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Capital

Rastro de lama e prejuízos marcam retomada pós-enchente

Família perde cachorro e bens materiais após enxurrada devastar casa

Por Gustavo Bonotto e Judson Marinho | 24/02/2026 20:54
Rastro de lama e prejuízos marcam retomada pós-enchente
Moradora teve quintal destruído após temporal assolar região do Otávio Pécora. (Foto: Judson Marinho)

Horas após a enxurrada que transformou ruas em rios no Conjunto Residencial Otávio Pécora, moradores começaram a limpar casas tomadas por lama e prejuízos. O alagamento ocorreu no início da tarde desta terça-feira (24), em Campo Grande, e voltou a expor a vulnerabilidade da região durante chuvas intensas.

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Nova enchente no Conjunto Residencial Otávio Pécora, em Campo Grande, causou destruição e prejuízos aos moradores nesta terça-feira. A enxurrada transformou ruas em rios, rompeu muros e deixou famílias ilhadas. Uma mulher e um bebê precisaram ser resgatados pelo Corpo de Bombeiros. O problema é recorrente desde 1993, com nove episódios graves registrados. A Secretaria de Infraestrutura reconhece que o sistema de drenagem é antigo e insuficiente. Um projeto de R$ 80 milhões para solucionar o problema está em fase de captação de recursos.

A água desceu com força das ruas mais altas, rompeu muros, forçou portões e deixou famílias ilhadas nas ruas Jaburu e Galo da Serra.

Uma vizinha, Marilene de Oliveira, contou que ouviu um forte estrondo pouco antes das 14h e, quando saiu para verificar, a água já tomava a via. Segundo ela, a enxurrada veio da rua de cima e atingiu a região em poucos minutos. “Eu escutei um barulhão. Quando fui ver, já estava saindo água e forçando o portão”, disse.

A moradora relatou que o nível passou de um metro e transformou a área em um verdadeiro rio. “Veio descendo das outras ruas. Empurrou portão, estourou muro do fundo e veio tudo para cá. Aqui ficou um rio dentro da minha casa”, afirmou.

Rastro de lama e prejuízos marcam retomada pós-enchente
Marilene teve portão danificado em meio a chuva. (Foto: Judson Marinho)

Durante o pico do alagamento, ela ouviu a vizinha pedir socorro, mas não conseguiu ajudar por causa da força da água. O Corpo de Bombeiros foi acionado e resgatou uma mulher e um bebê que ficaram ilhados. “Eu estava entrando em desespero. Não tinha como abrir o portão”, relatou.

Segundo a vizinha, a família atingida perdeu praticamente tudo. Ela disse que o muro do fundo já havia cedido em outro episódio recente. “Um ano e pouco atrás estourou o muro do fundo. Agora estourou de novo e perderam tudo”, afirmou.

A poucos metros dali, a diarista Laura Auxiliadora de Sousa Leite Caviglione, de 57 anos, encontrou a própria casa destruída quando voltou do trabalho. Ela mora na Rua Jaburu com o marido, Onivar Caviglione, 58.

Rastro de lama e prejuízos marcam retomada pós-enchente
Laura teve casa inundada. (Foto: Judson Marinho)

Laura contou que não havia ninguém no imóvel no momento da enchente. O alerta veio de uma vizinha comunitária. “Eu estava trabalhando. A vizinha me ligou e avisou do perigo. Quando cheguei, já tinha acabado a enchente e encontrei essa bagunça toda”, disse.

O marido chegou antes, mas enfrentou dificuldade para se aproximar da residência por causa do volume de água. Segundo Laura, a enchente foi rápida e intensa. “Ele não tinha nem como chegar até em casa. Estava uma enchente tremenda”, relatou.

O casal havia se mudado para o imóvel havia três meses, após trocar de casa com a antiga moradora. Laura disse que acreditava que o problema não voltaria a ocorrer. “A gente arrumou o portão, colocou barreira, imaginou que não ia mais acontecer. Mesmo assim, não teve jeito. Houve essa tragédia”, afirmou.

Rastro de lama e prejuízos marcam retomada pós-enchente
Casa foi alugada há três meses, diz Laura. (Foto: Judson Marinho)

Além dos danos estruturais, a família perdeu o cachorro de estimação. O yorkshire Pirulito, de cerca de seis anos, foi arrastado pela correnteza. “Ele era meu filhinho de quatro patas”, disse, emocionada.

Segundo Laura, o marido encontrou o animal já sem vida depois que a água atravessou terrenos vizinhos. “A enxurrada foi levando. Derrubou muros e ele foi parar lá no bueiro, na outra rua”.

Os prejuízos materiais também foram grandes. A água e a lama atingiram geladeira, fogão, televisão, máquina de lavar, sofá, cama e outros móveis. “Os poucos bens que a gente tem foram praticamente destruídos”, afirmou.

Sem condições de permanecer no imóvel alugado, o casal foi para a casa da sogra. Agora, busca outro lugar para morar e tenta recomeçar. “Estamos procurando outra casa para começar tudo de novo”, disse Laura.

Rastro de lama e prejuízos marcam retomada pós-enchente
Entulho trazido pela chuva em frente a residência no Otávio Pécora.

Vizinhos relatam que o problema de alagamento é antigo no Otávio Pécora e afeta diferentes ruas sempre que chove forte. Segundo uma moradora, a água que desce das partes mais altas se concentra na região mais baixa do bairro.

“A gente não tem o que fazer, nem para onde correr. Tem que conviver com isso”, afirmou. Ela disse que a situação também afeta o valor dos imóveis. “Até para alugar é difícil. Para vender casa aqui, então, é muita sorte. Todo mundo já conhece a fama do alagamento”, completou.

Enquanto retiram lama das casas e tentam salvar o que restou, os moradores cobram uma solução definitiva para a drenagem da região e temem que novos temporais repitam a cena de destruição.

O problema, afirmam os moradores, é antigo e recorrente. Eles relatam que as enchentes atingem a região desde 1993. Ao todo, já teriam sido nove episódios de alagamentos severos, situação que se arrasta há mais de três décadas e provoca prejuízos materiais e insegurança.

Em busca de soluções, os moradores se reuniram com vereadores, deputados e representantes da Sisep (Secretaria Municipal de Infraestrutura e Serviços Públicos). Nas reuniões, foram apresentadas propostas de curto prazo, como a construção de barreiras de contenção, e medidas definitivas, incluindo o redimensionamento e redesenho da rede de águas pluviais, especialmente nas vias que recebem o volume de água dos bairros mais altos.

O outro lado - Em nota, a Sisep (Secretaria Municipal de Infraestrutura e Serviços Públicos) informou que o sistema de drenagem da região é antigo e não comporta o volume de água das chuvas concentradas, quando chove muito em curto período de tempo.

No texto endereçado à imprensa, a pasta informou que vem atuando na manutenção do sistema de captação de águas pluviais do bairro. Em novembro do ano passado, equipes realizaram a limpeza das bocas de lobo no Otávio Pécora, serviço que deverá ser executado novamente.

A secretaria reconhece que os alagamentos ocorrem durante chuvas concentradas e afirma que, por ser uma região antiga da cidade, o sistema de drenagem também é antigo e não consegue absorver toda a água da chuva com rapidez suficiente.

Entre as medidas apontadas pelo município está o projeto de drenagem e pavimentação da Rua Corguinho, além da construção de barragens para retenção da água. Conforme a prefeitura, o projeto está orçado em R$ 80 milhões e encontra-se em fase de captação de recursos.