento de diabetes que tem poder emagrecedor, ganhou novos níveis, para além da venda indiscriminada das caixas contendo ampolas dos injetáveis trazidas do Paraguai. Em Campo Grande, comerciantes dos similares ao Mounjaro oferecem doses em seringas, prontas para aplicação e entregues por delivery. Assim, faturam 3 vezes mais.

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O comércio ilegal de tirzepatida, medicamento para diabetes com efeito emagrecedor, alcança novos patamares em Campo Grande. Contrabandistas vendem doses fracionadas em seringas, prontas para aplicação, com entrega em domicílio. O lucro pode ultrapassar R$ 1 mil por caixa comercializada. A prática, que representa alto risco sanitário segundo a Anvisa, se estende para além das fronteiras de Mato Grosso do Sul, alcançando estados como São Paulo e Pernambuco. Em 2025, as apreensões desses produtos superaram as de drogas ilícitas nas rodovias do estado, evidenciando a dimensão do problema.

Os contrabandistas chegam a ter margem de lucro de mais de 1 mil reais com as vendas fracionadas, sem qualquer cuidado com contaminação.

Uma caixa contendo 4 ampolas do T.G, um dos nomes comerciais da tirzepatida vendidas em farmácias paraguaias, custa em média R$ 540 no país vizinho, conforme apurado pelo Campo Grande News com quem compra “direto na fonte”. A embalagem rende 16 aplicações de 2,5 miligramas, que na Capital são oferecidas a R$ 100 cada. Fazendo as contas, para o bolso de quem vende, vão R$ 1,6 mil. Ou seja, lucro de R$ 1.060, se não colocar na ponta do lápis o gasto que o vendedor tem com as seringas e a entrega.

Outro exemplo é o Lipoless MD de 60 mg. Farmácia do Paraguai com a qual a reportagem fez contato vende a caixa por R$ 650 e cobra outros R$ 150 para entregar em Campo Grande. A ampola rende um total de 24 doses de 2,5 mg. São então R$ 2,4 mil para o contrabandista, que embolsa até R$ 1,6 mil.

Para lucrar 3X mais, contrabandistas fracionam tirzepatida em seringa delivery
Anúncio de doses de tirzepatida feito em Campo Grande (Foto: Reprodução)

A oferta das doses na seringa é feita em grupos de WhatsApp. O medicamento pronto para a aplicação chega até os compradores com “taxa de entrega a combinar”. Num deles, com mais de 1 mil membros, volta e meia, há promoções. Na semana passada, 5 aplicações de 2,5 miligramas de T.G saíam a R$ 420 com entrega grátis em toda a Capital.

Alto risco sanitário – Apesar da popularização do fracionamento das ampolas, de acordo com a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), o risco é grande de contaminações por bactérias ou outras toxinas. Medicamentos injetáveis exigem esterilidade absoluta e falhas nesse processo, pela simples manipulação sem luvas, por exemplo, podem causar infecções generalizadas e até fatais.

Ainda conforme a agência, há aí um combo de irregularidades já que apenas farmácias podem vender a substância com receita médica e a embalagem do Mounjaro registrada no Brasil não é fracionável.

Para lucrar 3X mais, contrabandistas fracionam tirzepatida em seringa delivery
Geladeira contendo caixas de similares ao Mounjaro no Paraguai (Foto: Direto das Ruas)

Sem medo – Quem compra, não teme os riscos e ainda se irrita com os alertas feitos por outros participantes. “Veio no grupo para isso?”, questionou membro depois que uma pessoa comentou sobre reportagem que falava da proibição da Anvisa, na quarta-feira (21), da tirzepatida das marcas Synedica e T.G. “Tá com medo, sai do grupo”, respondeu outra integrante.

Para lucrar 3X mais, contrabandistas fracionam tirzepatida em seringa delivery

Na comunidade virtual, os compradores também trocam dicas de como aplicar os emagrecedores e aproveitar até a última gota do líquido “milagroso”. “Queria agradecer a alma bondosa que deu a dica de entortar a agulha para pegar o restinho da ampola”, enviou uma das usuárias do grupo. Outros comentários sobre o procedimento logo vieram.

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Para lucrar 3X mais, contrabandistas fracionam tirzepatida em seringa delivery

“Exportação” – A venda do “Mounjaro do Paraguai” pelo grupo ao qual o Campo Grande News teve acesso ultrapassa as divisas de Mato Grosso do Sul, para São Paulo, Minas Gerais, Espírito Santo e até estados do Nordeste, como Pernambuco. Neste caso, não com doses fracionadas.

A caixas trazidas do Paraguai chegam aos compradores pelos Correios. Nesta semana, a comerciante anunciou aumento nos preços e mudança no método de envio. “A pressão está muito grande, está muito difícil de trazer, está muito difícil mesmo, está tendo muita apreensão”, avisou. Ouça o áudio:

Em 2025, o “contrabando da beleza” rendeu mais apreensões do que flagrantes de tráfico de drogas, conforme observou o tenente-coronel Vinicius de Souza Almeida, comandante da PMR (Polícia Militar Rodoviária) de Mato Grosso do Sul. “O contrabandista trabalha com o que está na moda. Há uns três anos, houve uma explosão de apreensões de narguilé, tabaco e os apetrechos. Depois, veio o vaper e agora são as canetas emagrecedoras”, explicou o coronel em entrevista para matéria publicada em novembro.

O comandante afirma que os flagrantes dão bastante prejuízo para os contrabandistas, mas a fiscalização das rodovias é insuficiente para frear o comércio ilegal se há consumo. “É quase impossível fazer o controle só com as apreensões. Esse é um problema de saúde e da conduta da população que consome”.

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